
No alto de uma torre instalada a cerca de 150 quilômetros de Manaus, cientistas recolheram ar em quatro alturas. A primeira entrada ficava a 40 metros, perto da copa. As outras estavam a 80, 150 e 320 metros. O objetivo era medir moléculas liberadas pela floresta. O resultado parece um truque de espelho: a mesma substância dominava perto das árvores em uma orientação e aparecia invertida no topo.
A molécula é o alfa-pineno, um composto volátil associado ao aroma de resina e produzido por plantas. Ela existe em duas formas chamadas enantiômeros. As duas têm os mesmos átomos e propriedades físicas praticamente idênticas, mas suas estruturas são imagens especulares que não se sobrepõem, como a mão esquerda e a mão direita.
Para a química comum da atmosfera, essas versões reagem de modo semelhante com oxidantes. Para seres vivos, a diferença pode ser enorme. Plantas e insetos conseguem distinguir formas espelhadas de determinadas moléculas. Uma orientação pode funcionar como sinal, atraente ou repelente, enquanto a outra provoca uma resposta diferente.
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Antas engoliram sementes em uma área degradada da Amazônia e devolveram ao solo plantas que germinaram mais rápido do que as preparadas à mãoEm cerca de 600 medições realizadas nas estações seca e chuvosa, a proporção entre as versões do alfa-pineno variou por um fator de dez. A forma positiva dominava a 40 metros. A forma negativa era predominante a 320 metros.
A molécula não deveria virar apenas porque subiu
Durante o dia, turbulências transportam compostos da superfície até o topo da torre em aproximadamente 20 a 40 minutos. A concentração total tende a cair durante a subida porque as moléculas se misturam e reagem. A proporção entre as duas formas espelhadas, porém, deveria permanecer relativamente estável se ambas viessem das mesmas fontes e sofressem reações iguais.
Não foi o que ocorreu. A razão entre as formas negativa e positiva passou de 0,38 a 40 metros para 6,5 a 320 metros. No nível mais baixo, havia muito mais da versão positiva; no alto, a negativa dominava. A mudança correspondia a uma inversão de 94% na composição quiral.
Os pesquisadores testaram explicações atmosféricas. Reações com ozônio e radicais oxidantes reduziram a concentração, mas não alteraram a proporção. Partículas coletadas no campo também não absorveram seletivamente uma das versões em testes controlados. Direção e velocidade do vento não explicaram o padrão.
Restou a hipótese de fontes biológicas diferentes.
Cupins e folhas atacadas entraram na lista de suspeitos
A área junto à base da torre tinha uma clareira em regeneração, diferente da mata contínua ao redor de outra estrutura de medição. Vegetação jovem, madeira em decomposição, herbivoria e cupinzeiros poderiam liberar uma assinatura rica na forma positiva do alfa-pineno. Em medições próximas a um ninho de cupins, essa versão realmente ganhou força em algumas amostras noturnas.
Isso não prova que os cupins sejam os únicos responsáveis. O composto pode vir dos próprios insetos, da madeira processada por eles, de microrganismos associados ou de plantas feridas. A conclusão segura é que existe uma fonte local potente e ainda não caracterizada perto do nível inferior.
Para inverter a assinatura regional da copa, essa fonte teria de ser grande. Os pesquisadores estimaram que uma emissão local rica na forma positiva precisava rivalizar com a emissão do dossel ao redor. Uma área aparentemente pequena perto da torre foi capaz de alterar a impressão química do ar a 40 metros.
O mesmo cheiro contém mensagens opostas
O caso ajuda a desmontar uma simplificação. Equipamentos que medem apenas “alfa-pineno total” somam as duas versões. É como contar mãos sem registrar se são esquerdas ou direitas. O total pode permanecer semelhante enquanto a composição biológica muda completamente.
Essa distinção importa para modelos de emissão, comunicação entre organismos e interpretação de estresse. Se herbivoria, cupins ou decomposição favorecem uma orientação específica, medir a proporção pode revelar processos que a concentração total esconde. A assinatura química torna-se uma pista sobre o que acontece dentro da floresta.
O aquecimento também pode mudar as emissões. As concentrações cresceram com a temperatura, embora a resposta varie por altura e estação. Como compostos voláteis participam da formação de aerossóis e de reações atmosféricas, ignorar as duas formas separadas reduz a precisão dos modelos.
A descoberta não significa que a molécula “se transforma” na versão oposta enquanto sobe. O cenário mais provável é uma mistura de fontes: perto do solo e da clareira, uma origem local rica na forma positiva altera o ar; acima da copa, a assinatura regional negativa volta a dominar. A altura funciona como uma lente que separa contribuições sobrepostas.
Essa é a parte mais fascinante da torre de 325 metros. Ela não observa apenas quanto a floresta respira. Ao coletar ar em níveis diferentes, mostra que o aroma amazônico tem camadas. Duas moléculas com a mesma fórmula podem contar histórias distintas sobre folhas, insetos, madeira e temperatura.
À vista desarmada, nada muda entre os 40 e os 320 metros além da distância do chão. Na escala molecular, porém, a floresta troca de mão.
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