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Ondas de calor levam data centers a acionar geradores a diesel e expõem nova pressão sobre a rede elétrica

Ondas de calor levam data centers a acionar geradores a diesel e expõem nova pressão sobre a rede elétrica
Foto: Divulgação

A combinação entre inteligência artificial, ar-condicionado e secas amplia os conflitos por energia, água e espaço.

Quando uma onda de calor aperta a rede elétrica, os data centers deixam de ser apenas grandes consumidores digitais e passam a funcionar como peças de uma operação de emergência. Foi o que ocorreu em julho de 2026 nos Estados Unidos, onde instalações localizadas na área atendida pela PJM Interconnection foram orientadas a abandonar temporariamente a rede e ligar seus próprios geradores. Em parte dos casos, a alternativa foi a queima de diesel.

A medida evitou que a demanda concentrada em 14 estados aumentasse ainda mais durante dois períodos críticos, de 3 a 5 e de 14 a 17 de julho. Mas também expôs uma contradição: uma infraestrutura apresentada como estratégica para a economia digital pode aliviar o sistema elétrico justamente ao recorrer a uma fonte que agrava a poluição do ar e as emissões.

O socorro à rede veio acompanhado de fumaça

Dados divulgados pela PJM indicam que os geradores operaram por 1.799 horas além dos limites previstos em suas licenças ambientais e forneceram cerca de 9 GW de alívio à rede sobrecarregada. O acionamento ocorreu durante duas ondas de calor severas, quando residências, hospitais e empresas elevaram o uso de ventiladores e sistemas de refrigeração.

Segundo PJM Interconnection, os geradores de clientes classificados como grandes cargas forneceram 9 GW de alívio à rede elétrica entre 3 e 5 e entre 14 e 17 de julho de 2026. A solicitação alcançou data centers e outros consumidores industriais equipados com fontes próprias de emergência.

Moradores de áreas da Virgínia com forte concentração de instalações relataram fumaça escura saindo de conjuntos de geradores. A Coalition to Protect Prince William County, organização ambiental comunitária, criticou a decisão e argumentou que os data centers só conseguem parecer uma solução porque antes ampliaram a pressão sobre a rede local.

Por que o calor torna a equação mais difícil

O problema não começa apenas quando alguém liga o ar-condicionado. Temperaturas externas elevadas reduzem a eficiência de usinas termelétricas a gás, exigem limites operacionais mais conservadores para transformadores e pressionam linhas de transmissão. Ao mesmo tempo, o consumo cresce rapidamente em vários pontos da rede.

Jon Saltmarsh, diretor de tecnologia da Energy Systems Catapult, explicou que o calor afeta diferentes tipos de geração e não representa um problema exclusivo das fontes renováveis. Para ele, a geração de emergência a diesel pode produzir emissões relativamente limitadas quando acionada por poucos minutos, mas se transforma em problema ambiental quando passa a ser usada com regularidade.

Essa distinção é central. Geradores são projetados para interrupções, testes e situações específicas. Quando passam a atuar como instrumento recorrente de gerenciamento da rede, a fronteira entre reserva de emergência e usina complementar fica menos clara. Também aumenta a importância de fiscalização sobre horas de operação, qualidade do combustível e poluentes lançados em bairros próximos.

A fila de conexão virou parte da crise

A Virgínia abriga o maior agrupamento de data centers do mundo, segundo o material analisado, mas a dificuldade não é exclusiva daquela região. A expansão acelerada do setor criou uma disputa por terrenos com fibra óptica, disponibilidade energética e conexão rápida à rede. No Reino Unido, há pelo menos 73 GW em projetos de data centers na fila de acesso ao sistema elétrico.

O governo trabalhista britânico abriu consulta para reduzir a presença de projetos especulativos nessa fila. O mesmo documento propõe incorporar maior flexibilidade de demanda aos contratos de conexão, permitindo que consumidores de grande porte reduzam sua carga ou usem fontes próprias em momentos de estresse.

O Departamento de Segurança Energética e Net Zero afirmou que as exigências das licenças ambientais impedem que geradores de emergência a diesel sejam usados em escala significativa. A posição, porém, não elimina a dúvida colocada pelo episódio da PJM: em uma emergência extensa, quem define quando a exceção deixa de ser exceção?

Inteligência artificial aumenta o tamanho das cargas

O crescimento da inteligência artificial amplia o risco porque os equipamentos usados para treinar e executar modelos exigem muita energia e precisam operar em ambientes resfriados de forma contínua. O consumo não se distribui de maneira uniforme: ele se concentra em grandes complexos, conhecidos no setor elétrico como cargas pontuais.

Um relatório de 2024 do Electric Power Research Institute advertiu que recursos computacionais voltados à geração de imagens, áudio e vídeo não tinham precedente em escala. A Agência Internacional de Energia também apontou a expansão de um modelo de “traga sua própria energia”, no qual operadores instalam usinas a gás ou outras fontes no próprio terreno para contornar filas de conexão.

Esse movimento pode acelerar a implantação de empreendimentos, mas desloca parte do problema. Em vez de esperar o reforço da rede, o projeto passa a levar uma fonte de geração para dentro do campus. A conta ambiental pode reaparecer em forma de emissões locais, consumo de água, ruído e competição por infraestrutura.

Água e energia entram no mesmo conflito

Ondas de calor também elevam o consumo de água dos data centers. Servidores aquecidos exigem mais refrigeração, justamente quando rios e reservatórios podem estar sob estresse. Sistemas chamados de “sem água” reduzem o uso direto no local, mas podem transferir parte da demanda para as usinas que produzem a eletricidade consumida pelos equipamentos.

Na Europa, rios atingidos pela seca levaram usinas que dependem de água para resfriamento a reduzir ou interromper operações. No mesmo período, cerca de um quinto das usinas nucleares francesas estava fora de operação em agosto por condições associadas à estiagem, dificultando o uso das interconexões pelo Reino Unido para equilibrar sua oferta e demanda.

O que o caso significa para a Amazônia

O episódio não autoriza afirmar que o mesmo arranjo já esteja ocorrendo em todos os estados da Amazônia brasileira. A conexão regional, contudo, está no tipo de decisão que acompanha qualquer expansão de infraestrutura digital: onde instalar, de onde virá a eletricidade, como será feito o resfriamento e quem suportará os impactos em períodos de calor extremo ou baixa disponibilidade hídrica.

Para Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a discussão é especialmente relevante porque sistemas elétricos isolados ou redes em expansão não podem ser tratados como se tivessem a mesma folga de grandes centros industriais. Um empreendimento de carga concentrada pode disputar capacidade com serviços públicos, indústria, comércio e projetos de energia renovável.

O alerta do caso britânico é que priorizar data centers na fila de conexão pode retirar recursos de reforços necessários para novas fontes renováveis. A Energy UK advertiu que a velocidade do crescimento do setor pode criar pressão súbita e intensa sobre o sistema elétrico. Antes de qualquer incentivo, a pergunta decisiva é se a infraestrutura pública será dimensionada para atender a economia digital sem transferir seus custos para consumidores e comunidades.

No Reino Unido, as propostas de flexibilidade para data centers ainda seriam debatidas em um ambiente político marcado por medidas emergenciais para preservar o fornecimento de eletricidade. Nos Estados Unidos, os episódios de julho de 2026 já oferecem um teste concreto sobre os limites ambientais desse modelo.

Com informações de The Ecologist.

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