Tatu-galinha: o que se sabe sobre o tatu mais comum das Américas, suas tocas e a hanseníase

Veja 3 motivos urgentes para proteger o tatu-galinha antes que ele suma do mapa
Imagem criada com IA

O tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), também chamado de tatu-de-nove-bandas, é um dos mamíferos mais comuns do continente americano, e o dado central sobre ele é que a espécie não está em vias de desaparecer. A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) a classifica como pouco preocupante, em avaliação assinada por Loughry, McDonough e Abba em 2014. Isso não torna o bicho menos interessante. Ele escava tocas que dezenas de outros animais usam, tem uma biologia reprodutiva incomum e, em áreas da Amazônia, está no centro de uma discussão de saúde pública.

Um tatu de distribuição muito ampla

Segundo as fontes de referência, a espécie ocorre do sul dos Estados Unidos à América Central e a boa parte da América do Sul. A taxonomia está em revisão: populações antes agrupadas sob o nome Dasypus novemcinctus foram separadas em outras espécies, como Dasypus guianensis, de acordo com o Mammal Diversity Database. Por isso, estudos mais antigos podem tratar como uma única espécie animais que hoje são classificados separadamente.

Alimentação e reprodução

O tatu-galinha é principalmente insetívoro. Escava com o focinho e come larvas, besouros, formigas e cupins, entre outros invertebrados, e menos de 10% da dieta é de origem não animal, segundo o registro da espécie no levantamento de mamíferos do Kansas, nos Estados Unidos.

A reprodução é uma das mais incomuns entre os vertebrados. Os biólogos W. J. Loughry e Colleen McDonough, que estudam a espécie há mais de duas décadas, descrevem em seu livro The Nine-Banded Armadillo: A Natural History que as fêmeas dão à luz sempre quadrigêmeos geneticamente idênticos. A gestação dura cerca de 120 dias, e o embrião pode ficar até quatro meses sem se implantar no útero antes de se desenvolver.

1. As tocas servem de abrigo para dezenas de espécies

O primeiro motivo para se interessar pelo tatu-galinha está debaixo da terra. Um estudo de DeGregorio, Veon e Massey, publicado em 2022 na revista Ecology and Evolution, instalou câmeras em 35 tocas de tatu-galinha em quatro regiões do estado americano do Arkansas. Ao longo de 5.879 dias de câmera, foram registradas 16.119 detecções de fauna silvestre. No total, 64 espécies de vertebrados interagiram com as tocas: 19 de mamíferos, 4 de répteis, 1 de anfíbio e 40 de aves.

Os animais usaram as tocas para abrigo, alimentação, reprodução e armazenamento de comida. Raposas-vermelhas chegaram a ocupar uma toca, e uma cria pode ter nascido ali. Os autores argumentam que o tatu-galinha é um engenheiro de ecossistemas e deve ser estudado e manejado como mais do que uma praga agrícola ou de jardim. As tocas medem cerca de 20 centímetros de largura por 15 de altura, têm em média 50 centímetros de profundidade, embora algumas cheguem a 4,5 metros, e cada tatu pode manter até 10 tocas. Esse estudo foi feito nos Estados Unidos e não deve ser transposto sem cuidado para a Amazônia, mas indica o tipo de função que a espécie pode ter onde vive.

2. Uma espécie comum que ainda sofre pressões

Ser pouco preocupante não significa estar livre de problemas. A revisão da Lista Vermelha dos tatus feita em 2009 e 2010, publicada na revista Edentata, aponta que quase todas as espécies avaliadas do grupo sofrem com a caça e com a fragmentação e a degradação do habitat. Para o tatu-galinha em particular, relatos de caso veterinários citando Superina e colegas (2014) mencionam caça, atropelamentos e perda de habitat como pressões contínuas, embora a espécie não conste em listas de ameaçadas.

A conclusão prática é que proteger o tatu-galinha hoje significa, sobretudo, evitar que uma espécie abundante perca território em áreas muito alteradas e reduzir mortes evitáveis, como atropelamentos. A avaliação da UICN não a considera ameaçada, e não há estudo publicado que mostre desaparecimento da espécie em regiões inteiras da Amazônia ou do Cerrado.

3. Saúde pública: a relação com a hanseníase

O tatu-galinha é o principal reservatório silvestre da bactéria Mycobacterium leprae, causadora da hanseníase, no sul dos Estados Unidos, segundo estudo de 2023 na revista Emerging Infectious Diseases, e há registros de animais infectados em outros países. No Brasil, um estudo de da Silva e colaboradores, publicado em 2018 na PLoS Neglected Tropical Diseases, testou tatus do Pará e encontrou o marcador genético da bactéria em 10 de 16 animais, 62% do total. Em pesquisa com 146 moradores de Belterra, no oeste do Pará, cerca de dois terços tinham algum contato com tatus por caça, preparo ou consumo da carne. Quem comia tatu mais de uma vez por mês tinha níveis significativamente maiores de anticorpos associados à infecção.

Os autores descrevem os tatus infectados como um possível reservatório ambiental e apontam maior risco para quem caça, manipula ou come o animal. A amostra de tatus é pequena, e a via de transmissão segue em debate: tradicionalmente, a transmissão entre pessoas é considerada a principal. O ponto relevante para a saúde pública é que o risco está na manipulação e no consumo do animal, e não em sua presença na natureza. Preservar o habitat e evitar o contato direto são medidas coerentes com esse conhecimento.

O que a ciência ainda precisa responder

Entre as perguntas em aberto estão o papel das tocas do tatu-galinha na Amazônia, o tamanho das populações em áreas de caça e o risco real de transmissão de hanseníase em comunidades que consomem a carne. Iniciativas de ciência cidadã que registrem ocorrências, atropelamentos e tocas ocupadas podem ajudar a preencher parte dessa lacuna, desde que mantenham a distância recomendada do animal.

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