
Aldear a Educação reúne propostas gratuitas para apoiar o cumprimento da Lei 11.645/2008 em escolas de todo o país.
Uma professora de Parintins, no Amazonas, levou para uma turma do ensino médio debates sobre Davi Kopenawa, Ailton Krenak, Márcia Kambeba e outros autores indígenas. Em Porto Alegre, estudantes trocaram experiências com uma aldeia Guarani Mbya. Em Caucaia, no Ceará, uma atividade escolar relacionou artesanato, espécies nativas e recuperação ambiental. Essas e outras práticas agora podem ser consultadas gratuitamente por educadores no repositório Aldear a Educação, lançado em 2 de setembro de 2026 pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pelo Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei).
O ambiente virtual foi criado para transformar experiências que já funcionam no cotidiano escolar em referência para outras escolas. A proposta é oferecer caminhos concretos a professores que ainda não sabem como abordar a temática indígena ou que desejam ampliar suas estratégias de ensino sem reduzir a diversidade dos povos originários a atividades pontuais ou representações folclorizadas.
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O repositório está hospedado no site Povos Indígenas no Brasil Mirim, mantido pelo ISA. O espaço reúne materiais pedagógicos, documentos de referência e orientações relacionadas à Lei 11.645/2008, norma que determina o ensino das histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas em toda a educação básica.
Segundo o Instituto Socioambiental, o repositório Aldear a Educação foi lançado em 2 de setembro de 2026 para apoiar o trabalho de professores com histórias, culturas e saberes indígenas. A iniciativa também pretende mostrar que a aplicação da lei pode ocorrer em diferentes disciplinas, faixas etárias e modalidades de ensino, incluindo a Educação de Jovens e Adultos, o ensino médio técnico e a educação escolar indígena.
As onze propostas selecionadas foram reconhecidas em um edital voltado a experiências de ensino e aprendizagem ligadas à Lei 11.645/2008. Elas foram desenvolvidas em escolas públicas e instituições de diferentes partes do país, com atividades que envolvem literatura, artes, ciências, produção audiovisual, oralidade, visitas a territórios, cultivo de espécies e diálogo com anciãos e lideranças.

Da recuperação de sementes ao podcast sobre lideranças
Em Caucaia, no Ceará, a professora indígena Ana Paula da Rocha criou com estudantes do povo Tapeba uma ação sobre espécies nativas usadas no artesanato tradicional. O trabalho inclui conversas com anciãos e artesãos, mapeamento de plantas, criação de viveiros e mutirões de plantio. A atividade relaciona preservação ambiental, identidade cultural e os efeitos do desmatamento e da urbanização na aldeia Jandaiguaba.
Em Parintins, Cristiana Andrade Butel articulou literatura, música, dança, teatro e produção textual em uma atividade de um mês com alunos do ensino médio. O tema “Povos Indígenas: Ontem e Hoje” orientou leituras, seminários e apresentações sobre autores e lideranças indígenas. A experiência aproxima a produção intelectual desses povos de componentes curriculares que muitas vezes são trabalhados separadamente.
Outra iniciativa, desenvolvida no Instituto Federal de São Paulo, transformou as trajetórias e o pensamento de Ailton Krenak e Davi Kopenawa Yanomami em pauta para um podcast com 16 episódios. O projeto combina sociologia, filosofia, produção técnica de áudio e vídeo e debate sobre cosmologias, direitos indígenas, história do contato e preservação da floresta.
Uma conexão direta com a Amazônia
A presença amazônica no repositório aparece de forma especialmente concreta na experiência de Parintins. A cidade, no Amazonas, abriga uma prática que não trata os povos indígenas como tema distante, mas como parte da história, da literatura e dos debates contemporâneos que podem ser trabalhados na escola.
O material também reúne uma disciplina criada em Barueri, São Paulo, sobre memória, matéria e ciência. A proposta relaciona conhecimentos indígenas amazônicos, manejo da Terra Preta e etnobotânica a conteúdos de História, Biologia, Artes e Química. Oficinas de argila, simulações arqueológicas e análise de fontes foram usadas para discutir sustentabilidade, saúde e mudanças climáticas.

Para professores dos estados amazônicos, como Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a iniciativa oferece uma referência para adaptar o ensino às realidades locais. O ponto central não é importar uma atividade pronta, mas reconhecer que rios, florestas, territórios, línguas, memórias e modos de vida podem orientar práticas pedagógicas construídas com participação indígena.
Por que a Lei 11.645 exige mais do que uma atividade anual
A Lei 11.645/2008 alterou a legislação educacional para tornar obrigatório o ensino das histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas. Na prática, sua aplicação depende de formação docente, materiais adequados e integração ao currículo. Quando o assunto aparece apenas em datas comemorativas, aumenta o risco de reproduzir imagens genéricas e estereótipos sobre os povos indígenas.
As experiências reunidas no Aldear a Educação apontam para outra abordagem. Em Porto Alegre, uma mostra cultural envolveu 21 turmas e mais de 400 estudantes, além de promover intercâmbio com a aldeia Anhetenguá, do povo Guarani Mbya. Em São Paulo, uma proposta para a educação infantil trabalhou ancestralidade, natureza, plantas medicinais, argila, oralidade e memória do povo Pankará.
Também há exemplos voltados à Educação de Jovens e Adultos. Em Ceará-Mirim, no Rio Grande do Norte, uma prática utilizou o ciclo de cultivo do milho e da mandioca para articular alfabetização, produção textual, desenhos e conhecimentos da comunidade indígena Rio dos Índios. A experiência mostra como os conteúdos escolares podem partir das vivências dos próprios estudantes.
Acervo colaborativo terá novos materiais
O repositório foi desenvolvido pelo ISA e pelo Fneei, com apoio técnico do Instituto Alana e parceria da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade. A curadoria inicial reúne as onze propostas premiadas no edital Aldear a Educação Básica, mas o ambiente deverá receber novos conteúdos continuamente.
Entre as próximas etapas está a publicação de kits didáticos da coleção Hoje na História Socioambiental. Os materiais vão relacionar documentos históricos do Acervo do ISA a atividades baseadas em questões sobre lutas, memórias e resistências de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
O acesso ao conteúdo pode ser feito no repositório Aldear a Educação. A atualização contínua do espaço deverá ampliar as possibilidades de uso por professores, escolas e redes de ensino interessadas em cumprir a legislação com mais contexto, participação e vínculo com os territórios.
O que os educadores encontram no repositório
- Onze práticas pedagógicas reconhecidas pelo edital Aldear a Educação Básica.
- Materiais de referência e orientações normativas relacionadas à Lei 11.645/2008.
- Propostas para educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, Educação de Jovens e Adultos e educação escolar indígena.
- Experiências que articulam literatura, ciências, artes, memória, território, oralidade e produção audiovisual.
Com informações do Instituto Socioambiental.
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