
Estudo chinês identifica combinação de 2% de biochar fino que acelera a carbonatação sem comprometer o desempenho mecânico.
Uma pequena quantidade de biochar produzido a partir de casca de coco conseguiu acelerar a captura de dióxido de carbono e aumentar a resistência de uma cal hidráulica usada em construções. Em testes de laboratório, a mistura com 2% de biochar com granulometria de 325 mesh elevou a resistência à compressão em 42,1% após sete dias e ampliou a absorção de CO₂ em até 14,6% nas primeiras seis horas.
O resultado foi apresentado por uma equipe da Hohai University, na China, em estudo publicado em 4 de junho de 2026 na revista científica Biochar X. A pesquisa avaliou diferentes proporções e tamanhos de partículas para descobrir até que ponto o material carbonizado poderia melhorar o desempenho da cal sem criar porosidade excessiva.
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A cal hidráulica natural, conhecida pela sigla NHL, é usada principalmente em restaurações de edifícios históricos porque apresenta maior compatibilidade com alvenarias tradicionais do que o cimento Portland. Sua fabricação também exige temperaturas menores que as do cimento, enquanto o endurecimento ocorre com a absorção de CO₂ da atmosfera.
O problema é que a capacidade de capturar carbono não pode ser analisada isoladamente. Um material pode absorver mais gás, mas perder resistência se sua estrutura interna ficar frágil. Foi justamente essa contradição que a pesquisa tentou esclarecer.
Entenda o caso
Os pesquisadores prepararam pastas e argamassas de cal hidráulica contendo biochar de casca de coco em três tamanhos de partícula, equivalentes a 100, 200 e 325 mesh. As concentrações variaram de 1% a 5%.
As amostras foram submetidas a carbonatação acelerada a 20 graus Celsius, umidade relativa de 70% e concentração de CO₂ de 20%. A resistência foi medida depois de três, sete e 28 dias, além de análises químicas e microscópicas da estrutura.
Por que a partícula menor teve melhor desempenho
O biochar é um material rico em carbono, produzido pela pirólise de biomassa em ambiente com pouco oxigênio. Sua estrutura porosa pode oferecer superfícies adicionais para a adsorção de gases e canais que facilitam a passagem do CO₂ pela matriz da cal.
No experimento, as partículas mais finas produziram os maiores ganhos de resistência. A formulação com 2% de biochar de 325 mesh aumentou a resistência à compressão em 35,7% após três dias, 42,1% depois de sete dias e 10,9% ao fim de 28 dias, sempre em comparação com a cal sem a adição.
Segundo a Chinese Academy of Sciences, a formulação com 2% de biochar de 325 mesh elevou a captura de CO₂ em 14,6% após seis horas, 7,4% após 12 horas e 11,9% depois de 24 horas, além de aumentar em 3,2% a taxa aparente de absorção.
A explicação está na reação de carbonatação. O biochar teria adsorvido e concentrado o CO₂ em regiões próximas da cal, facilitando sua difusão e acelerando a conversão do hidróxido de cálcio em carbonato de cálcio. Esses novos cristais preencheram parte dos vazios microscópicos e deixaram a estrutura mais densa.

Mais biochar não significa necessariamente mais eficiência
Um dos pontos mais importantes do estudo é que o aumento da dose não produziu uma melhora contínua. A captura de carbono cresceu, em geral, com maiores quantidades de biochar. A resistência, porém, começou a cair quando a concentração ultrapassou 2%.
O excesso de biochar introduziu poros adicionais e interrompeu a continuidade da matriz de cal. Na prática, a mistura passou a capturar mais CO₂, mas perdeu parte da integridade mecânica. Essa relação ajuda a explicar por que a pesquisa aponta 2% como ponto de equilíbrio, e não como uma fórmula universal para qualquer aplicação.
As análises de difração de raios X indicaram que a quantidade de carbonato de cálcio cristalino subiu de 60,2% para 63,9% com a adição da mistura considerada ideal. Imagens de microscopia também mostraram uma estrutura carbonatada mais compacta e com menos poros grandes.
Limites antes de pensar em uso em obras
Apesar dos resultados, o experimento ainda está distante de comprovar a aplicação em larga escala. As amostras foram submetidas a condições aceleradas e controladas, diferentes da exposição prolongada a chuva, variação térmica, sais, umidade irregular e ciclos de secagem encontrados em uma obra real.
Também não há, no material divulgado, uma comparação detalhada de custos, emissões associadas à produção do biochar ou desempenho ao longo de anos. Esses dados serão decisivos para saber se o ganho de captura compensa a energia e a infraestrutura necessárias para transformar resíduos agrícolas em um insumo padronizado.
A conexão com a Amazônia é direta no campo da disponibilidade de biomassa, mas não autoriza conclusões automáticas. Cascas de coco e outros resíduos podem ser fontes de biochar, porém a retirada de matéria orgânica, o transporte e a produção precisam ser planejados para não gerar novos impactos. Em estados como Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Roraima, Rondônia e Tocantins, o aproveitamento de resíduos agrícolas só será ambientalmente vantajoso com origem rastreável e avaliação do ciclo de vida.
O estudo completo está disponível no artigo científico sobre biochar e cal hidráulica natural, publicado pela revista Biochar X.
Os próximos passos indicados pelos pesquisadores incluem testar outras condições ambientais, ampliar o período de envelhecimento das amostras e avaliar o comportamento do material em aplicações de conservação e construção sustentável.
Perguntas frequentes
O que é biochar?
É um material rico em carbono produzido pela pirólise de biomassa, como cascas, galhos e outros resíduos orgânicos, em ambiente com pouco oxigênio.
Qual foi a melhor proporção encontrada?
A formulação com 2% de biochar de casca de coco, em partículas de 325 mesh, apresentou o melhor equilíbrio entre captura de CO₂ e resistência à compressão.
O material já pode ser usado em qualquer construção?
Não. Os resultados ainda são de laboratório e precisam ser confirmados em condições reais, com testes de durabilidade, custo, segurança e desempenho durante períodos mais longos.
Com informações de Chinese Academy of Sciences.
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