Lagarto calango no muro e no jardim: por que aparece com frequência e o que a ciência diz sobre ele

Lagarto calango o que significa quando ele aparece com frequência nos muros e jardins
Lagarto calango o que significa quando ele aparece com frequência nos muros e jardins

Quem tem um muro ensolarado ou um jardim com pedras provavelmente já viu um lagarto calango parado, de cabeça erguida, olhando o movimento. Calango é um nome popular usado no Brasil para vários lagartos, e o que mais costuma aparecer em muros e quintais de casas é o Tropidurus torquatus. Há bastante pesquisa sobre ele, e o que ela mostra é que a presença do animal diz mais sobre sol, abrigo, comida e território do que sobre qualquer simbolismo.

Um lagarto que vive bem em áreas alteradas

Segundo a Lista Vermelha da IUCN, o Tropidurus torquatus ocorre em vários países da América do Sul e é classificado como pouco preocupante. Estudos de levantamento de fauna, como o de Winck e colegas (2011) na revista Check List, mostram que ele ocupa principalmente ambientes abertos, em especial a restinga da Mata Atlântica, mas também usa restingas perturbadas e degradadas, vive no Cerrado e foi registrado até no Arquipélago de Abrolhos, na Bahia. Em áreas residenciais, é hábil em escalar paredes de casas.

Isso contradiz a ideia de que o calango só aparece onde o ambiente está preservado. Um estudo de 2020 no Journal of Herpetology comparou lagartos de um local pouco perturbado com os do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e concluiu que a espécie é generalista tanto de hábitat quanto de hábitos, ocorrendo em ambientes preservados e alterados, inclusive urbanos. Os autores não encontraram reflexo do nível de perturbação humana na dieta dos animais. Ver um calango no muro, portanto, não é prova de ecossistema intacto: significa que ele encontrou ali o que precisa.

O que o calango come

A IUCN descreve o Tropidurus torquatus como onívoro, que come invertebrados e material vegetal. As formigas são o item mais importante em boa parte dos estudos. No Jardim Botânico do Rio de Janeiro, formigas e outros himenópteros alados predominaram na dieta, e em Marambaia, no litoral fluminense, dominaram as formigas. Em estudo no Cerrado, os himenópteros, sobretudo formigas, foram as presas mais abundantes, resultado ligado ao comportamento de caça de espera, em que o lagarto aguarda a presa passar. Também há frutos e flores: pesquisa de Carvalho e colegas (2007), na Revista Brasileira de Zoologia, registra o consumo de frutos, como os de Erythroxylum ovalifolium no verão.

A dieta muda com a idade e com a região. Na análise de populações ao longo do litoral brasileiro, publicada na revista Biota Neotropica, a variação entre locais esteve ligada principalmente à disponibilidade de alimento, com algumas populações dominadas por cupins, outras por formigas e outras por material vegetal, e os filhotes comem menos vegetais que os adultos. O animal, portanto, come insetos, inclusive os que incomodam em casa, mas o que se sabe sobre sua dieta não permite afirmar que ele controle pragas urbanas.

Por que o mesmo muro vira ponto fixo

Os machos são territoriais. Em estudo publicado em 2006 na revista Phyllomedusa por Kohlsdorf, Ribeiro e Navas, os machos sinalizam o território com balanços de cabeça e batidas de cauda, e disputam espaço com perseguições e lutas. Machos maiores e mais rápidos tendem a ficar com territórios de melhor qualidade, que são os que têm muitos esconderijos e bastante sol. As fêmeas preferem esses territórios e aceitam os machos que os defendem, de modo que um macho pode manter várias fêmeas numa área boa. Já os machos de territórios piores exibiram mais movimentos de cabeça, percorreram distâncias maiores e eram um pouco mais lentos.

Um muro quente, com frestas e vegetação por perto, reúne justamente o que o lagarto procura: lugar para tomar sol, esconderijo contra predadores e acesso a formigas. Por isso é comum ver o mesmo animal, ou o mesmo grupo, repetidamente no mesmo trecho. A parada de cabeça erguida e os movimentos de sobe e desce do corpo que muita gente nota são, em boa parte, comunicação entre machos.

Reprodução e a cauda que se solta

As fêmeas enterram os ovos, em geral sob pedras. Num estudo no Arquipélago de Abrolhos, a ninhada média foi de cerca de 4,1 ovos, com variação de 2 a 6, e várias fêmeas chegaram a usar a mesma pedra. No Chaco úmido, na Argentina, as fêmeas fizeram ao menos duas ninhadas de cerca de seis ovos por estação, o que mostra variação entre populações.

A perda da cauda tem explicação biológica. Em lagartos, soltar a cauda é uma defesa contra predadores muito difundida, seguida de regeneração. Trabalho com o lagarto brasileiro Colobosauroides cearensis descreve que a estrutura regenerada é formada por cartilagem hialina e feixes musculares novos, e que a cartilagem se forma sobre a borda da vértebra original, de modo que a cauda nova não repete a estrutura da antiga. Quando a quebra é incompleta, a cauda pode se bifurcar na regeneração.

Convivência com o calango

Leituras simbólicas, como as de sorte, limpeza de energia ou presságio, são crenças culturais e não fazem parte do que a biologia consegue verificar. O que se pode dizer com base nos estudos é que o calango é um animal silvestre, comum, que usa muros, pedras e jardins para se aquecer, se esconder e caçar. O melhor é deixá-lo em paz e evitar capturá-lo, já que, como qualquer animal silvestre, pode morder quando é agarrado. Manter pedras, vasos e plantas que ofereçam sombra e abrigo favorece a presença dele, e evitar inseticidas no jardim reduz a contaminação do alimento que o animal consome, formigas e outros insetos.

Se o calango sumir do muro, não há como saber o motivo sem observar o local: pode ter sido a ação de um predador, uma reforma que eliminou as frestas ou a simples troca do dono do território.

Leia mais artigos aqui

Conheça também – Revista Para+

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA