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Caranguejo-azul invade lagoas da Itália, derruba pesca de amêijoas em 93% e força famílias a mudar de profissão

Caranguejo-azul invade lagoas da Itália, derruba pesca de amêijoas em 93% e força famílias a mudar de profissão
Foto: cnnportugal.iol.pt

Explosão populacional no Delta do Pó ameaça uma tradição pesqueira e expõe os efeitos de águas mais quentes.

Pescadoras trabalham em uma lagoa do Delta do Pó, na Itália
Pescadoras de amêijoas no Delta do Pó, região afetada pela expansão do caranguejo-azul. Foto: Chiara Negrello.

Oscarina Soncin e Giovanna Pizzo entraram na lagoa de Scardovari, no nordeste da Itália, como faziam havia mais de 20 anos. Com a água fria na altura dos joelhos, arrastaram o barco e rasparam o fundo com um ancinho de metal. Mas, em vez das amêijoas-de-Manila que sustentavam suas famílias, encontraram conchas quebradas e poucos moluscos. A causa foi a explosão do caranguejo-azul-do-Atlântico, que reduziu em 93% as capturas anuais de amêijoas na lagoa desde 2023 e obrigou pescadores a procurar novas profissões.

O episódio ocorre no Delta do Pó, onde o rio mais longo da Itália desemboca no Mar Adriático. A região abriga uma das principais áreas de pesca e aquicultura de mariscos do país. Em 2024, mais de 600 pescadores, cerca de 40% dos integrantes do consórcio local, haviam deixado a atividade, devolvido licenças ou buscado trabalho em outros setores, segundo o grupo responsável pela produção.

Da rotina na água à procura por outro trabalho

Soncin e Pizzo ficaram conhecidas pelo trabalho diário na lagoa e chegaram a ser retratadas pela National Geographic em 2021. Durante duas décadas, as duas pescadoras retiravam cerca de 1,8 quilo de amêijoas por manhã. O ofício oferecia renda estável e autonomia, apesar do esforço físico e do frio enfrentado durante o inverno.

A mudança começou a ficar evidente em 2023. As pescadoras passaram mais tempo na água para tentar alcançar a cota, mas nem sempre encontravam mariscos suficientes. Em 2024, Pizzo renunciou à licença e passou a trabalhar em uma fábrica de processamento de frutos do mar. Soncin também deixou a pesca.

A crise encerrou ainda uma tradição familiar. Barbara e Giovanna Tesserin abandonaram a atividade no mesmo período, depois de anos trabalhando ao lado da mãe, uma das primeiras mulheres da região a entrar na pesca. Chiara Tesserin, que tem formação em culinária e havia voltado para a atividade durante a pandemia de Covid-19, também viu a profissão da família perder viabilidade.

Caranguejo-azul invade lagoas da Itália, derruba pesca de amêijoas em 93% e força famílias a mudar de profissão
Foto: cnnportugal.iol.pt

Capturas do caranguejo aumentaram 900%

O caranguejo-azul-do-Atlântico, de nome científico Callinectes sapidus, é nativo do Atlântico ocidental. A espécie é consumida em Maryland, em outras áreas da costa leste dos Estados Unidos e no Golfo do México. Na Itália, porém, passou a atuar como predador de uma cadeia produtiva construída em torno da amêijoa-de-Manila, Ruditapes philippinarum.

Introduzida no país no início da década de 1980 para compensar a queda das espécies nativas, a amêijoa-de-Manila chegou a sustentar uma produção de até 55 mil toneladas por ano. A Itália tornou-se o segundo maior produtor mundial, atrás apenas da China. As amêijoas são usadas em pratos tradicionais, inclusive massas e preparações cozidas no vapor.

Segundo o Conselho Consultivo da Aquicultura, as capturas de caranguejo-azul no Delta do Pó passaram de aproximadamente 200 toneladas, em 2022, para 2 mil toneladas, em 2024, um aumento de 900%. Em Goro, outra lagoa importante, a produção média de amêijoas caiu para 4 mil toneladas em 2024, 70% abaixo da média registrada na década anterior.

Em Scardovari, a queda foi ainda mais brusca. As capturas anuais passaram de 4.800 toneladas para 340 toneladas desde 2023. Segundo o Conselho Consultivo da Aquicultura, a pesca de caranguejo-azul no Delta do Pó aumentou de cerca de 200 toneladas em 2022 para 2 mil toneladas em 2024.

O clima criou condições favoráveis ao invasor

Os caranguejos já estavam presentes no Delta do Pó havia décadas, mas a população cresceu rapidamente a partir de 2023. A espécie tolera diferentes níveis de temperatura e salinidade e não encontra predadores naturais em quantidade suficiente para controlar sua expansão.

Caranguejo-azul invade lagoas da Itália, derruba pesca de amêijoas em 93% e força famílias a mudar de profissão
Foto: cnnportugal.iol.pt

Massimiliano Costa, diretor do Parque do Delta do Pó, afirma que o rio fornece nutrientes abundantes às lagoas. A entrada de água salgada pelas marés também oferece condições favoráveis à reprodução das fêmeas. O fundo lamacento, usado pelos caranguejos para se esconder e procurar alimento, facilita a captura de amêijoas.

As condições climáticas recentes podem ter acelerado o processo. Em 2022, uma seca considerada a mais grave dos últimos dois séculos no norte da Itália permitiu que a água salgada avançasse pelo rio. Em 2023, chuvas intensas e inundações espalharam larvas e indivíduos jovens por diferentes áreas do delta.

O aquecimento das águas do Mediterrâneo também prolongou o período reprodutivo e reduziu a mortalidade durante o inverno. Uma fêmea pode produzir milhões de ovos. Para Viviana Carli, técnica do Parque do Delta do Pó, ovos e larvas provavelmente chegaram ao local por meio do transporte marítimo ao longo de várias décadas. O fator decisivo teria sido a mudança das condições ambientais.

“O que parece ter mudado foram as condições ambientais, que se tornaram muito mais favoráveis para a espécie, permitindo que a população aumentasse drasticamente”, afirmou Viviana Carli, técnica do Parque do Delta do Pó.

Uma disputa difícil de vencer

O ecologista Mattias Gaglio, da Universidade de Ferrara, descreve o impacto como uma ruptura na rede ecológica. “Destroem completamente as explorações de amêijoas. Comem todas as sementes, até mesmo as amêijoas-de-Manila maiores”, disse.

Os pesquisadores consideram difícil, ou até impossível, eliminar o caranguejo-azul das lagoas italianas. Parte dos pescadores tenta se adaptar capturando e comercializando o crustáceo, enquanto outros deixaram o setor. A mudança, no entanto, não é simples para famílias que dependem há gerações da pesca artesanal.

O caso italiano também chama atenção para a costa brasileira, inclusive para estuários e áreas de manguezal da Amazônia, onde a combinação entre espécies introduzidas, tráfego marítimo, alteração da salinidade e aquecimento da água pode aumentar riscos ecológicos. Isso não significa que o mesmo cenário já esteja ocorrendo nos estados amazônicos, mas reforça a importância do monitoramento de espécies marinhas invasoras.

Para as pescadoras do Delta do Pó, a transformação já deixou de ser uma hipótese ambiental e virou uma mudança concreta de vida. A expectativa é que novas medidas de manejo, comercialização do caranguejo e apoio aos trabalhadores sejam discutidas pelas autoridades italianas nos próximos períodos de pesca.

Com informações de Conselho Consultivo da Aquicultura.

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