
Cada fragmento de plástico que flutua nos rios vira uma “plastisfera”, microscópica ilha de bactérias, vírus e genes de resistência a antibióticos. A mesma ciência que revela o risco já procura micróbios e enzimas capazes de devorar o plástico.
Imagens: Lin et al. (2026), Frontiers of Environmental Science & Engineering / CC BY 4.0
Os rios da Amazônia brasileira recebem cerca de 182 mil toneladas de plástico por ano, volume que coloca a maior bacia hidrográfica do planeta como a segunda mais poluída por esse material no mundo, segundo levantamento divulgado em 2024. Boa parte desse lixo não permanece intacta. Ela se parte em pedaços cada vez menores até virar microplástico, fragmentos com menos de cinco milímetros que a correnteza carrega rio abaixo.
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Quem encontra uma peça arqueológica no quintal precisa evitar duas ações, porque o lugar também guarda informação sobre o passadoEm setembro de 2025, um estudo coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, reuniu pela primeira vez, de forma sistemática, o que a ciência já sabe sobre a contaminação plástica no bioma amazônico. A revisão, publicada na revista científica Ambio, analisou 52 estudos e encontrou plástico em peixes, plantas, sedimentos e na água. “Revisamos uma gama de relatos sobre lixo e fragmentos de plástico em ambientes terrestres e aquáticos do bioma amazônico, o que indica um impacto muito maior do que a maioria das pessoas imagina”, afirmou o epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia.

Uma ilha de micróbios em cada fragmento
O que torna esse lixo especialmente traiçoeiro é invisível a olho nu. Assim que entra na água, cada partícula de plástico é rapidamente colonizada por micro-organismos que formam, sobre sua superfície, um ecossistema próprio, batizado de plastisfera em 2013. O termo descreve a película viva de bactérias, fungos e vírus que recobre o plástico. A síntese mais recente sobre o tema saiu em 2026 na revista Frontiers of Environmental Science & Engineering, assinada por Wenfang Lin, Yong-guan Zhu e colegas da Academia Chinesa de Ciências.
Por ser um material que repele a água, o plástico funciona como um ímã para poluentes dissolvidos, de metais pesados a resíduos de antibióticos e agrotóxicos. Envolvidas por uma cola biológica que os próprios micróbios produzem, as bactérias ficam grudadas umas às outras nesse abrigo. É o cenário ideal para a troca de genes entre elas, incluindo os genes de resistência a antibióticos, conhecidos pela sigla em inglês ARGs.
Os números impressionam. Nas plastisferas de ambientes aquáticos, a concentração desses genes de resistência chega a ser cerca de três vezes maior do que na água ao redor, segundo dados reunidos pelos pesquisadores. Outro levantamento citado no artigo aponta risco de resistência antimicrobiana até 10 vezes maior sobre o plástico do que em superfícies naturais, como pedras e folhas.
Carona rio abaixo
É aqui que a geografia amazônica entra na conta. Por ser leve e flutuar, o plástico viaja longas distâncias empurrado pela correnteza e leva consigo os micróbios que o habitam, transportando-os do trecho de origem para novos ambientes rio abaixo. No caso amazônico, esse deslocamento cruza comunidades, cidades e até fronteiras entre países. Entre os passageiros podem estar bactérias do gênero Vibrio, que causam doenças em peixes e também em seres humanos, e vírus que sobrevivem mais tempo grudados ao plástico do que em outras superfícies.
Pesquisadores do Instituto Mamirauá relatam que, no interior do Amazonas, o lixo doméstico já foi majoritariamente orgânico, mas hoje os rios aparecem repletos de garrafas PET, sigla do polietileno tereftalato, e de embalagens plásticas. Para a bióloga Jéssica Melo, uma das autoras da revisão, a contaminação de fontes de alimento e de água “representa um grande risco para a saúde de populações tradicionais”, sobretudo ribeirinhos e indígenas.
O caminho até o prato
O plástico não para nos rios. Um estudo conduzido no rio Machado, importante afluente do rio Madeira, em Rondônia, mostrou como esses fragmentos entram na cadeia alimentar. A equipe coordenada pelo biólogo Igor David da Costa, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), analisou 1.082 pequenos peixes de 29 espécies, os conhecidos piabas e acarás, capturados em 24 praias dentro de área protegida. Em 382 deles, cerca de 30%, havia microplástico no organismo, e 24 das 29 espécies estavam contaminadas. Mais da metade do material eram fibras sintéticas, provavelmente soltas de roupas durante a lavagem e levadas aos rios pela falta de saneamento.
“São esses pequenos peixes que servem de alimento para os peixes maiores, consumidos pela população ribeirinha e das capitais da região Norte”, explicou Costa. O fenômeno se chama biomagnificação: as substâncias se acumulam ao longo da cadeia alimentar e chegam concentradas ao topo, onde está o ser humano. Desde 2022, quando o microplástico foi detectado pela primeira vez no sangue humano, partículas do material já foram encontradas em órgãos como coração e cérebro e até na placenta de gestantes. Entre os efeitos suspeitos estão estresse oxidativo e inflamação crônica.
Os próprios autores da revisão de 2026 pedem cautela. Parte das medições mais alarmantes pode estar superestimada por limitações das técnicas de análise, ponderam, o que reforça a necessidade de estudos mais rigorosos antes de conclusões definitivas sobre os danos à saúde.
Micróbios que comem plástico
Se os micróbios são parte do problema, também podem ser parte da solução. A mesma plastisfera que abriga riscos guarda organismos capazes de degradar o plástico. O exemplo mais célebre foi descoberto em 2016, no Japão: a bactéria Ideonella sakaiensis, que usa duas enzimas, batizadas de PETase e MHETase, para quebrar o PET em componentes simples que ela consegue digerir.

