
DNA identificou espécies apreendidas em Guarulhos e expôs lacunas no controle de produtos retirados da costa amazônica.

Uma parceria entre pesquisadores da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (FC-Unesp) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) usou genética forense para identificar espécies em cargas apreendidas no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, nos anos de 2022 e 2023. Os materiais, provenientes da costa amazônica e destinados a Hong Kong, Estados Unidos, Reino Unido, China e Itália, incluíam bexigas natatórias de peixes e milhares de pepinos-do-mar secos, cuja identificação visual era dificultada pelo estado de conservação.
O resultado é mais amplo do que a confirmação de uma apreensão. Ele revela como produtos de alto valor comercial podem sair de cadeias pesqueiras amazônicas sem que a fiscalização consiga, apenas pelo aspecto físico, determinar sua origem ou espécie. Também expõe uma lacuna central: sem bancos de dados genéticos robustos, parte do comércio de organismos marinhos permanece difícil de rastrear.
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As bexigas natatórias, conhecidas no mercado como grude, podem ser exportadas legalmente quando atendem às exigências de armazenamento, origem e documentação. As cargas analisadas, contudo, foram retidas por não cumprirem os trâmites exigidos. A distinção entre comércio autorizado e irregular é importante, porque nem todo produto apreendido é necessariamente proibido por sua natureza.
Nos peixes, a bexiga natatória controla a flutuabilidade. Depois de desidratada, ela é utilizada na produção de ictiocola, substância aplicada para clarificar vinhos e acelerar etapas de filtragem e refino da cerveja. Na China e em Hong Kong, o produto também aparece em caldos, sopas e preparações da medicina tradicional.
O incentivo econômico ajuda a explicar a pressão sobre os estoques. Segundo os pesquisadores, um quilo de bexigas natatórias pode alcançar cerca de R$ 3 mil no Pará, valor aproximadamente cem vezes superior ao preço da carne de espécies como a pescada-amarela e a gurijuba. As duas estão classificadas como vulneráveis à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza.
Segundo a FC-Unesp, as análises realizadas em 2022 e 2023 identificaram principalmente pescada-amarela e gurijuba nas bexigas natatórias apreendidas no Aeroporto de Guarulhos. A concentração dessas espécies não prova, isoladamente, a dimensão total da exploração, mas levanta uma questão objetiva sobre a capacidade de reposição dos estoques naturais.
Pepinos-do-mar entram no radar da conservação
No caso dos pepinos-do-mar, o comércio é proibido. O material apreendido foi associado a duas espécies abundantes na costa brasileira, Holothuria grisea e Isostichopus badionotus. A confirmação foi especialmente difícil porque os animais estavam completamente desidratados, condição que reduz o volume da carga e amplia sua durabilidade, mas também degrada o DNA.
Para superar o problema, os pesquisadores coletaram exemplares frescos em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, e sequenciaram um trecho do genoma chamado COI. Esse segmento funciona como um código de barras molecular. A comparação entre os exemplares frescos e as amostras apreendidas confirmou a correspondência entre as espécies.
A investigação também encontrou uma contradição reveladora. Embora Holothuria grisea seja classificada como menos preocupante pela IUCN, a espécie não possuía sequências genéticas depositadas em bancos de dados. Uma classificação de baixo risco não elimina a necessidade de monitoramento, sobretudo quando faltam ferramentas para identificar rapidamente o material apreendido.
Entenda o caso
Os fiscais do Ibama apreenderam cargas em terminais de passageiros e de cargas de Guarulhos. Pequenas amostras foram encaminhadas ao Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes da FC-Unesp, em Bauru.
O exame genético foi necessário porque o processamento, a secagem e a descaracterização dos organismos impediam uma identificação segura por aparência. Os resultados foram publicados nas revistas Forensic Science International: Reports e Scientific Reports.
O trabalho foi realizado com apoio da FAPESP, no âmbito do Programa BIOTA, e teve como autoras principais Auany Camila Fantinelli, no estudo dos pepinos-do-mar, e Gabriela Idaline de Freitas, na pesquisa sobre bexigas natatórias.
Impacto vai além do comércio
Os pepinos-do-mar costumam receber menos atenção do que golfinhos, baleias e outros animais de apelo popular. No entanto, desempenham funções ecológicas relevantes, como a filtragem de detritos e a participação na cadeia alimentar marinha. A redução de suas populações pode alterar o funcionamento dos ambientes costeiros e eliminar compostos bioativos ainda pouco estudados.
O histórico internacional reforça o alerta. Na China, a captura intensa de Apostichopus japonicus provocou queda significativa das populações e estimulou a importação de espécies de outros países. Esse efeito de substituição ajuda a explicar por que populações aparentemente abundantes em uma região podem entrar rapidamente na mira de mercados externos.
Para a Amazônia, o problema envolve todos os estados conectados às rotas de produção, circulação e exportação de pescado e subprodutos, ainda que a apreensão tenha ocorrido em São Paulo. Pará e Amapá, especialmente ligados à costa amazônica, aparecem no centro da discussão sobre valor econômico, origem e sustentabilidade, mas o controle depende de integração entre comunidades pesqueiras, órgãos ambientais, portos, aeroportos e compradores internacionais.
A parceria entre a universidade e o Ibama continua em andamento. Os próximos passos incluem validar métodos mais rápidos, como o DNA metabarcoding, capaz de detectar várias espécies em uma única amostra, e testes de PCR em tempo real para triagem de materiais de interesse.
Onde consultar os estudos
Os resultados podem ser consultados no artigo sobre a identificação genética de pepinos-do-mar publicado na revista Scientific Reports e no estudo sobre o uso de DNA barcoding no monitoramento do comércio internacional de bexigas natatórias, publicado em Forensic Science International: Reports. A continuidade dessas pesquisas deverá indicar se as novas técnicas conseguem reduzir custos e acelerar decisões de fiscalização.
Perguntas frequentes
O que a genética forense identificou?
O método identificou duas espécies de pepinos-do-mar e confirmou principalmente pescada-amarela e gurijuba nas bexigas natatórias analisadas.
Todo comércio de bexiga natatória é proibido?
Não. A exportação pode ser autorizada quando há documentação de origem, armazenamento adequado e cumprimento das regras aplicáveis. As cargas analisadas foram apreendidas por irregularidades nos trâmites.
Por que os pepinos-do-mar preocupam?
O comércio é proibido no caso analisado, e esses animais exercem funções ecológicas importantes. A escassez de dados genéticos dificulta a fiscalização e pode ocultar quedas populacionais.
Com informações de FAPESP.
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