
No rio Uatumã, a paisagem formada pelo reservatório se tornou a imagem de uma usina que exigiu muita floresta para pouca potência instalada.
Árvores permaneceram de pé depois que o rio virou lago
Em meio ao reservatório da Usina Hidrelétrica de Balbina, no Amazonas, troncos de árvores mortas continuam visíveis acima da água. A imagem não representa apenas uma árvore isolada atingida pela inundação. Ela registra a transformação de uma área de floresta em um grande corpo d’água criado para a geração de eletricidade. Quando o nível do rio Uatumã subiu, a vegetação que ocupava as áreas mais baixas ficou submersa. Parte das árvores perdeu as folhas, interrompeu a fotossíntese e morreu, enquanto seus troncos permaneceram como marcas da paisagem alterada.
A barragem está localizada no município de Presidente Figueiredo, no Amazonas. O caso passou a ser citado em comparações sobre a quantidade de floresta comprometida para cada unidade de potência instalada. O motivo é a relação entre a dimensão da área alagada e a energia prevista pela usina. Em vez de avaliar apenas a existência da hidrelétrica ou o volume de água armazenado, esse tipo de comparação observa quanto território foi convertido para permitir a instalação de cada megawatt. Em Balbina, essa conta produziu um resultado muito acima do registrado em Tucuruí, outra grande hidrelétrica amazônica.
Leia também
Represa é inaugurada em 1984 no Tocantins, forma lago de 200 quilômetros e altera o mapa de um trecho do Pará
Nova serpente é descrita entre Vietnã e China e desfaz confusão de mais de um século em dois países
Quatro estruturas de Fordlândia continuam de pé no Tapajós, moradores reaproveitam ruínas e localidade vira distrito em 2017O alagamento mudou o funcionamento da floresta
A construção de uma barragem altera o caminho natural da água. O rio, que antes se deslocava por um leito contínuo, passa a formar um reservatório com áreas de profundidade, velocidade e circulação diferentes. A floresta que ficava nas margens e nas depressões do terreno deixa de receber apenas as variações sazonais do rio e passa a permanecer sob a água. As raízes perdem contato com o ar do solo, os troncos ficam parcialmente submersos e a vegetação deixa de funcionar como uma floresta terrestre.
Esse processo também modifica a decomposição da matéria orgânica. Folhas, galhos, raízes e madeira que estavam sobre o solo passam a se decompor em um ambiente aquático, onde a disponibilidade de oxigênio e a circulação da água variam conforme a profundidade e a distância da margem. A decomposição consome parte do oxigênio disponível e libera compostos que entram nos ciclos naturais do reservatório. A madeira em pé, por sua vez, torna visível uma fase da mudança que muitas vezes desaparece em imagens feitas apenas da superfície. O lago cobre o terreno, mas não apaga imediatamente a estrutura física da floresta que existia ali.
O estudo de 2018 colocou Balbina e Tucuruí na mesma conta
Um estudo comparativo publicado em 2018 apontou que Balbina sacrificou 35 vezes mais floresta por megawatt instalado do que Tucuruí. O número não significa que a usina tenha produzido 35 vezes menos energia em termos absolutos, nem que toda a área do reservatório tenha a mesma característica ecológica. Ele expressa uma proporção específica, calculada a partir da floresta comprometida em relação à potência instalada. Essa distinção é essencial porque evita transformar um indicador territorial em uma afirmação sobre todos os aspectos do desempenho das duas usinas.
A comparação mostra por que megawatts, sozinhos, não descrevem o custo ambiental de uma obra de infraestrutura. Duas hidrelétricas podem ser analisadas pela quantidade de energia instalada, mas apresentar relações muito diferentes entre potência e área inundada. Em Balbina, a proporção identificada pelo estudo de 2018 fez do reservatório um exemplo recorrente de floresta perdida por megawatt. A paisagem das árvores mortas ajuda a traduzir visualmente esse cálculo. Cada tronco exposto corresponde a uma parte da vegetação que permaneceu no local quando a água ocupou o espaço, tornando concreto um dado que normalmente aparece apenas em tabelas e comparações técnicas.
A paisagem virou referência para discutir escolhas energéticas
O caso de Balbina não deve ser lido como uma medida isolada de toda hidreletricidade. O impacto de uma barragem depende do desenho da obra, da topografia, do tamanho e da configuração do reservatório, da vegetação existente, do regime do rio e da potência instalada. Também é preciso separar o que o estudo comparativo de 2018 mediu daquilo que ele não mediu. A proporção de floresta por megawatt não substitui avaliações sobre comunidades, fauna, qualidade da água, emissões, pesca, transporte ou funcionamento do sistema elétrico. Ela responde a uma pergunta delimitada sobre território e potência.
A conexão com o Brasil é direta porque a expansão hidrelétrica na Amazônia sempre envolve uma decisão sobre rios, florestas e áreas ocupadas por populações. Em Presidente Figueiredo, o reservatório do rio Uatumã tornou essa decisão visível por décadas, com árvores mortas ainda marcando a superfície do lago. A história de Balbina começou com a transformação do curso do rio e ganhou outra dimensão quando o estudo de 2018 comparou sua relação entre floresta alagada e megawatt instalado com a de Tucuruí. O dado não encerra o debate, mas impede que a obra seja lembrada apenas pela eletricidade produzida. Também é preciso olhar para o território que deixou de existir como floresta contínua e para os sinais que a água não conseguiu esconder.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














