
Explosão populacional no Delta do Pó ameaça uma tradição pesqueira e expõe os efeitos de águas mais quentes.
Oscarina Soncin e Giovanna Pizzo entraram na lagoa de Scardovari, no nordeste da Itália, como faziam havia mais de 20 anos. Com a água fria na altura dos joelhos, arrastaram o barco e rasparam o fundo com um ancinho de metal. Mas, em vez das amêijoas-de-Manila que sustentavam suas famílias, encontraram conchas quebradas e poucos moluscos. A causa foi a explosão do caranguejo-azul-do-Atlântico, que reduziu em 93% as capturas anuais de amêijoas na lagoa desde 2023 e obrigou pescadores a procurar novas profissões.
O episódio ocorre no Delta do Pó, onde o rio mais longo da Itália desemboca no Mar Adriático. A região abriga uma das principais áreas de pesca e aquicultura de mariscos do país. Em 2024, mais de 600 pescadores, cerca de 40% dos integrantes do consórcio local, haviam deixado a atividade, devolvido licenças ou buscado trabalho em outros setores, segundo o grupo responsável pela produção.
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Soncin e Pizzo ficaram conhecidas pelo trabalho diário na lagoa e chegaram a ser retratadas pela National Geographic em 2021. Durante duas décadas, as duas pescadoras retiravam cerca de 1,8 quilo de amêijoas por manhã. O ofício oferecia renda estável e autonomia, apesar do esforço físico e do frio enfrentado durante o inverno.
A mudança começou a ficar evidente em 2023. As pescadoras passaram mais tempo na água para tentar alcançar a cota, mas nem sempre encontravam mariscos suficientes. Em 2024, Pizzo renunciou à licença e passou a trabalhar em uma fábrica de processamento de frutos do mar. Soncin também deixou a pesca.
A crise encerrou ainda uma tradição familiar. Barbara e Giovanna Tesserin abandonaram a atividade no mesmo período, depois de anos trabalhando ao lado da mãe, uma das primeiras mulheres da região a entrar na pesca. Chiara Tesserin, que tem formação em culinária e havia voltado para a atividade durante a pandemia de Covid-19, também viu a profissão da família perder viabilidade.

Capturas do caranguejo aumentaram 900%
O caranguejo-azul-do-Atlântico, de nome científico Callinectes sapidus, é nativo do Atlântico ocidental. A espécie é consumida em Maryland, em outras áreas da costa leste dos Estados Unidos e no Golfo do México. Na Itália, porém, passou a atuar como predador de uma cadeia produtiva construída em torno da amêijoa-de-Manila, Ruditapes philippinarum.
Introduzida no país no início da década de 1980 para compensar a queda das espécies nativas, a amêijoa-de-Manila chegou a sustentar uma produção de até 55 mil toneladas por ano. A Itália tornou-se o segundo maior produtor mundial, atrás apenas da China. As amêijoas são usadas em pratos tradicionais, inclusive massas e preparações cozidas no vapor.
Segundo o Conselho Consultivo da Aquicultura, as capturas de caranguejo-azul no Delta do Pó passaram de aproximadamente 200 toneladas, em 2022, para 2 mil toneladas, em 2024, um aumento de 900%. Em Goro, outra lagoa importante, a produção média de amêijoas caiu para 4 mil toneladas em 2024, 70% abaixo da média registrada na década anterior.
Em Scardovari, a queda foi ainda mais brusca. As capturas anuais passaram de 4.800 toneladas para 340 toneladas desde 2023. Segundo o Conselho Consultivo da Aquicultura, a pesca de caranguejo-azul no Delta do Pó aumentou de cerca de 200 toneladas em 2022 para 2 mil toneladas em 2024.
O clima criou condições favoráveis ao invasor
Os caranguejos já estavam presentes no Delta do Pó havia décadas, mas a população cresceu rapidamente a partir de 2023. A espécie tolera diferentes níveis de temperatura e salinidade e não encontra predadores naturais em quantidade suficiente para controlar sua expansão.

Massimiliano Costa, diretor do Parque do Delta do Pó, afirma que o rio fornece nutrientes abundantes às lagoas. A entrada de água salgada pelas marés também oferece condições favoráveis à reprodução das fêmeas. O fundo lamacento, usado pelos caranguejos para se esconder e procurar alimento, facilita a captura de amêijoas.
As condições climáticas recentes podem ter acelerado o processo. Em 2022, uma seca considerada a mais grave dos últimos dois séculos no norte da Itália permitiu que a água salgada avançasse pelo rio. Em 2023, chuvas intensas e inundações espalharam larvas e indivíduos jovens por diferentes áreas do delta.
O aquecimento das águas do Mediterrâneo também prolongou o período reprodutivo e reduziu a mortalidade durante o inverno. Uma fêmea pode produzir milhões de ovos. Para Viviana Carli, técnica do Parque do Delta do Pó, ovos e larvas provavelmente chegaram ao local por meio do transporte marítimo ao longo de várias décadas. O fator decisivo teria sido a mudança das condições ambientais.
“O que parece ter mudado foram as condições ambientais, que se tornaram muito mais favoráveis para a espécie, permitindo que a população aumentasse drasticamente”, afirmou Viviana Carli, técnica do Parque do Delta do Pó.
Uma disputa difícil de vencer
O ecologista Mattias Gaglio, da Universidade de Ferrara, descreve o impacto como uma ruptura na rede ecológica. “Destroem completamente as explorações de amêijoas. Comem todas as sementes, até mesmo as amêijoas-de-Manila maiores”, disse.
Os pesquisadores consideram difícil, ou até impossível, eliminar o caranguejo-azul das lagoas italianas. Parte dos pescadores tenta se adaptar capturando e comercializando o crustáceo, enquanto outros deixaram o setor. A mudança, no entanto, não é simples para famílias que dependem há gerações da pesca artesanal.
O caso italiano também chama atenção para a costa brasileira, inclusive para estuários e áreas de manguezal da Amazônia, onde a combinação entre espécies introduzidas, tráfego marítimo, alteração da salinidade e aquecimento da água pode aumentar riscos ecológicos. Isso não significa que o mesmo cenário já esteja ocorrendo nos estados amazônicos, mas reforça a importância do monitoramento de espécies marinhas invasoras.
Para as pescadoras do Delta do Pó, a transformação já deixou de ser uma hipótese ambiental e virou uma mudança concreta de vida. A expectativa é que novas medidas de manejo, comercialização do caranguejo e apoio aos trabalhadores sejam discutidas pelas autoridades italianas nos próximos períodos de pesca.
Com informações de Conselho Consultivo da Aquicultura.
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