
Cientistas da Northwestern University identificaram a estrutura 3D completa de moléculas que ajudaram animais a combater tumores em estudos dos anos 1990.
Imagine que uma pista importante para combater o câncer estivesse escondida no pólen de centeio por quase 30 anos, esperando que alguém desvendasse seu segredo. Essa espera finalmente acabou.
Cientistas da Northwestern University, nos Estados Unidos, conseguiram determinar pela primeira vez a estrutura tridimensional completa de duas moléculas extraídas do pólen de centeio, batizadas de secalosides A e B. Essas substâncias chamaram a atenção nos anos 1990, quando estudos mostraram que elas ajudavam animais de laboratório a retardar o crescimento de tumores por meio de um mecanismo não tóxico ainda desconhecido.
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Pará lança edital de R$ 102 milhões para bioeconomia amazônicaO problema é que, até agora, ninguém conseguia entender exatamente como essas moléculas eram construídas em três dimensões. Sem esse mapa estrutural preciso, era impossível investigar como elas interagem com o sistema imunológico ou identificar qual parte delas seria responsável pelo efeito anticâncer.
Como os cientistas resolveram o quebra-cabeça molecular
A equipe liderada por Karl A. Scheidt, professor de química da Northwestern University e membro do Robert H. Lurie Comprehensive Cancer Center, reconstruiu as moléculas do zero em laboratório, átomo por átomo. Segundo Scheidt, publicado em 6 de julho de 2026 no Journal of the American Chemical Society, essa síntese total confirmou a estrutura correta das secalosides pela primeira vez.
“Em estudos preliminares, outros pesquisadores descobriram que o pólen de centeio poderia ajudar diferentes modelos animais a eliminar tumores por meio de algum mecanismo não tóxico desconhecido. Agora que confirmamos a estrutura dessas moléculas, podemos encontrar o ingrediente ativo, ou seja, qual parte da molécula está fazendo o trabalho”, explicou Scheidt.
O grande desafio estava no núcleo das moléculas: um anel de 10 membros extremamente raro e tenso, difícil de montar quimicamente. A solução foi criar primeiro um anel maior e mais flexível e, depois, provocar uma reação química que o convertesse no anel menor em uma única etapa.
O problema das imagens espelhadas
Durante décadas, os cientistas debateram entre dois modelos estruturais possíveis para as secalosides. Ambos tinham os mesmos átomos conectados da mesma forma, mas uma região crítica da molécula existia como imagem espelhada em cada versão.
Scheidt compara a diferença com as mãos humanas. “Elas são imagens espelhadas uma da outra, mas você precisa de uma luva diferente para cada uma. Se você tivesse duas luvas para a mão esquerda, não funcionaria, porque suas mãos não podem ser sobrepostas”, disse.
Essa variação sutil pode mudar completamente a forma como uma molécula interage com alvos biológicos e se ela produz ou não algum efeito terapêutico. Depois de produzir ambas as versões em laboratório, a equipe comparou com amostras extraídas do pólen de centeio. Apenas uma delas bateu perfeitamente, permitindo identificar a estrutura correta de forma definitiva.
Da natureza para a medicina
Muitos medicamentos importantes têm origem natural. A morfina, analgésico potente, vem da papoula do ópio. O Taxol, quimioterápico crucial, foi isolado pela primeira vez do teixo do Pacífico. As estatinas, que ajudam a baixar o colesterol e reduzir o risco de doenças cardíacas, vieram de fungos.
“Produtos naturais não são necessariamente medicamentos eficazes por si só, mas são ótimos pontos de partida. Podemos encontrar inspiração em produtos naturais e usar a química para fazer versões melhores que sejam disponíveis por via oral, sobrevivam ao metabolismo e atinjam os alvos certos”, afirmou Scheidt.
O extrato de pólen de centeio já é vendido como suplemento alimentar, usado por muitas pessoas para apoiar a saúde da próstata. No entanto, ainda não foi desenvolvido como tratamento farmacêutico. A falta de uma imagem clara da estrutura tridimensional das moléculas era um dos principais obstáculos.
Próximos passos da pesquisa
Com a estrutura confirmada, os pesquisadores agora podem investigar exatamente como as secalosides interagem com células do sistema imunológico e quais partes da molécula são essenciais para o efeito anticâncer.
“Demonstramos que podemos fazer o núcleo deste produto natural. Agora, estamos tentando encontrar colaboradores em potencial na área de imunologia que possam nos ajudar a traduzir isso em um possível desfecho clínico”, disse Scheidt.
Perguntas frequentes
O que são secalosides?
São duas moléculas raras encontradas no pólen de centeio, chamadas secalosides A e B, que mostraram capacidade de ajudar animais a combater tumores em estudos dos anos 1990.
Por que demorou 30 anos para descobrir a estrutura dessas moléculas?
As técnicas tradicionais de análise, incluindo espectroscopia de ressonância magnética nuclear avançada, não conseguiam determinar completamente como partes-chave das moléculas estavam organizadas no espaço tridimensional. Foi preciso reconstruir as moléculas do zero em laboratório para confirmar a estrutura correta.
Quando teremos um tratamento de câncer baseado nessas moléculas?
Ainda não há previsão. Os pesquisadores agora precisam identificar exatamente qual parte da molécula é responsável pelo efeito anticâncer e testar versões modificadas em estudos pré-clínicos antes de avançar para testes em humanos.
Com informações da Northwestern University.
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