
Na Terra Indígena Panará, na divisa entre Pará e Mato Grosso, o povo que já enfrentou a expansão da fronteira agrícola e a perda de território agora lidera um inventário científico de sua própria floresta. Em parceria com a Conservação Internacional (CI-Brasil), a Rede Xingu+, a Associação Indígena Iakiô e universidades públicas, os pesquisadores indígenas percorreram 500 mil hectares e registraram quase 15 mil indivíduos de flora e fauna pertencentes a 602 espécies. Entre elas, 27 estão classificadas como criticamente ameaçadas. E uma árvore, chamada “Já” pelos Panará e conhecida há gerações por eles, está em análise como possível espécie nova para a ciência.
O projeto, divulgado em agosto de 2026 pela Agência Brasil, representa um modelo de ciência colaborativa em que o conhecimento ancestral orienta a coleta de dados e a interpretação dos resultados. “O Panará sabe ler a floresta de uma forma que nenhum instrumento científico substitui. Eles sabem o que cada animal come e como se move”, afirmou Renata Pinheiro, diretora do programa de Povos Indígenas e Comunidades Locais da CI-Brasil.
Como o inventário foi feito
Os pesquisadores indígenas receberam treinamento no uso de GPS, aplicativo de catalogação de espécies e armadilhas fotográficas (camera traps) ativadas por movimento ou calor. As expedições combinaram caminhadas em trilhas tradicionais com coleta de amostras de plantas, água do rio Rriri (afluente do Xingu) e registros fotográficos. Mulheres Panará, como Kiarysy Kaiabi Panará (conhecida como Cutia) e Pentê Panará, da aldeia Sõnkârãsãn, participaram ativamente.
🌿 Receba nossas notícias no Google
⭐ Adicionar Revista AmazôniaLeia também
Povos indígenas de 10 etnias e ribeirinhos documentam a caça de 447.438 animais em 625 localidades da Amazônia e estudo na Nature revela que florestas saudáveis fornecem quase metade da proteína e ferro a 11 milhões de pessoas, enquanto o desmatamento reduz a produtividade em 67% em quase 500 mil km²
Na infância ele abriu o casulo para a borboleta sair mais depressa, as asas nasceram entortadas sem força e o inseto nunca voou
Desabafo na rede acusa as espécies de não evoluírem nem no respeito, mas lobos, corvos, morcegos e primatas cooperam sem moral humana“Foi ótimo trabalhar ao lado de pesquisadores não indígenas. Nós ensinamos uns aos outros”, disse Cutia. Pentê destacou o impacto das câmeras: “Quando as câmeras registraram imagens dos animais peludos, conseguimos identificar mais espécies do que conhecíamos. Depois fiquei muito feliz com essa parte da pesquisa que envolve tecnologia.”
O inventário foi temporariamente pausado por falta de recursos, mas a expectativa é de retomada para conclusão. Mesmo assim, os números já obtidos mostram a riqueza e a vulnerabilidade da área: 602 espécies catalogadas, 27 criticamente ameaçadas e indícios de pelo menos uma espécie de árvore potencialmente nova.
A árvore “Já” e o valor do conhecimento ancestral
A árvore chamada “Já” pelos Panará é um dos exemplares marcados durante as expedições. Amostras e imagens foram coletadas, mas a confirmação científica ainda depende de material completo, inclusive da floração. Segundo Renata Pinheiro, a descoberta é recente e a coleta ainda não está finalizada. Para os Panará, a árvore não é nova: ela faz parte do repertório de conhecimento que passa de geração em geração.
Esse ponto ilustra a mudança de paradigma. Em vez de extrair dados e partir, a ciência passa a ser construída com e pelos povos indígenas. O resultado é mais rápido, mais legítimo e mais útil para a conservação do território.
Tecnologia e saberes tradicionais juntos
As armadilhas fotográficas revelaram espécies elusivas que os pesquisadores indígenas já conheciam por rastros e sons, mas que a ciência formal ainda não havia documentado naquele local com a mesma precisão. O uso combinado de conhecimento local e ferramentas digitais permitiu mapear caminhos de animais, padrões de alimentação e distribuição espacial de forma que nenhum dos dois sistemas isolados conseguiria.
Pentê Panará observou: “Durante essa pesquisa, toda vez que andávamos pela floresta encontramos rastros de outros animais. Dá para dizer os caminhos que eles fazem. Para mim, ainda tem muito mais por aí.”
Contexto brasileiro e importância para a conservação
A Terra Indígena Panará fica em região de pressão histórica por desmatamento, garimpo ilegal e atividades ilícitas. O inventário colaborativo fortalece a proteção do território ao gerar dados concretos que podem embasar políticas públicas, fiscalização e projetos de restauração. Em um momento em que a ciência brasileira busca maior inclusão e relevância social, o modelo Panará mostra que a parceria com povos indígenas não é apenas ética: é eficiente.
No Brasil, iniciativas semelhantes se multiplicam. Elas reforçam o papel das terras indígenas como áreas de alta integridade florestal e de biodiversidade. Os números de 15 mil espécimes, 602 espécies e 27 criticamente ameaçadas servem de base para monitoramento de longo prazo e para reivindicações de direitos territoriais.
Limitações e próximos passos
O projeto ainda precisa de financiamento para ser concluído e para a análise botânica completa da árvore “Já”. A participação de mais mulheres Panará é um desejo expresso pelas próprias pesquisadoras. Ainda assim, os resultados já obtidos em 2026 representam um marco de ciência intercultural na Amazônia brasileira.
A história do povo Panará e dos quase 15 mil seres vivos catalogados em 500 mil hectares mostra que a floresta continua revelando segredos quando quem a conhece profundamente lidera a pesquisa. A possível nova espécie de árvore é apenas o símbolo mais visível de um processo maior: a ciência feita com os povos indígenas produz conhecimento mais completo e proteção mais efetiva do território.
Fonte: Agência Brasil, 18-19 de agosto de 2026. Projeto Conservação Internacional (CI-Brasil), Rede Xingu+, Associação Indígena Iakiô e universidades públicas. Entrevistas com Kiarysy Kaiabi Panará (Cutia), Pentê Panará e Renata Pinheiro.
Nunca perca uma notícia da AmazôniaControle o que você vê no Google
O Google lançou as Fontes Preferenciais: escolha os veículos que aparecem com prioridade. Adicione a Revista Amazônia e garanta cobertura exclusiva sempre em destaque.
Adicionar Revista Amazônia como Fonte Preferencial1. Pesquise qualquer assunto no Google
2. Toque no ⭐ ao lado de "Principais Notícias"
3. Busque Revista Amazônia e marque a caixa — pronto!












