
Projeto em Caiçara do Norte pretende transformar energia renovável em indústria, porém ainda precisa vencer etapas técnicas, ambientais e financeiras.
A promessa de transformar vento em indústria ganhou uma etapa concreta no Rio Grande do Norte, mas ainda está distante da fase de obras. Em Caiçara do Norte, no litoral norte potiguar, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) iniciou em 26 de agosto de 2026 os estudos que vão dizer se o Porto-Indústria Verde pode sair do papel e sob quais condições. A primeira fase terá duração de 12 meses e deverá terminar em agosto de 2027.
Na prática, a movimentação não representa o início da construção. O banco terá de testar a viabilidade econômica do empreendimento, avaliar soluções de engenharia, examinar o desenho jurídico e dimensionar a infraestrutura necessária. Só depois dessa análise o governo estadual pretende apresentar uma modelagem contratual para consulta pública e, posteriormente, ao mercado.
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O projeto nasceu de uma contradição que acompanha o avanço das renováveis no estado: o Rio Grande do Norte ampliou sua capacidade de geração, mas ainda precisa criar estruturas capazes de transformar essa energia em cadeias produtivas, empregos e arrecadação local.
A proposta combina instalações portuárias e áreas industriais voltadas inicialmente à cadeia eólica offshore. Também estão no horizonte atividades associadas ao hidrogênio verde, à produção de amônia, à mineração, à fabricação de equipamentos e a outros segmentos ligados à transição energética e à economia do mar.
Segundo o BNDES, a primeira fase dos estudos do Porto-Indústria Verde em Caiçara do Norte terá 12 meses, com conclusão prevista para agosto de 2027. O cronograma inclui análise econômica, engenharia, aspectos jurídicos e infraestrutura necessária para o empreendimento.
Por que o valor aparece como R$ 6,8 bilhões e R$ 10 bilhões
Os números do projeto precisam ser lidos em duas camadas. A estrutura modular do porto soma R$ 6,8 bilhões, distribuídos em três etapas. A primeira, calculada em R$ 3,1 bilhões, prevê dragagem, canal de acesso, cais e áreas operacionais.

A segunda fase, estimada em R$ 2,1 bilhões, seria dedicada a instalações para hidrogênio verde e amônia. A terceira, de R$ 1,6 bilhão, ampliaria a diversidade de cargas e operações, com terminais especializados para veículos e produtos químicos.
O montante de até R$ 10 bilhões inclui, além dessas três fases, os investimentos necessários para viabilizar o acesso ao porto e outras estruturas associadas. A diferença não é apenas contábil: ela mostra que o empreendimento depende de uma rede de obras anterior e complementar à operação portuária.
O que ainda precisa ser resolvido antes da PPP
A divisão em módulos foi desenhada para permitir uma expansão gradual, conforme a demanda dos investidores e das empresas. Esse formato pode reduzir o risco de construir toda a estrutura antes de haver carga suficiente, mas também transfere para os estudos a tarefa de estimar quem utilizará o porto, em que volume e em qual prazo.
A equipe do BNDES esteve na área prevista para o empreendimento entre 25 e 26 de agosto, acompanhada por representantes das secretarias estaduais de Planejamento, Infraestrutura e Desenvolvimento Econômico. O trabalho é liderado por Ian Guerriero, superintendente da Área de Soluções em Infraestrutura do banco.
Ao fim dos primeiros 12 meses, a expectativa é obter um estudo técnico e uma proposta de contrato para uma Parceria Público-Privada. O modelo ainda precisará passar por audiência pública e por uma etapa de avaliação do mercado. A segunda fase do trabalho está prevista para ocorrer dois anos depois, conforme o cronograma apresentado pelo governo estadual.
Energia disponível não resolve sozinha o gargalo industrial
O Rio Grande do Norte responde por cerca de 32% da geração de energia eólica do Brasil, segundo dados do governo estadual, e aparece como líder nas perspectivas nacionais para a eólica offshore. A vantagem, porém, não elimina os obstáculos de transmissão, escoamento, conexão, licenciamento e atração de consumidores industriais.

O projeto também se apoia no avanço da exploração eólica no mar. Cerca de um ano antes do início dos estudos, o Ibama havia concedido a primeira licença prévia para um Sítio de Testes de Aerogeradores Offshore no litoral de Areia Branca, com capacidade instalada de até 24,5 megawatts.
Esse antecedente ajuda a explicar a estratégia potiguar, mas não garante a implantação do porto. Uma licença para testes, a disponibilidade de vento e a existência de projetos energéticos não substituem a comprovação de demanda, a licença ambiental do complexo nem a definição sobre quem financiará cada etapa.
O que o caso ensina para a Amazônia
Para os estados da Amazônia, o projeto potiguar funciona como uma referência de política industrial, não como um empreendimento com impacto direto na região. A questão central é comum a territórios que produzem energia ou matérias-primas, mas enfrentam dificuldades para reter parte maior do valor gerado: infraestrutura e oferta de recursos precisam estar acompanhadas de indústria, logística e qualificação.
O desenho do Porto-Indústria Verde também coloca em evidência uma escolha que interessa ao debate amazônico sobre desenvolvimento. A transição energética pode ampliar a exportação de produtos básicos ou servir de base para fabricar equipamentos, combustíveis e insumos no próprio território. A resposta dependerá de contratos, governança, proteção ambiental e participação das comunidades, pontos que o BNDES afirma que serão considerados nos estudos e nas audiências públicas.
A etapa decisiva será a prova de viabilidade
Para a governadora Fátima Bezerra, o objetivo é evitar que o Rio Grande do Norte fique restrito à produção de commodities. “É um projeto transformador para o estado, para o Nordeste e para o Brasil. Não queremos só produzir ‘commodities’, mas sim que esse ativo seja transformado em riqueza, em indústrias, empregos e renda para nosso povo”, afirmou.
Ian Guerriero disse que a implantação deverá considerar as dimensões ambiental e social e incluir a participação da sociedade em audiência pública. “Estamos com toda nossa equipe aqui para iniciarmos, junto com o Governo do Estado, o projeto que vai criar o Porto, um projeto transformador, sempre respeitando o ambiental e o social na região, ouvindo a sociedade em audiência pública e, na sequência, fazermos a contratação dos serviços no prazo de 12 meses”, declarou.
O próximo marco é a conclusão da primeira fase, prevista para agosto de 2027, quando o estado deverá saber se o Porto-Indústria Verde tem base técnica e econômica para avançar à consulta pública e à estruturação da PPP.
Com informações do BNDES.
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