
Dados científicos desmistificam narrativa sobre impacto climático da carne bovina produzida no país.
Quando se fala em aquecimento global, a pecuária brasileira costuma aparecer como vilã. Mas os números contam outra história: segundo dados apresentados no encontro Diálogo: Boas práticas e eficiência produtiva, realizado em Sidrolândia (MS), a pecuária global responde por apenas 5,8% das emissões totais de gases de efeito estufa no planeta. O Brasil, por sua vez, contribui com 2% das emissões mundiais totais, considerando todos os setores.
O evento reuniu lideranças do setor, cientistas e produtores na Fazenda Gabinete, propriedade que virou referência em tecnologia tropical ao combinar alta rentabilidade com conservação ambiental. A iniciativa foi promovida pela Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, plataforma que articula toda a cadeia produtiva da carne bovina no país.
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⭐ Adicionar Revista AmazôniaO que dizem os dados sobre emissões
Renato Roscoe, diretor executivo do Instituto Taquari Vivo, trouxe ao debate números consolidados pela ciência. Do total de emissões de gases de efeito estufa no mundo, 28% vêm de todo o setor agrícola. Dentro desse percentual, a pecuária global (incluindo gestão de resíduos) representa 5,8%.
“Se o agro e a pecuária concentram a maior parte do nosso perfil de emissões interno, é porque o Brasil fez o dever de casa que o resto do mundo não fez: nós temos 85% da nossa matriz energética renovável, enquanto o planeta utiliza em média 15%. O grande debate global é a transição energética e a saída dos combustíveis fósseis”, destacou Roscoe durante o encontro.
Essa diferença na matriz energética explica por que, mesmo com forte presença do agronegócio, o Brasil mantém uma participação relativamente baixa nas emissões globais. Enquanto outros países ainda dependem fortemente de petróleo e carvão, o Brasil investiu ao longo das últimas décadas em hidrelétricas, etanol e bioenergia.
Modelo tropical de alta performance
O Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, responsável por cerca de 20% da produção global e por mais de 30% do comércio internacional do produto. Mas a manutenção desse posto depende cada vez mais do cumprimento de critérios socioambientais exigidos por mercados como União Europeia e Reino Unido.
Ana Doralina Menezes, presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, defende que a vantagem competitiva do país está na capacidade de produzir a pasto em larga escala, com ciência desenvolvida especificamente para o clima tropical.
“Precisamos falar com orgulho de uma pecuária tropical produtiva e intensiva. Ela é baseada em gestão, informação e tecnologia adaptada, com genética adequada, nutrição precisa e sistemas integrados. É isso que nos torna extremamente competitivos. O Brasil entrega ao mundo uma carne de alta qualidade, produzida de forma sustentável e integrada”, afirmou.
Integração Lavoura-Pecuária reduz pressão por novas áreas
A Fazenda Gabinete, escolhida como palco do evento, simboliza essa transição. A propriedade adota sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e Terminação Intensiva a Pasto (TIP), modelos que elevam a produtividade por hectare e diminuem a necessidade de abertura de novas áreas.
Embora exijam investimentos elevados e enfrentem desafios como escassez de mão de obra qualificada e instabilidades climáticas, esses sistemas demonstram na prática como a eficiência técnica resolve gargalos produtivos e ambientais ao mesmo tempo.
Mariana Aragão, chefe-geral da Embrapa Gado de Corte, reforçou que o foco do produtor deve ser a excelência produtiva, não o mercado de créditos de carbono de forma isolada. “O subproduto natural de pastagens bem manejadas é o sequestro de carbono. A eficiência do sistema é a chave para a agenda climática”, explicou.
Rastreabilidade e controle da cadeia
Do lado da indústria, Jay Neto, representante da MBRF (Marfrig Brasil Foods), destacou que o controle e a rastreabilidade de fornecedores diretos e indiretos evoluíram drasticamente desde os anos 2000. Hoje, os frigoríficos atuam como parceiros técnicos dos produtores, apoiando a intensificação da produção e validando sistemas por meio de protocolos científicos.