Desde então, a engenharia genética acelerou o processo. Em 2022, pesquisadores criaram, com auxílio de inteligência artificial, uma versão turbinada chamada FAST-PETase, capaz de decompor plástico PET pós-consumo em cerca de uma semana. Larvas de insetos, como as do besouro Tenebrio molitor e da traça Galleria mellonella, também se mostraram capazes de mastigar e degradar parte dos plásticos mais resistentes. Ferramentas de inteligência artificial e o desenho de comunidades microbianas sintéticas, times de micróbios que dividem tarefas, prometem levar essas descobertas do laboratório para a bioeconomia e a recuperação ambiental.
A solução precisa ser segura
Há, porém, uma armadilha. Alguns dos micróbios mais eficientes em devorar plástico, como certas espécies do gênero Pseudomonas, são também patógenos oportunistas e portadores de genes de resistência a antibióticos. Soltar esses organismos no ambiente para limpar rios poderia, na prática, espalhar novos riscos.

Para separar o joio do trigo, os pesquisadores propõem avaliar cada candidato em dois eixos ao mesmo tempo, a eficiência de degradação e o risco microbiológico. Nesse mapa, apenas os organismos simultaneamente eficientes e seguros, os candidatos ideais, seriam liberados diretamente na natureza. Os eficientes, porém arriscados, ficariam restritos a biorreatores fechados. Os seguros, mas ineficientes, serviriam de base para melhoramento. Uma das apostas é usar fungos, que não trocam genes com as bactérias, como chassi de baixo risco, sob um princípio que os autores chamam de segurança por concepção.
A discussão ganha peso no momento em que a Amazônia recebe a atenção do mundo. Às vésperas da COP30, marcada para a região, a revisão da Fiocruz reforça que a ciência já enxerga tanto o tamanho do problema quanto caminhos para enfrentá-lo. Nenhum micróbio, porém, resolve sozinho o que continua chegando aos rios. Reduzir o plástico na fonte, melhorar a coleta de lixo e ampliar o saneamento nas comunidades ribeirinhas seguem sendo, segundo os próprios pesquisadores, as medidas mais urgentes.
Com informações de Lin et al., “The plastisphere: from microbial pollution to biodegradable solution”, Frontiers of Environmental Science & Engineering (2026, CC BY 4.0).
Matéria publicada originalmente na edição 156 da Revista Amazônia.
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