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Mais de 100 lagos sul-americanos podem se tornar observatórios de alerta precoce para as mudanças climáticas

Esquema mostra os bioindicadores microbianos de um lago costeiro raso

Mais de 100 lagos rasos, estendendo-se por mais de 1.000 quilômetros (620 milhas) ao longo da costa atlântica do sul do Brasil e do Uruguai, podem se tornar um dos laboratórios naturais mais importantes do mundo para a compreensão de como as mudanças climáticas e as atividades humanas remodelam os ecossistemas de água doce.

Fotos: Kluge et al., 2026, Oliveira et al. 2019, One Ecosystem (2026), World Journal of Microbiology and Biotechnology

Uma equipe internacional de pesquisadores relata que esses lagos subtropicais, em grande parte negligenciados, oferecem uma oportunidade incomparável para monitorar a biodiversidade, a qualidade da água, a poluição e a resiliência do ecossistema em um mundo em rápida transformação.

Sistema de lagos costeiros subtropicais rasos do sul da América (SACSSL), com seus quatro subsistemas em detalhes: I — Sistema do Rio Tramandaí (TRS); II — Sistema Mangueira-Mirim (MMS); III — Sistema da Lagoa dos Patos (PLS); IV — Sistema da Lagoa Uruguaia (ULS).
Sistema de lagos costeiros subtropicais rasos do sul da América (SACSSL), com seus quatro subsistemas em detalhes: I — Sistema do Rio Tramandaí (TRS); II — Sistema Mangueira-Mirim (MMS); III — Sistema da Lagoa dos Patos (PLS); IV — Sistema da Lagoa Uruguaia (ULS).

Publicado na One Ecosystem, o estudo é a primeira avaliação abrangente dos lagos subtropicais rasos costeiros do sul da América do Sul, destacando sua importância científica global e delineando um roteiro para o monitoramento internacional a longo prazo.

“A maior parte do que sabemos sobre lagos vem do Hemisfério Norte”, disse a autora principal, Mariana Kluge, da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas (SLU).

“Esses lagos subtropicais preenchem uma lacuna importante na pesquisa global de água doce. Eles nos permitem testar teorias ecológicas em condições ambientais muito diferentes, ao mesmo tempo que fornecem informações cruciais sobre como os ecossistemas de água doce subtropicais respondem às mudanças climáticas e às crescentes pressões humanas”, disse Renata Medina-Silva, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Um vasto sistema sob pressão

A rede lacustre forma um dos maiores sistemas contínuos de lagos costeiros rasos da Terra. Apesar de seu tamanho e diversidade extraordinários, recebeu muito menos atenção científica do que sistemas de água doce bem conhecidos em outras partes do mundo.

Localização dos SA-CSSL — Lagos Subtropicais Rasos Costeiros do Sul da América, com classes de uso e cobertura do solo e sua alteração de 1985 a 2022.
Localização dos SA-CSSL — Lagos Subtropicais Rasos Costeiros do Sul da América, com classes de uso e cobertura do solo e sua alteração de 1985 a 2022.

No entanto, a região já está enfrentando muitos dos desafios ambientais que devem se intensificar nas próximas décadas — incluindo o impacto direto do El Niño-Oscilação Sul — juntamente com a intensa urbanização, que tem impulsionado a eutrofização, a poluição agrícola e de águas residuais, o surgimento de contaminantes como produtos farmacêuticos e microplásticos, e eventos extremos de chuva e inundações cada vez mais frequentes.

Christian Wurzbacher, da Universidade Técnica de Munique, argumenta que esses lagos podem servir como “ecossistemas sentinela” — observatórios naturais que revelam sinais precoces de mudanças ambientais.

Combinando ecologia microbiana, DNA ambiental, sensoriamento remoto, química da água e monitoramento ecológico de longo prazo, os cientistas esperam desenvolver novos indicadores capazes de detectar o estresse do ecossistema antes que ocorram danos irreversíveis.

“Nossa visão é estabelecer uma rede de monitoramento coordenada internacionalmente que não só beneficie a América do Sul, mas também aprimore nossa compreensão dos ecossistemas de água doce em todo o mundo. As comunidades microbianas que vivem nesses lagos podem atuar como sensores biológicos altamente sensíveis, ajudando-nos a identificar poluição, degradação do ecossistema e até mesmo riscos emergentes à saúde pública”, disse Haig, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Visão geral da heterogeneidade ambiental encontrada nos sistemas lacustres costeiros únicos da América do Sul.
Visão geral da heterogeneidade ambiental encontrada nos sistemas lacustres costeiros únicos da América do Sul.

Construindo uma rede de pesquisa de longo prazo

A publicação surgiu de um workshop internacional realizado em duas universidades — PUCRS e UFRGS — em Porto Alegre, no sul do Brasil, reunindo pesquisadores do Brasil, Uruguai, Alemanha e Suécia para definir as prioridades futuras de pesquisa.

A equipe identificou quatro regiões lacustres representativas em grande escala que, juntas, capturam os amplos gradientes ambientais em todo o sistema e oferecem locais ideais para observação coordenada a longo prazo.

Ecossistemas de água doce em todo o mundo.
Ecossistemas de água doce em todo o mundo.

Com a aceleração das mudanças climáticas e o aumento da pressão sobre os recursos de água doce, os pesquisadores acreditam que a proteção e o estudo desses notáveis sistemas lacustres gerarão conhecimento que se estenderá muito além da América do Sul, contribuindo para estratégias globais de salvaguarda da biodiversidade, aprimoramento da gestão hídrica e fortalecimento da resiliência às mudanças ambientais.

Por Pensoft Publishers

Matéria publicada originalmente na edição 156 da Revista Amazônia.

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