Entre esses protocolos estão a Carne Carbono Neutro (CCN) e a Carne Baixo Carbono (CBC), desenvolvidos pela Embrapa. Ambos certificam que determinados sistemas produtivos compensam ou reduzem significativamente as emissões de metano por meio do manejo adequado de pastagens e da integração com árvores (sistemas silvipastoris).
Entenda o modelo de Integração Lavoura-Pecuária
A ILP consiste em alternar, na mesma área, o cultivo de grãos (como soja e milho) e a criação de gado. Após a colheita, o pasto é formado sobre os restos vegetais, melhorando a fertilidade do solo e reduzindo a necessidade de insumos químicos. O sistema permite produzir mais carne e grãos por hectare, diminuindo a pressão por desmatamento.
Desafios ainda persistem na Amazônia Legal
Apesar dos avanços, a região amazônica ainda concentra desafios específicos. A pecuária extensiva de baixa produtividade continua sendo praticada em áreas de fronteira agrícola, onde faltam assistência técnica, crédito acessível e fiscalização eficaz.
A adoção de tecnologias como a ILP na Amazônia esbarra em questões fundiárias, logística precária e falta de infraestrutura para escoamento da produção. Ainda assim, experiências locais mostram que é possível replicar os ganhos de eficiência observados no Centro-Oeste, desde que haja políticas públicas coordenadas e investimento em capacitação.
Estados como Rondônia, Pará e Mato Grosso já contam com núcleos de pesquisa da Embrapa focados em sistemas integrados adaptados ao bioma amazônico, com uso de espécies forrageiras tolerantes ao sombreamento e manejo de pastagens em consórcio com floresta.
Mercado internacional pressiona por transparência
Com a estabilização do consumo interno de carne bovina, o mercado externo tornou-se ainda mais estratégico para o Brasil. Porém, regulamentações como o pacote antidesmatamento da União Europeia (EUDR) e acordos comerciais com cláusulas ambientais pressionam o país a comprovar a origem da produção e a ausência de desmatamento ilegal na cadeia.
A rastreabilidade individual dos animais, já obrigatória em alguns estados, tende a se expandir nacionalmente nos próximos anos. Sistemas de monitoramento por satélite, cruzamento de dados fundiários e auditorias de terceira parte fazem parte do novo padrão exigido por importadores.
“O papel dos frigoríficos hoje é apoiar o produtor na intensificação e no suporte técnico, evitando o avanço sobre novas áreas e validando a produção nacional por meio de chancelas científicas”, resumiu Jay Neto.
Próximos passos e agenda do setor
A Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável prevê ampliar os encontros regionais ao longo de 2026, levando o debate sobre boas práticas a outras regiões produtoras, incluindo estados da Amazônia Legal. A entidade também articula a criação de um protocolo nacional unificado de certificação, que facilite o acesso de pequenos e médios produtores a mercados premium.
Segundo Renato Roscoe, Instituto Taquari Vivo, a pecuária brasileira responde por apenas 2% das emissões globais totais, enquanto detém 20% da produção mundial de carne bovina em julho de 2026. A expectativa é que novos investimentos em pesquisa e extensão rural consolidem o Brasil como fornecedor global de proteína de baixo carbono até o final da década.
Perguntas frequentes
Qual o percentual real de emissões da pecuária global?
A pecuária global (incluindo gestão de resíduos) responde por 5,8% das emissões totais de gases de efeito estufa no planeta. O setor agrícola como um todo representa 28% do total.
O que é Integração Lavoura-Pecuária?
É um sistema que alterna, na mesma área, cultivo de grãos e criação de gado. Melhora a fertilidade do solo, aumenta a produtividade por hectare e reduz a necessidade de abertura de novas áreas.
Quais protocolos certificam a produção sustentável de carne no Brasil?
Os principais são a Carne Carbono Neutro (CCN) e a Carne Baixo Carbono (CBC), desenvolvidos pela Embrapa. Eles validam sistemas que compensam ou reduzem emissões por meio de manejo adequado de pastagens.
Com informações da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável.
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