
Oficina reuniu cerca de 70 participantes para criar modelos de governança e projetos-piloto voltados a territórios remotos.
Quando o sol se põe na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no oeste do Pará, algumas comunidades precisam interromper atividades que dependem de eletricidade e esperar o retorno da luz natural. Foi nesse cenário que cerca de 70 participantes de 50 instituições se reuniram, entre 10 e 14 de agosto de 2026, para construir soluções coletivas de acesso à energia elétrica em territórios remotos da Amazônia. A primeira Oficina de Imersão e Capacitação do Sandbox Regulatório Energias da Floresta foi promovida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Uma oficina dentro da floresta
Realizada em diferentes comunidades da Resex Tapajós-Arapiuns, a atividade ocorreu às margens do rio Tapajós, diante da Floresta Nacional do Tapajós. Os participantes conheceram o território, conversaram com moradores e observaram atividades produtivas ligadas à agricultura familiar, ao extrativismo e à sociobiodiversidade.
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Petrobras confirma petróleo na costa do Amapá e reacende a disputa da Foz do AmazonasRepresentantes de comunidades, órgãos públicos, distribuidoras, empresas, universidades, movimentos sociais e organizações da sociedade civil participaram das discussões. A proposta foi avaliar como diferentes atores podem colaborar na criação de soluções para reduzir a pobreza energética e ampliar o acesso a um serviço público de qualidade.
“O mais importante foi ver as pessoas, de diferentes territórios, instituições, saberes, desejos, interesses e demandas, conversando, pensando e propondo soluções inovadoras para problemas antigos do fornecimento do serviço público de energia elétrica prestado pelo Estado brasileiro”, afirmou Vinícius Oliveira da Silva, pesquisador do IEMA.
Comunidades no centro das decisões
O modelo proposto muda a lógica tradicional de planejamento. Em vez de começar pela tecnologia disponível e procurar um local para instalá-la, a iniciativa parte das necessidades de cada comunidade. A partir desse diagnóstico, devem ser avaliadas combinações de tecnologia, regulação, financiamento, gestão e participação social.
“Cada pessoa presente na imersão participou desse processo a partir de seus próprios conhecimentos, experiências e perspectivas”, explicou Fabio Galdino dos Santos, pesquisador do IEMA. Segundo ele, a construção dos projetos deve responder às necessidades reais dos territórios amazônicos e de suas populações.
Para Maria Reginalva Alves Godinho, moradora e liderança comunitária de Anã, a escuta dos moradores é indispensável. “É muito importante que tenham vindo aqui, ouvido e convivido conosco esses quatro dias. É isso que queremos: viver bem dentro da floresta, mas tendo as mesmas oportunidades dos grandes centros. É o início de uma grande construção, para agora, para o médio e longo prazo”, disse.
Entenda o caso
O sandbox regulatório é um ambiente de experimentação controlada. Nesse espaço, podem ser identificadas barreiras regulatórias e institucionais, testados modelos de participação social, definidos indicadores e sistematizados aprendizados para orientar decisões futuras.
No caso do Energias da Floresta, o objetivo é desenvolver e testar soluções de energia renovável, segura, confiável e adequada às comunidades da Amazônia Legal. A proposta considera que os territórios têm necessidades diferentes e não podem ser atendidos por um único modelo padronizado.
Seis desafios para os projetos-piloto
Durante a oficina, os participantes foram distribuídos em seis grupos de trabalho. Os temas foram autogestão comunitária, uso produtivo da energia, operação e manutenção, modelos alternativos de cobrança, infraestrutura comunitária e financiamento.
Nos dois primeiros dias, os grupos percorreram comunidades e analisaram os efeitos da falta ou da precariedade do fornecimento. No encerramento, formularam propostas de projetos-piloto, que foram avaliadas em uma simulação pela mesa de governança da iniciativa.

Agnes da Costa, diretora da Aneel, afirmou que a experiência também pretende avaliar como a regulação pode dialogar com formas coletivas de organização presentes entre povos tradicionais da Amazônia.
“A ideia é entender em que medida a regulação pode dialogar com essas formas de organização e, a partir delas, ampliar a participação social na tomada de decisão”, afirmou Agnes da Costa.
Energia para produzir, estudar e cuidar da saúde
Segundo o IEMA, mais de 84 mil unidades produtivas vinculadas ao extrativismo vegetal estão sem energia elétrica. Pará, Rondônia e Acre concentram, juntos, 65% dos estabelecimentos agropecuários não atendidos pelo serviço público de energia. No Pará, 45% dos estabelecimentos extrativistas ainda não têm eletrificação.
O impacto é expressivo em cadeias como a do açaí, com cerca de 33,7 mil estabelecimentos sem energia, e também na produção de castanha-do-brasil, com aproximadamente 10,1 mil, e de babaçu, com cerca de 7,3 mil. A ausência de eletricidade dificulta o beneficiamento, a refrigeração e a conservação de produtos perecíveis.
Segundo o IEMA, mais de 84 mil unidades produtivas do extrativismo vegetal estavam sem energia elétrica na Amazônia, conforme os dados utilizados na oficina realizada na Resex Tapajós-Arapiuns, no Pará, em agosto de 2026.
“Sem energia, a geração de renda fica comprometida. Também precisamos dela para o bombeamento de água, a conservação dos alimentos, o acesso à saúde, principalmente à telemedicina, e para que a escola tenha uma estrutura adequada, climatizada e informatizada”, relatou Godinho.
Limites dos sistemas atuais
Mesmo onde o Programa Luz para Todos chegou por meio de sistemas individuais, conhecidos como SIGFI, a potência instalada costuma ser dimensionada para necessidades residenciais básicas, como iluminação e televisão. Em muitos casos, ela não é suficiente para acionar motores, despolpadeiras, bombas de água ou freezers horizontais.
O desafio inclui ainda a dependência de combustíveis fósseis, os custos de operação, as tarifas e a dificuldade de manter os sistemas funcionando continuamente. Por isso, a oficina discutiu soluções que combinem confiabilidade, fontes renováveis, custo acessível e capacidade para apoiar atividades produtivas.
“Esperamos que o acesso à energia melhore a qualidade de vida das pessoas da Amazônia como um todo e contribua, inclusive, para as futuras gerações e para mantermos a floresta em pé”, afirmou a liderança comunitária.
Próximas etapas
A experiência na Resex Tapajós-Arapiuns não encerra o processo. As propostas formuladas durante a imersão deverão contribuir para o desenvolvimento dos projetos-piloto e para a avaliação de caminhos regulatórios voltados à transição energética justa na Amazônia Legal. A experimentação continuará com a sistematização dos aprendizados e a análise das soluções construídas com as comunidades.
Perguntas frequentes
O que é o Sandbox Regulatório Energias da Floresta?
É um ambiente de experimentação controlada para testar soluções regulatórias, técnicas e de governança voltadas ao acesso à energia renovável em comunidades amazônicas.
Por que a energia é importante para o extrativismo?
A eletricidade permite conservar e beneficiar produtos, bombear água, operar equipamentos, apoiar a educação e ampliar o acesso à saúde e à geração de renda.
Onde ocorreu a oficina?
A atividade foi realizada em comunidades da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no oeste do Pará, entre 10 e 14 de agosto de 2026.
Com informações do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).
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