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Sem formação especializada em cartografia, ele navegou o Amazonas no século XVII e desenhou um mapa que também servia para disputar o controle da floresta

No final do século XVII, representar o Amazonas em um mapa era uma tarefa cercada por enormes dificuldades.

Não havia satélites, fotografias aéreas ou sistemas de localização. As distâncias precisavam ser estimadas durante viagens demoradas, em rios sujeitos a mudanças de nível, correntezas e canais secundários.

Samuel Fritz, um missionário jesuíta nascido na região da Boêmia, atual República Tcheca, passou anos navegando pela bacia.

O mapa que produziu se tornaria uma das representações mais influentes do curso do Amazonas.

Mas ele não era apenas um documento geográfico.

Também fazia parte de uma disputa religiosa, territorial e colonial.

Um missionário no Alto Amazonas

Samuel Fritz nasceu em 1654 e ingressou na Companhia de Jesus.

Foi enviado para atuar em missões localizadas na região do rio Marañón e do Alto Amazonas, em áreas disputadas pelas coroas da Espanha e de Portugal.

Durante aproximadamente quatro décadas, trabalhou entre comunidades indígenas e fundou ou reorganizou missões.

As missões não eram espaços neutros.

Elas procuravam converter populações ao cristianismo, concentrar moradores em aldeamentos e ampliar a presença colonial. Ao mesmo tempo, alguns missionários se opunham à escravização indígena praticada por colonos.

Fritz atuava dentro dessa contradição.

Podia tentar proteger comunidades de determinadas formas de violência e, simultaneamente, participar de um projeto que transformava religiões, territórios e modos de vida.

A longa navegação transformada em desenho

Fritz percorreu extensos trechos do rio Amazonas.

Com instrumentos limitados e sem formação especializada em cartografia, reuniu observações sobre cursos fluviais, afluentes, aldeamentos e missões.

Uma versão manuscrita do mapa teria sido produzida por volta de 1691.

Em 1707, uma versão gravada foi publicada em Quito pelo padre Juan de Narváez.

O documento recebeu o título de O rio Marañón ou Amazonas com as missões da Companhia de Jesus.

A representação se destacou por mostrar de maneira relativamente abrangente o curso do rio e a localização das missões.

Foi copiada e adaptada em publicações posteriores, contribuindo para a imagem europeia da Amazônia.

O mapa era também um argumento político

As linhas não serviam apenas para orientar viajantes.

Ao marcar missões espanholas e descrever territórios, Fritz defendia interesses da coroa espanhola diante do avanço português pelo rio.

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O Amazonas era uma fronteira em movimento.

Portugueses saíam da região de Belém e avançavam para o oeste. Missionários ligados à Espanha atuavam a partir dos Andes e do território de Quito.

Colocar uma missão no mapa era uma maneira de afirmar presença.

Por isso, o documento precisa ser lido como instrumento científico e político.

Ele aumentava o conhecimento geográfico, mas também sugeria quem possuía legitimidade para ocupar determinadas áreas.

A doença que terminou em prisão

Durante uma viagem, Fritz adoeceu e desceu o rio até Belém em busca de tratamento.

As autoridades portuguesas desconfiaram de sua atuação e suspeitaram que estivesse reunindo informações para a Espanha.

O missionário foi detido por aproximadamente dois anos.

A acusação revela o valor estratégico de seus conhecimentos. Uma pessoa capaz de descrever rios, aldeias e caminhos poderia ser interpretada como religiosa, cartógrafa ou espiã, dependendo de quem observava.

Após ser libertado, Fritz retornou à região das missões.

Os territórios que o mapa não conseguia representar

O documento de 1707 impressiona pela extensão geográfica.

Entretanto, há algo que suas linhas não conseguem mostrar adequadamente.

A Amazônia já era ocupada por uma enorme diversidade de povos indígenas, com territórios, rotas comerciais e sistemas próprios de orientação.

Os rios não foram descobertos pelos missionários.

Eles já possuíam nomes, caminhos e significados.

Grande parte do conhecimento necessário para viajar e desenhar o mapa dependia de remadores, guias e habitantes locais, mesmo quando seus nomes não apareciam como autores.

O documento transforma esse conhecimento coletivo em uma obra assinada por um cartógrafo europeu.

O mapa que ajudou a enxergar e a controlar

Samuel Fritz morreu em 1725.

Seu mapa continuou circulando depois de sua morte e permanece preservado em grandes bibliotecas.

Ele pode ser admirado como realização cartográfica, mas também deve ser interrogado.

Todo mapa escolhe o que mostrar.

O de Fritz destacava rios, missões e elementos relevantes para o projeto jesuíta e espanhol. Comunidades indígenas apareciam principalmente a partir do modo como interessavam à organização colonial.

O mapa ajudou a Europa a enxergar o Amazonas com maior precisão.

Ao mesmo tempo, transformou uma floresta habitada em território que poderia ser dividido, administrado e disputado.

A grandiosidade da obra está justamente nessa dupla dimensão.

Ela tornou o rio mais visível para o mundo e, com isso, também o tornou mais disponível para aqueles que desejavam controlá-lo.

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