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Terras raras somam 2.727 pedidos no Brasil, 42% ligados a estrangeiros e corrida pode afetar 283 áreas

Terras raras somam 2.727 pedidos no Brasil, 42% ligados a estrangeiros e corrida pode afetar 283 áreas
Foto: acervo

Levantamento aponta concentração de projetos em empresas da Austrália, dos Estados Unidos e do Canadá, enquanto comunidades tradicionais ficam sob pressão.

Em meio à disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, o Brasil passou a concentrar uma corrida por terras raras que combina capital estrangeiro, promessas de transição energética e riscos para territórios protegidos. Até junho de 2026, a Agência Nacional de Mineração registrava 2.727 requerimentos para exploração desses elementos no país. Empresas sediadas no exterior ou controladas por grupos estrangeiros respondiam por 42% dos pedidos, embora representassem apenas 12% dos titulares.

Uma corrida recente e concentrada

Os dados foram analisados pela Repórter Brasil e pela Associated Press em uma investigação sobre a expansão da mineração de terras raras no país. O levantamento mostra que 86% dos requerimentos foram protocolados de 2023 em diante, sinal de que o interesse se intensificou em um período relativamente curto.

O conjunto chamado de terras raras reúne 17 elementos químicos usados em ímãs permanentes, veículos elétricos, equipamentos médicos, turbinas eólicas, eletrônicos e sistemas de defesa. A importância econômica desses minerais cresceu porque a China domina praticamente toda a cadeia global, da extração ao processamento e à fabricação de componentes de alta tecnologia.

Segundo a análise, empresas estrangeiras controlam 31 dos 45 processos mais avançados no Brasil, classificados como projetos em operação ou em fase de pré-operação comercial. O dado indica que a presença internacional não está restrita à etapa inicial de pesquisa, mas alcança empreendimentos próximos de gerar produção.

Entenda o caso

Terras raras são minerais estratégicos para setores industriais e militares, mas não necessariamente são raros na natureza. O desafio está em localizar concentrações economicamente viáveis, separar os elementos e desenvolver uma cadeia de processamento com menor impacto ambiental.

De cada mil ocorrências potenciais, cerca de cem avançam para sondagem e pesquisa. Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração, apenas dois projetos costumam apresentar condições consideradas boas. A baixa taxa de sucesso ajuda a explicar por que grupos com maior capacidade financeira assumem numerosos requerimentos simultaneamente.

Austrália, Estados Unidos e Canadá ampliam presença

Entre as 20 empresas com maior número de requerimentos, 11 têm ligação com investidores estrangeiros. As mineradoras australianas lideram entre os grupos internacionais, com 695 pedidos. Sozinha, a Borborema Recursos Minerais, subsidiária da Brazilian Rare Earths Pty Ltd, com sede em Sydney, responde por 217 deles.

“As empresas australianas estão se posicionando desde cedo. Elas trazem conhecimento geológico, capital, disposição para assumir riscos e credibilidade perante governos ocidentais que buscam alternativas ao fornecimento chinês”, afirmou Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé.

Os Estados Unidos aparecem em segundo lugar, com 347 requerimentos. A Alpha Minerals Brazil, incorporada recentemente pela Rare Earth Americas, empresa sediada no Texas, responde por 181 pedidos. A companhia anunciou 15 milhões de dólares em investimentos privados em janeiro de 2026 e, em maio, concluiu uma oferta pública de ações que captou 63 milhões de dólares.

Também aparecem no levantamento a Mineração Apollo, parcialmente controlada pela norte-americana Atlas Lithium, e a canadense Aclara Resources, que possui projetos no Brasil e no Chile. A empresa inaugurou uma planta-piloto de separação de terras raras na Louisiana, nos Estados Unidos, etapa que evidencia uma diferença central da disputa: possuir a jazida não basta. O controle do processamento define boa parte do valor econômico do mineral.

Governo dos EUA se aproxima da única produtora brasileira

O caso mais expressivo é o da Serra Verde, em Goiás, única produtora comercial de terras raras do Brasil. A empresa, que antes fornecia matéria-prima para a China, recebeu financiamento público norte-americano e foi comprada pela USA Rare Earth, companhia da qual o governo dos Estados Unidos se tornou acionista minoritário.

