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Debate sobre viagem interestelar expõe o abismo entre sonho científico…

Micróbios podem resistir no polo sul da Lua por uma semana e ameaçar a pureza das amostras

Micróbios podem resistir no polo sul da Lua por uma semana e ameaçar a pureza das amostras
Foto: Divulgação

Estudo da NASA indica que fungos e bactérias levados por astronautas podem sobreviver em áreas permanentemente escuras da Lua.

Uma missão humana à Lua pode levar consigo algo tão pequeno que não aparece a olho nu, mas capaz de complicar uma das tarefas mais importantes da exploração espacial: descobrir do que o solo lunar é feito. Pesquisadores da NASA concluíram que três bactérias e dois fungos associados ao corpo humano conseguiriam permanecer vivos por pelo menos 24 horas em determinados pontos do polo sul lunar, e um dos fungos talvez resistisse por mais de uma semana.

O alerta ganha importância porque a Artemis IV, prevista para 2028, será uma missão tripulada ao polo sul da Lua. Astronautas, trajes, equipamentos e cápsulas podem transportar microrganismos da Terra até o satélite. Se esses organismos deixarem proteínas ou outras marcas químicas nas amostras, os cientistas poderão confundir sinais humanos com características naturais do ambiente lunar.

O lugar mais frio também pode ser o mais útil para preservar micróbios

O polo sul lunar não se parece com as áreas visitadas pelas missões que exploraram regiões próximas ao equador. Como o Sol chega ao terreno em um ângulo muito baixo, algumas depressões nunca recebem luz direta. São as chamadas regiões permanentemente sombreadas, onde a temperatura pode cair a até 200 graus Celsius negativos e a radiação ultravioleta é muito menor.

Essas condições parecem incompatíveis com a vida ativa. No entanto, elas se aproximam de um processo conhecido como liofilização, usado para conservar alimentos e microrganismos. A técnica remove água e mantém células em estado de dormência. A diferença é que, na Lua, a combinação de frio extremo, ausência de luz e ar praticamente inexistente ocorre de forma natural.

Segundo a NASA, microrganismos levados da Terra poderiam sobreviver por pelo menos 24 horas em algumas áreas do polo sul lunar, conforme estudo publicado em 19 de agosto de 2026 na revista Science Advances.

O fungo que apareceu como o mais resistente

Entre os cinco organismos avaliados, o Aspergillus niger apresentou a maior resistência. O fungo é comum em ambientes domésticos, como chuveiros e aquecedores de água. Sua proteção está relacionada à parede celular espessa e à capacidade de reparar o próprio DNA mesmo quando permanece em estado dormente.

Os pesquisadores estimaram que o Aspergillus niger poderia permanecer viável por mais de uma semana em certos pontos do polo sul. O resultado não significa que o fungo conseguiria formar colônias ou crescer na superfície lunar. Sobreviver a um período de exposição é diferente de se reproduzir, obter energia e manter uma população.

Essa distinção é essencial. A preocupação da equipe não é transformar a Lua em um ambiente habitado por fungos terrestres, mas impedir que vestígios desses organismos alterem a leitura científica de um local ainda pouco conhecido.

Uma célula morta também pode atrapalhar a pesquisa

Mesmo quando um micróbio não permanece vivo, seus restos podem deixar sinais detectáveis. Proteínas, fragmentos de material genético e outras assinaturas químicas poderiam aparecer em uma amostra recolhida por astronautas. Em uma investigação sobre gelo, água ou compostos orgânicos, essa mistura comprometeria a interpretação dos resultados.

O problema é especialmente delicado no polo sul, região que concentra crateras profundas e áreas frias o bastante para conservar materiais por longos períodos. O gelo encontrado em sombras permanentes é considerado uma peça importante para entender a história da Lua e também para avaliar a disponibilidade de recursos que futuras missões poderiam usar.

Por isso, a equipe liderada por Heather Graham, geoquímica orgânica do Centro de Voos Espaciais Goddard, da NASA, analisou microrganismos que já demonstraram capacidade de viajar em equipamentos espaciais. Bactérias e fungos semelhantes já foram encontrados em trajes, no interior de cápsulas e até na parte externa da Estação Espacial Internacional.

O que muda nos preparativos da Artemis IV

Os resultados devem ajudar a definir protocolos de descontaminação para a Artemis IV e para outras missões tripuladas. Na prática, isso pode exigir limpeza mais rigorosa de superfícies, controle dos materiais que entram em contato com o solo e separação cuidadosa entre áreas de trabalho, astronautas e recipientes de coleta.

Micróbios podem resistir no polo sul da Lua por uma semana e ameaçar a pureza das amostras
Foto: Divulgação

O estudo também reforça uma regra básica da ciência planetária: uma missão precisa proteger tanto o destino quanto a própria amostra. Levar organismos terrestres para outro corpo celeste é chamado de contaminação direta. Trazer material extraterrestre sem o devido cuidado, por outro lado, envolve o risco inverso, conhecido como contaminação de retorno.

A discussão interessa à Amazônia por uma razão que vai além da corrida lunar. Estados como Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão abrigam uma enorme variedade de microrganismos, muitos deles estudados por sua resistência a calor, umidade, falta de nutrientes e mudanças químicas. A experiência de separar organismos nativos de contaminantes em pesquisas ambientais ajuda a compreender por que protocolos de coleta e conservação são decisivos também fora da Terra.

Não há indicação de que micróbios amazônicos estejam envolvidos no experimento lunar. A conexão está no princípio científico: quando uma amostra pode revelar uma história ambiental rara, qualquer material levado de outro lugar precisa ser identificado e controlado.

A Lua será o teste antes de Marte

Para Graham, o cuidado na Lua servirá como preparação para missões mais complexas. Marte oferece condições menos hostis aos microrganismos do que o satélite, o que aumenta a preocupação com a transferência de vida entre a Terra e o planeta vermelho.

“The better we get at clean exploration on the moon, the much better position we’ll be in on a place like Mars.”

Em tradução livre, Graham afirma que quanto melhor for a exploração limpa da Lua, mais bem preparados estarão os cientistas para trabalhar em Marte. A frase resume o papel da Artemis IV: além de investigar o polo sul lunar, a missão também poderá funcionar como ensaio para uma etapa em que a proteção planetária será ainda mais rigorosa.

O próximo passo será transformar as estimativas de sobrevivência em procedimentos operacionais de descontaminação para a missão prevista para 2028 e para as expedições tripuladas que vierem depois.

Respostas rápidas sobre a contaminação lunar

Os micróbios poderiam crescer na Lua?

O estudo indica que a sobrevivência temporária é possível, mas não que as bactérias e os fungos conseguiriam crescer ou se reproduzir nas condições analisadas.

Por que um micróbio morto ainda seria um problema?

Restos celulares, proteínas e outras assinaturas químicas poderiam aparecer nas amostras e dificultar a identificação de compostos originalmente presentes na Lua.

Quando a Artemis IV deve chegar ao polo sul lunar?

A missão tripulada está prevista para ser lançada em 2028 e deverá levar pessoas novamente à Lua pela primeira vez em 50 anos.

Com informações de NASA e Science Advances.

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