×
Próxima ▸
Pecuária brasileira produz 5,8% das emissões globais do setor

Plano Safra 2026/2027 avança em crédito sustentável, mas deixa lacunas em gestão de risco

Plano Safra 2026/2027 avança em crédito sustentável, mas deixa lacunas em gestão de risco
Ilustração: IA

Com R$ 610,3 bilhões, programa federal prioriza juros menores para práticas ambientais, mas especialistas apontam fragilidades diante do Super El Niño.

O produtor rural brasileiro acaba de ganhar acesso a R$ 610,3 bilhões em crédito para a safra 2026/2027, mas o anúncio trouxe uma novidade que vai além dos números: pela primeira vez, o financiamento passa a considerar de forma mais clara quem preserva e quem desmata. Anunciado em 30 de junho pelo governo federal, o novo Plano Safra reduz juros para práticas sustentáveis e barra recursos para projetos com supressão ilegal de vegetação nativa a partir de 2027. Para especialistas, é um passo importante, mas que ainda deixa lacunas estruturais na proteção contra eventos climáticos extremos.

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento que reúne mais de 400 organizações entre agronegócio, empresas, academia e sociedade civil, avalia que o plano incorporou parte das recomendações enviadas em março. A principal delas foi manter taxas de juros menores para linhas como RenovAgro Ambiental e Recuperação e Conversão de Pastagens, que incentivam a transição para modelos de produção menos agressivos ao meio ambiente.

Juros menores para quem adota boas práticas

Na prática, o produtor que investir em sistemas agroflorestais, recuperação de áreas degradadas ou adoção de tecnologias de baixo carbono terá acesso a financiamento com taxas mais baixas do que as linhas convencionais. A medida busca equilibrar rentabilidade e conservação, tornando a sustentabilidade financeiramente vantajosa para o agricultor.

Segundo Leila Harfuch, membro do Grupo Estratégico da Coalizão e sócia-gerente da Agroicone, consultoria que elaborou as propostas técnicas, o avanço é relevante. “O Plano Safra avança ao reconhecer que sustentabilidade e gestão de riscos devem fazer parte da política agrícola. Medidas que valorizam boas práticas, priorizam investimentos alinhados à jornada de sustentabilidade e fortalecem instrumentos de mitigação de riscos caminham na direção de uma agropecuária mais resiliente e preparada para enfrentar os desafios climáticos”, afirmou.

A nova edição do Plano Safra também incorpora, a partir de 2027, a restrição ao financiamento de projetos que envolvam supressão ilegal de vegetação nativa. A regra reforça a integração entre política agrícola e conservação ambiental, exigindo que produtores comprovem regularidade fundiária e ambiental para acessar os recursos.

Agricultura familiar ganha reforço em linhas verdes

No segmento da agricultura familiar, o programa também trouxe novidades. As linhas sustentáveis do Pronaf (Agroecologia, Semiárido, Floresta e Bioeconomia) tiveram redução nas taxas de juros, e o limite de financiamento para sistemas agroflorestais e silvicultura foi ampliado. Recursos para assistência técnica também foram reforçados, facilitando o acesso de pequenos produtores a orientação sobre práticas sustentáveis.

Essas medidas ganham relevância especialmente na Amazônia Legal, onde a combinação de crédito acessível com exigências ambientais pode incentivar alternativas econômicas à derrubada da floresta. Estados como Pará, Amazonas e Rondônia concentram grande parte dos estabelecimentos de agricultura familiar do país e devem ser beneficiados pelas novas regras.

O que ainda falta: gestão de risco e seguro rural

Apesar dos avanços, Leila Harfuch alerta que o Plano Safra deixou de priorizar de forma estratégica a transição para sistemas resilientes às mudanças climáticas. “Embora o novo plano disponibilize volumes significativos para a agricultura empresarial e familiar, a falta de priorização de instrumentos de gestão de risco, como o seguro rural, e as dificuldades de acesso ao crédito de longo prazo devido ao endividamento do produtor geram um cenário de alerta”, disse.

