
Estudo publicado na revista Cell indica que crustáceanos incorporaram há mais de 16 milhões de anos um gene vindo de bactérias.
Um crustáceo marinho de até meio metro consegue atravessar mais de cinco anos sem se alimentar. A explicação para essa resistência pode estar em um gene que os isópodes gigantes teriam incorporado de bactérias há mais de 16 milhões de anos, segundo uma pesquisa publicada na revista Cell e divulgada em 11 de setembro de 2026 pela Scientific American.
Esses animais vivem em regiões onde encontrar comida é um evento raro. Parentes distantes dos tatuzinhos-de-jardim, eles ocupam diferentes faixas de profundidade, de cerca de 170 metros até aproximadamente 2.100 metros abaixo da superfície. No ambiente mais profundo, a ausência de luz, o frio e a escassez de matéria orgânica impõem uma rotina de economia extrema de energia.
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Os isópodes marinhos gigantes têm carapaça, olhos compostos de formato triangular e antenas longas. A aparência incomum é acompanhada por uma estratégia igualmente particular: quando encontram alimento, podem consumir grandes quantidades e armazenar recursos para períodos prolongados de escassez.
O tamanho do estômago ajuda nesse processo, mas não explica sozinho como o animal permanece vivo por anos sem uma nova refeição. O ponto central está na capacidade de desacelerar o metabolismo, reduzindo o gasto de energia quando a temperatura cai e a comida desaparece.
Segundo a Scientific American, isópodes gigantes do mar profundo podem sobreviver por mais de cinco anos sem comer em condições de escassez alimentar no oceano profundo. Essa adaptação permite que o animal atravesse intervalos longos entre uma oportunidade de alimentação e outra.
O gene que parece ter vindo de bactérias
Para investigar a diferença entre espécies que vivem em profundidades distintas, os pesquisadores sequenciaram genomas completos de exemplares encontrados a 300 e 800 metros. Também compararam o consumo de oxigênio, a atividade de enzimas e as exigências energéticas dos animais.
Um gene chamado ND1 chamou a atenção. Ele aparecia com atividade muito mais intensa nos isópodes do mar profundo e apresentava características pouco comuns para um gene animal. O trecho não tinha introns, segmentos que normalmente aparecem intercalados em muitos genes de animais, e produzia proteínas muito pequenas.
Esses sinais levaram a equipe a propor que o ND1 tem origem bacteriana. A hipótese é que bactérias presentes no estômago de um ancestral dos isópodes tenham transferido material genético para o animal. Depois de incorporado ao genoma, o gene teria sido transmitido às gerações seguintes.
Como a economia de energia funciona
Ao longo de milhões de anos, o gene teria se multiplicado no genoma dos isópodes de águas profundas. Em condições frias, suas cópias parecem atuar na redução da produção de energia, o que diminui o ritmo metabólico do organismo.
O efeito foi testado em outros sistemas biológicos. Quando os pesquisadores inseriram o gene em peixes-zebra, vermes nematódeos e células humanas, observaram redução nas taxas metabólicas. O resultado não significa que esses organismos tenham adquirido a mesma capacidade de sobreviver sem alimento, mas sugere que o gene interfere em um mecanismo básico de consumo energético.
A transferência de genes entre bactérias e animais é considerada rara porque os dois grupos têm organizações biológicas muito diferentes. Por isso, a possibilidade de um gene bacteriano ter contribuído para uma adaptação animal ao mar profundo amplia a discussão sobre o papel dos microrganismos na evolução.
O que a descoberta revela sobre o oceano profundo
O estudo também ajuda a explicar por que alguns isópodes se tornaram tão grandes em comparação com parentes de águas mais rasas. O chamado gigantismo de animais do mar profundo ainda envolve várias hipóteses, e o gene ND1 pode ser uma peça relacionada ao controle do metabolismo, mas não é apresentado como explicação única para o tamanho desses crustáceos.
A pesquisa abre uma nova frente para investigar a relação entre microbioma, alimentação e adaptação em ambientes extremos. Bactérias que vivem dentro ou sobre animais podem influenciar características importantes do hospedeiro, inclusive a forma como ele usa oxigênio e armazena energia.
Essa perspectiva é relevante para o Brasil porque a costa amazônica está ligada ao Atlântico tropical, um espaço marcado pela influência dos rios, pela circulação de nutrientes e por diferentes ambientes marinhos. Embora os isópodes estudados não sejam animais de água doce da Amazônia, compreender como organismos enfrentam frio, pressão e falta de alimento pode contribuir para pesquisas sobre a biodiversidade profunda do oceano que banha Amapá, Pará e Maranhão.
Uma área maior que metade da superfície terrestre
Os ecossistemas do mar profundo ocupam mais de 50% da superfície da Terra e participam de processos fundamentais para o funcionamento do planeta. Eles abrigam organismos ainda pouco conhecidos e armazenam informações sobre ciclos de nutrientes, energia e adaptação à escuridão.
Para Torben Riehl, biólogo marinho da Senckenberg Ocean Species Alliance, na Alemanha, o resultado cria uma oportunidade de estudar de maneira diferente o gigantismo em águas profundas e a influência do microbioma na adaptação desses animais. Ele não participou da pesquisa.
A descoberta, no entanto, ainda depende de novas análises para confirmar em detalhes quando ocorreu a transferência do gene, como ela foi preservada e quais bactérias participaram desse processo. Os dados atuais sustentam uma hipótese evolutiva baseada no genoma e em testes laboratoriais, não uma observação direta do evento ocorrido no passado.
Os próximos estudos deverão comparar mais espécies de isópodes, ampliar a análise de seus microrganismos associados e avaliar se outros animais do mar profundo também carregam genes adquiridos de bactérias.
O artigo científico citado na reportagem está disponível na página da pesquisa publicada pela revista Cell.
Com informações de Scientific American.
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