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Polvo pega carona nas costas de golfinho e coincide com maior explosão da espécie em 75 anos

Polvo pega carona nas costas de golfinho e coincide com maior explosão da espécie em 75 anos
Ilustração: Revista Amazônia

Registro feito em Devon revela uma mudança no litoral britânico que já afeta a pesca e a cadeia alimentar.

Por alguns instantes, um polvo comum transformou um golfinho em meio de transporte. A cena foi fotografada em 2025, nas proximidades de Berry Head, em Devon, no sudoeste da Inglaterra, quando o animal se agarrou à nadadeira dorsal de um golfinho-de-Risso. O registro ganhou importância porque aconteceu durante a maior explosão de polvos observada na região em pelo menos 75 anos.

A imagem foi feita pelo fotógrafo Bill Coulson e mostra um polvo da espécie Octopus vulgaris sobre o dorso do cetáceo. Não há indicação de que o polvo estivesse sendo levado voluntariamente pelo golfinho ou de que a interação tenha durado muito tempo. O que a fotografia oferece é um retrato raro de duas espécies que passaram a dividir com mais frequência as mesmas águas costeiras.

Uma fotografia isolada dentro de uma mudança maior

O encontro ocorreu em meio a uma alteração ampla no ecossistema marinho do sudoeste inglês. Pesquisadores da Marine Biological Association reuniram vídeos subaquáticos e respostas de 120 mergulhadores e praticantes de snorkel para medir a presença dos polvos em 2025.

Entre os participantes, 96,5% disseram ter visto polvos no sudoeste da Inglaterra. Mais da metade, 55,4%, encontrou os animais em profundidades de até 10 metros. Os registros também mostraram polvos atravessando recifes onde embarcações de pesca costumam instalar equipamentos para capturar mariscos.

Segundo a Marine Biological Association, a maior concentração de polvos registrada no sudoeste da Inglaterra ocorreu em 2025, em águas que também apresentaram sinais de mudança na disponibilidade de presas.

O impacto chegou às armadilhas de caranguejos e lagostas

A multiplicação dos polvos não ficou restrita aos mergulhos recreativos. Pescadores relataram encontrar os animais dentro de armadilhas, alimentando-se dos caranguejos e das lagostas capturados. No mesmo período, as frotas locais desembarcaram menos caranguejos, lagostas e vieiras, enquanto parte dos profissionais relatou danos às capturas e perda de renda.

O motivo é direto: o polvo é um predador oportunista e pode aproveitar a concentração de crustáceos em equipamentos de pesca. Quando entra nas armadilhas, ele não apenas consome parte da captura, mas também pode danificar os animais que permanecem no interior.

Os pesquisadores encontraram ainda ovos e indivíduos jovens, evidências de que os polvos não estavam apenas chegando à região de passagem. Eles conseguiram se reproduzir em águas britânicas, o que ajuda a explicar por que a presença da espécie se tornou tão visível ao longo de 2025.

De onde vieram tantos polvos

A hipótese apresentada pelos pesquisadores é que o aumento tenha começado ao sul da Grã-Bretanha. Filhotes podem ter sido transportados por correntes desde áreas de reprodução próximas às Ilhas do Canal e ao norte da França.

Depois da chegada, a temperatura mais alta do mar pode ter criado condições favoráveis para a sobrevivência e o crescimento desses animais. A combinação entre transporte pelas correntes, reprodução local e águas mais quentes teria transformado uma entrada pontual em uma concentração populacional fora do padrão histórico.

Polvo pega carona nas costas de golfinho e coincide com maior explosão da espécie em 75 anos
Foto: Wirestock Creators/Shutterstock)","processingStatus":"Ready

A explicação ainda é tratada como hipótese de trabalho. Bryce Stewart, pesquisador sênior da Marine Biological Association, afirmou que os relatos de polvos continuam numerosos nas águas do sudoeste e que entender o que está provocando essa mudança é uma prioridade de pesquisa.

O golfinho também pode estar respondendo ao novo cenário

O golfinho-de-Risso, identificado cientificamente como Grampus griseus, costuma ocupar águas profundas próximas à borda da plataforma continental e de seus declives. Ao redor das Ilhas Britânicas, porém, também aparece em áreas costeiras com menos de 20 metros de profundidade.

A espécie se alimenta de cefalópodes, grupo que inclui polvos, lulas e sépias. Estudos anteriores indicaram que o polvo-curled, ou Eledone cirrhosa, era uma das presas mais importantes dos golfinhos-de-Risso nas águas britânicas. Com mais cefalópodes disponíveis perto da costa, a oferta de alimento pode estar ajudando a explicar o aumento dos avistamentos desses golfinhos no sudoeste da Inglaterra.

O relatório State of South-West Seas in 2025 registrou crescimento nos avistamentos de golfinhos-de-Risso na região. Os autores afirmaram que a tendência permaneceu mesmo depois do ajuste pelo tempo dedicado à observação e apontaram o aumento de sépias e polvos costeiros como uma possível explicação.

“Essas fotografias oferecem um vislumbre da ecologia alimentar dos golfinhos-de-Risso e do ambiente marinho em transformação ao longo de nossas costas”, disse Josh Symes, pesquisador da Universidade de Exeter.

Uma população espalhada pelas águas britânicas

Outra frente de pesquisa tenta descobrir se os golfinhos vistos no sudoeste pertencem a um grupo local ou se circulam por diferentes pontos do litoral britânico. Um estudo publicado no Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom analisou amostras preservadas de 72 golfinhos encalhados entre 1992 e 2016.

Os dados genéticos colocaram os animais em um único grupo, abrangendo os locais de coleta. Foram identificadas seis versões de DNA mitocondrial exclusivas dos golfinhos das Ilhas Britânicas, geneticamente mais próximas das encontradas nos Açores.

Ao mesmo tempo, fotografias de identificação individual sugeriram movimentos mais localizados em alguns trechos. Menos de 3% dos golfinhos fotografados no oeste da Escócia também apareceram em imagens feitas no norte do país. Isso indica que a espécie pode combinar deslocamentos amplos com áreas de permanência mais restritas.

O que o caso ensina para quem vive na Amazônia

O episódio ocorreu longe do Brasil, mas interessa diretamente a leitores amazônidas porque mostra como uma alteração na temperatura e nas correntes pode reorganizar várias etapas de uma cadeia alimentar ao mesmo tempo. Um aumento de polvos pode beneficiar predadores especializados, pressionar crustáceos e criar prejuízos para pescadores.

Não há, no material analisado, evidência de uma explosão semelhante nas águas costeiras da Amazônia. A comparação útil está no mecanismo: mudanças ambientais no mar não afetam apenas uma espécie, mas também a pesca, os animais que dependem dela e as comunidades que acompanham esses ciclos.

A Marine Biological Association e o Risso’s Dolphin Project South West pedem que moradores e visitantes comuniquem avistamentos de polvos e golfinhos por meio do Facebook ou da plataforma iNaturalist. Esses registros podem ajudar a mapear quando e onde os animais aparecem, enquanto novas pesquisas tentam separar um evento temporário de uma mudança que pode se repetir.

O relatório completo sobre o estado dos mares do sudoeste inglês está disponível para download no documento State of South-West Seas in 2025.

Com informações de Marine Biological Association.

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