
Fóssil articulado foi descoberto em 2018 e 2019 na Formação Snow Hill Island e reconstituído sem danos por microtomografia
O fóssil de um peixe pequeno, ainda articulado e preservado em uma formação rochosa da Antártica, atravessou cinco anos de análises até revelar uma espécie desconhecida pela ciência. O exemplar pertence ao período Cretáceo, quando o continente antártico apresentava condições ambientais diferentes das atuais, e foi identificado como Antarctichthys longipectoralis.
A descoberta foi feita por pesquisadores brasileiros na Formação Snow Hill Island, na Península Antártica, durante uma expedição realizada no verão de 2018 e 2019 pelo projeto Paleoantar. O material é considerado o fóssil de peixe mais bem preservado já encontrado naquela região. Sua conservação permitiu observar a organização do esqueleto e realizar uma reconstituição tridimensional do animal.
Um fóssil encontrado durante uma expedição brasileira
O exemplar chegou ao Brasil depois da expedição e passou a ser analisado por uma equipe formada por pesquisadores de diferentes especialidades e instituições. O trabalho começou com o estudo direto do fóssil e avançou para a investigação de estruturas que não podiam ser observadas apenas pela superfície da rocha.
A pesquisa foi concluída cinco anos depois da chegada do material ao país, com a reconstrução digital do espécime. O resultado foi publicado em 11 de agosto de 2025 na revista científica Nature. A identificação de Antarctichthys longipectoralis ampliou o registro conhecido de peixes que viveram na Antártica durante o Cretáceo.
Mais de dois mil tomogramas revelaram o interior do animal
Para investigar o fóssil sem destruí-lo, os pesquisadores utilizaram a microtomografia, técnica semelhante à tomografia médica. O procedimento emprega raios X para produzir projeções em alta resolução e permite visualizar partes internas de objetos preservados em rocha.
Ao todo, foram gerados mais de dois mil tomogramas, que correspondem às fatias digitais do fóssil. Essas imagens foram integradas por computador e serviram de base para a modelagem tridimensional do peixe. A técnica possibilitou examinar sua anatomia sem remover o material fossilizado nem separar as estruturas ósseas preservadas.
O peixe tinha corpo delgado e media até dez centímetros
As estimativas indicam que o animal media entre oito e dez centímetros. O peixe apresentava cabeça longa, corpo delgado e pequenos espinhos neurais, estruturas associadas à coluna vertebral. A preservação do exemplar articulado manteve os elementos ósseos em posição, oferecendo uma visão mais completa de sua anatomia.
O nome Antarctichthys longipectoralis passou a designar a nova espécie reconhecida a partir desse fóssil. O material não representa apenas uma parte isolada do animal, mas um conjunto articulado que pôde ser analisado por dentro e por fora. Essa combinação ajudou os pesquisadores a reconstruir a forma do peixe como ele existia no Cretáceo.
A Antártica já sustentou florestas e vida marinha diversa
A Antártica atual é marcada pelo gelo, mas o continente já abrigou ambientes com florestas e vida marinha. Para a bióloga Valéria Gallo, professora titular do Departamento de Zoologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, fósseis da região ajudam a compreender a evolução da vida no hemisfério sul e as conexões que influenciaram a biodiversidade atual.
A presença do fóssil indica que a área da Península Antártica provavelmente tinha clima mais quente e maior biodiversidade durante o Cretáceo. A interpretação também reforça o valor de fósseis de flora e fauna como referências para estudar a resposta dos organismos às mudanças ambientais. O registro não permite transportar diretamente o passado para o presente, mas mostra que comunidades vivas já responderam a transformações climáticas em escalas geológicas.
A descoberta foi divulgada em 11 de agosto de 2025, após a publicação do estudo na Nature. O trabalho brasileiro transforma um exemplar de poucos centímetros em uma evidência sobre um continente que já teve ecossistemas muito diferentes dos atuais. Ao revelar o peixe por meio de milhares de fatias digitais, a pesquisa também mostra como a preservação do passado depende tanto do local onde um fóssil é encontrado quanto das ferramentas usadas para enxergá-lo.
Com informações da Agência Brasil.
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