Em janeiro, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos anunciou 1,6 bilhão de dólares em apoio à USA Rare Earth. No mês seguinte, o Banco de Desenvolvimento dos Estados Unidos anunciou financiamento de 565 milhões de dólares para a Serra Verde, com opção de participação minoritária na operação.

A compra foi anunciada em abril por aproximadamente 2,8 bilhões de dólares. A mina goiana tem capacidade para fornecer neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, quatro elementos usados em motores, equipamentos médicos, energias renováveis, robótica, defesa e aeroespacial.

Segundo a Repórter Brasil, a USA Rare Earth também comprou uma participação na francesa Carester, especializada em separação, processamento e reciclagem. O acordo pode integrar a Serra Verde a uma cadeia produtiva ocidental, mas o comunicado divulgado sobre a operação não menciona transferência de tecnologia para o Brasil.

Risco ambiental alcança Amazônia e comunidades tradicionais

A concentração de capital e de projetos ocorre em paralelo a uma lacuna ambiental. Cerca de 25% dos requerimentos analisados se sobrepõem a unidades de conservação ou comunidades tradicionais, ou estão localizados a até dez quilômetros desses territórios.

O Observatório da Transição Energética estima que os requerimentos podem afetar até 283 áreas protegidas, incluindo terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação. A distância de dez quilômetros não elimina o risco, porque abertura de estradas, captação de água, rejeitos e circulação de trabalhadores podem produzir impactos além dos limites formais das minas.

Na Amazônia, a preocupação envolve também a Mineração Taboca, maior produtora de estanho refinado do Brasil, comprada por uma estatal chinesa. A empresa opera nas proximidades da Terra Indígena Waimiri Atroari, no Amazonas, região onde já houve investigação sobre possível contaminação de rio e morte de animais aquáticos. A companhia anunciou planos para estudar o potencial de terras raras na área, mas não possuía requerimentos desses minerais até junho, segundo o levantamento.

Segundo a Repórter Brasil e a Associated Press, os requerimentos de terras raras registrados na ANM até junho de 2026 eram majoritariamente brasileiros, mas 42% estavam sob controle de empresas estrangeiras ou de subsidiárias internacionais.

Debate regulatório ainda não resolve as lacunas

A expansão dos projetos acelerou a discussão sobre uma política nacional para minerais críticos. Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que cria prioridades de investimento e um conselho para monitorar a influência estrangeira no setor. A proposta ainda depende de votação no Senado.

O texto defende a participação de empresas internacionais, mas condicionada à transferência de tecnologia e à ampliação da capacidade brasileira de processamento. Ambientalistas e representantes de comunidades tradicionais, contudo, criticam a ausência de salvaguardas consideradas suficientes. A pauta também se cruza com a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental, cujo impacto específico sobre os projetos de terras raras precisa ser [CHECAR] no texto legislativo e na regulamentação aplicável.

O desafio para o Brasil é transformar reservas minerais em desenvolvimento industrial sem repetir um modelo baseado apenas na exportação de matéria-prima. Para os estados amazônicos, isso significa acompanhar não só os pedidos da ANM, mas também os estudos ambientais, a consulta às comunidades e o destino do processamento. O projeto de lei no Senado e os próximos licenciamentos devem definir se a corrida por terras raras produzirá uma cadeia tecnológica nacional ou apenas uma nova frente de extração mineral.

Perguntas frequentes

O que são terras raras?
São 17 elementos químicos usados em tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, equipamentos médicos e sistemas de defesa.

Quanto dos projetos brasileiros está ligado a empresas estrangeiras?
Empresas sediadas no exterior ou controladas por grupos estrangeiros respondem por 42% dos requerimentos, embora representem 12% dos titulares.

Quais áreas podem ser afetadas?
O levantamento aponta risco potencial para até 283 áreas protegidas, entre terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação.

Com informações de Repórter Brasil e Associated Press.

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