O ponto é especialmente crítico diante da expectativa de um Super El Niño ao longo da safra 2026/2027. Segundo projeções meteorológicas, o fenômeno pode trazer secas severas no Sul e chuvas irregulares no Norte e Nordeste, com impacto direto na produção de grãos, pecuária e cultivos permanentes. Sem um seguro rural robusto e acessível, produtores de todos os portes ficam expostos a perdas totais sem rede de proteção.

Plano Safra 2026/2027 avança em crédito sustentável, mas deixa lacunas em gestão de risco
Ilustração: IA

Até o momento, o governo federal não divulgou propostas relacionadas ao fortalecimento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), considerado insuficiente para cobrir a demanda nacional. Também ficaram de fora melhorias no Sistema de Informações sobre Crédito Rural (Sicor) e a aplicação da Taxonomia Sustentável Brasileira no crédito rural, ferramenta que classificaria operações financeiras de acordo com critérios ambientais e sociais.

Entenda o caso

O Plano Safra é o principal programa de financiamento da agricultura brasileira, definido anualmente pelo governo federal. Ele estabelece volumes de crédito, taxas de juros e condições de pagamento para custeio, investimento e comercialização. A edição 2026/2027 marca um giro estratégico ao condicionar parte do acesso ao crédito a critérios ambientais, alinhando política agrícola e conservação. A mudança ocorre em um contexto de cobrança internacional por práticas sustentáveis e de ameaça concreta de eventos climáticos extremos.

O que a Coalizão propôs e ainda não foi atendido

A Coalizão Brasil enviou ao governo, em março de 2026, um conjunto de propostas técnicas elaboradas pela Agroicone. Entre as recomendações não incorporadas ao Plano Safra estão o direcionamento mais estratégico de recursos para recuperação de pastagens degradadas e implementação do Código Florestal, além da criação de mecanismos que facilitem o acesso ao crédito de longo prazo para produtores endividados.

Segundo a entidade, a priorização desses instrumentos é essencial para que a adaptação climática seja inclusiva e alcance todos os portes de produtores, e não apenas os que já têm condições de acessar linhas de financiamento diferenciadas.

Próximos passos e expectativas para a safra

A implementação das novas regras do Plano Safra 2026/2027 começa em julho de 2026, com a liberação gradual dos recursos ao longo dos próximos 12 meses. A restrição ao financiamento de projetos com supressão ilegal de vegetação entra em vigor em 2027, tempo que o governo considera necessário para que produtores regularizem suas áreas e se adaptem às exigências.

Organizações da sociedade civil e do setor produtivo acompanharão de perto a aplicação das medidas, especialmente diante dos impactos esperados do Super El Niño. A expectativa é que o governo revise e fortaleça os instrumentos de gestão de risco ao longo do ano, ampliando o alcance do seguro rural e criando condições para que a transição sustentável chegue a todos os elos da cadeia produtiva.

Perguntas frequentes

O que muda no crédito rural com o Plano Safra 2026/2027?

O plano oferece R$ 610,3 bilhões em financiamento, com juros menores para linhas sustentáveis como RenovAgro e Recuperação de Pastagens. A partir de 2027, produtores que desmatarem ilegalmente não poderão acessar crédito oficial.

Quem pode ter acesso ao crédito com juros menores?

Produtores que investirem em práticas sustentáveis, como sistemas agroflorestais, recuperação de áreas degradadas e tecnologias de baixo carbono, podem acessar linhas com taxas de juros reduzidas. A medida vale tanto para agricultura empresarial quanto para agricultura familiar.

O que é o Super El Niño e como afeta a safra?

O Super El Niño é uma intensificação do fenômeno climático que aquece o Pacífico equatorial, provocando secas no Sul do Brasil e chuvas irregulares no Norte e Nordeste. A previsão para a safra 2026/2027 é de impactos severos na produção agrícola, o que torna o seguro rural ainda mais essencial.

Com informações da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA