
Pesquisas com os caboclinhos indicam que o canto aprendido e o desenho da plumagem do macho funcionam como sinais de reconhecimento entre espécies quase idênticas no DNA.
Um grupo de espécies muito parecidas
Caboclinho é o nome dado no Brasil a pequenos pássaros do gênero Sporophila, da família Thraupidae, que em espanhol são chamados de capuchinos. Segundo Benites, Campagna e Tubaro, em artigo de 2015 no Journal of Avian Biology, o grupo reúne cerca de 12 espécies com diferenciação genética extremamente baixa, que vivem em campos e áreas abertas da América do Sul. Leonardo Campagna, do Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell, disse à revista Pesquisa Fapesp que o DNA de duas dessas espécies é cerca de 99,9% idêntico, o que indica que elas estão no início do processo de separação.
O WikiAves, plataforma brasileira de registro de aves, observa que fêmeas e filhotes são parecidos entre as espécies, o que dificulta a identificação e permite cruzamentos entre elas. Os machos é que carregam as diferenças mais visíveis, no padrão de cores e no canto. A lista de caboclinhos do Brasil inclui, entre outros, o caboclinho (Sporophila bouvreuil), o caboclinho-de-barriga-vermelha (S. hypoxantha), o caboclinho-de-papo-branco (S. palustris), o caboclinho-de-papo-escuro (S. ruficollis) e o caboclinho-lindo (S. minuta). A maioria é migratória e frequenta campos limpos, campos sujos e áreas úmidas.
O canto é aprendido, mas a origem do aprendizado varia
As aves canoras estão entre os raros grupos de animais capazes de aprender sons. Erich Jarvis, da Universidade Rockefeller, lembra isso em comentário sobre a pesquisa com caboclinhos publicada na revista Science. Os autores desse estudo, liderado por Sheela Turbek, da Universidade do Colorado em Boulder, descrevem o canto dos caboclinhos como um traço transmitido culturalmente, adquirido sobretudo por aprendizado social, embora haja um componente genético na discriminação inicial dos sons.
Isso significa que o jovem constrói o canto pela convivência com outras aves, e não que nasça com ele pronto. Ainda não há estudo que demonstre que o filhote de caboclinho aprenda o canto especificamente com o pai, nem que existam dialetos locais transmitidos de geração em geração dentro de uma mesma espécie.
Canto e plumagem como identidade da espécie
O que as pesquisas de campo mostram é que o canto ajuda cada espécie a se reconhecer. No estudo de 2015, Benites e colegas tocaram gravações de canto para machos de Sporophila hypoxantha e S. palustris. Cada espécie reagiu com mais intensidade ao próprio canto. A reação ao canto de outro caboclinho do sul foi parecida com a reação a um canto de controle, de uma espécie mais distante. Os autores sugerem que o canto, por ser um traço herdado culturalmente, pode contribuir para manter essas espécies separadas.
A pesquisa de Turbek e colaboradores, publicada na Science em 2021, foi feita nos Esteros del Iberá, na província de Corrientes, na Argentina. Ali o caboclinho-de-barriga-vermelha convive com Sporophila iberaensis, espécie descrita recentemente e conhecida em inglês como Iberá Seedeater. Os dois defendem territórios vizinhos, reproduzem-se ao mesmo tempo e se alimentam nas mesmas gramíneas. Mesmo assim, a análise genética de 206 indivíduos, entre adultos e filhotes, mostrou que os casais se formam dentro da própria espécie.
Para testar o que une cada macho à sua espécie, a equipe apresentou a 76 machos territoriais combinações de canto gravado e modelos artificiais pintados com a plumagem de cada espécie, em 240 testes. Cada espécie respondeu com mais agressividade à combinação de canto e plumagem da própria espécie, teve reação intermediária quando os sinais não combinavam e ignorou em grande parte os sinais de outros caboclinhos. Os autores concluem que canto e plumagem são usados em conjunto para reconhecer indivíduos da mesma espécie.
O que ainda não está demonstrado
O experimento mediu a reação dos machos. A escolha das fêmeas foi deduzida do resultado final, ou seja, de quem formou casal com quem, já que as fêmeas das duas espécies são indistinguíveis a olho nu e acompanhar suas decisões diretamente é difícil. Jarvis observa que ainda não se sabe se a preferência das fêmeas por um padrão de canto é puramente cultural ou também genética. Ele levanta a hipótese de que o mecanismo possa originar diferenças entre populações de uma mesma espécie, mas isso não foi testado.
Há registro de variação geográfica no canto. A descrição da espécie, reunida com base em Jaramillo (2020), no Birds of the World, e no Livro Vermelho do ICMBio, informa que o canto do caboclinho-de-barriga-vermelha é uma série de assobios claros e descendentes, e que as populações do Sudeste do Brasil cantam mais rápido, com notas mais curtas. Mas não há pesquisa mostrando que as fêmeas escolham parceiros pelo sotaque do território onde vivem.
Ninho de capim e campos em retração
Segundo essa mesma descrição, só a fêmea do caboclinho-de-barriga-vermelha constrói o ninho, uma pequena taça de capim seco escondida na vegetação densa, a menos de 45 centímetros do chão. Só ela choca os ovos, por 11 a 12 dias. O macho passa a ajudar na alimentação cerca de cinco dias depois da eclosão, e os filhotes deixam o ninho com nove a dez dias. A dieta é formada sobretudo por sementes de gramíneas, que a ave come empoleirada nos próprios caules.
A principal ameaça é a perda do ambiente. A conversão de campos em lavouras de soja e girassol, a pecuária extensiva, as queimadas frequentes e a drenagem de áreas úmidas reduzem os campos onde a espécie se reproduz. A captura ilegal para o comércio também pesa, sobretudo onde grandes bandos se reúnem no inverno. A Portaria MMA nº 148/2022 mantém o caboclinho-de-barriga-vermelha como Vulnerável na lista nacional de espécies ameaçadas, e a IUCN o classifica como Pouco Preocupante no mundo, embora com população em declínio. O WikiAves aponta que a espécie se tornou rara no Sudeste e no Sul.
Para o grupo, a conservação dos campos nativos significa preservar o conjunto de condições em que canto e plumagem continuam cumprindo seu papel: bandos numerosos, machos que se escutam e territórios vizinhos onde cada espécie reconhece a sua.
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