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Rastreabilidade mineral ganha força no Brasil, revela origem, emissões e práticas por trás do minério

Rastreabilidade mineral ganha força no Brasil, revela origem, emissões e práticas por trás do minério
Ilustração: IA

Dados auditáveis podem ajudar o país a comprovar vantagens ambientais e acessar mercados globais mais exigentes.

Operação de mineração e rastreabilidade de minerais
Imagem ilustrativa de operação de mineração. Crédito: Divulgação.

Do ponto de extração até o porto de destino, cada etapa da produção mineral começa a precisar de uma comprovação verificável. No Brasil, empresas, entidades setoriais e órgãos públicos buscam ampliar a rastreabilidade mineral para demonstrar a origem lícita dos materiais, os impactos socioambientais, o consumo de energia e as emissões associadas, em um movimento relacionado às novas exigências do comércio internacional.

O tema ganhou força com a adoção de mecanismos que consideram o carbono incorporado aos produtos. Entre eles está o mecanismo europeu de ajuste de carbono, que entrou em vigor em 2026 e alcança produtos como ferro, aço, alumínio, cimento, fertilizantes e hidrogênio. A expectativa de especialistas é que exigências semelhantes avancem em outras economias interessadas na descarbonização.

Origem e emissões passam a influenciar negociações

A rastreabilidade acompanha a trajetória do minério desde a lavra, passando pelo beneficiamento e pelo transporte, até a entrega ao comprador. O objetivo é reunir dados capazes de comprovar não apenas de onde veio o material, mas também em quais condições ele foi produzido.

“O rastreamento é uma ferramenta cada vez mais importante para acessar mercados que exigem informações não apenas sobre a origem dos minérios, mas também sobre as práticas de extração, os impactos socioambientais e as emissões de carbono”, afirma Larissa Rodrigues, diretora de pesquisa do Instituto Escolhas.

Segundo o Instituto Escolhas, a rastreabilidade mineral permite demonstrar a origem e as condições de produção dos minérios no Brasil, aspecto que ganhou relevância com as regras internacionais adotadas em 2026.

Entenda o caso

O mercado global passou a exigir mais informações sobre a cadeia de fornecimento de minerais. Sistemas digitais podem registrar lotes, parâmetros de qualidade, consumo energético, fornecedores e condicionantes ambientais.

Com esses registros, auditorias independentes podem verificar se as informações declaradas correspondem às operações realizadas. A ferramenta também pode reduzir riscos de aquisição de material ilegal ou associado a impactos não informados.

Brasil tenta transformar vantagem ambiental em valor

O Brasil reúne condições apontadas como favoráveis à produção de minerais de menor intensidade de carbono, entre elas uma matriz energética com participação relevante de fontes renováveis, disponibilidade hídrica e reservas de minério de ferro de alta qualidade.

Essas características, no entanto, só tendem a ser reconhecidas pelos compradores internacionais se forem acompanhadas de dados confiáveis e auditáveis. Sem informações padronizadas, o produto brasileiro pode não receber uma diferenciação comercial proporcional às condições ambientais de sua produção.

Um dos projetos que pretende operar com esse tipo de controle é o Projeto Ferro Verde, da Brazil Iron, previsto para a região da Chapada Diamantina, na Bahia. A empresa planeja investir US$ 5,7 bilhões e alcançar produção anual de 10 milhões de toneladas de concentrado de minério de ferro de alta pureza.

De acordo com a Brazil Iron, o sistema em desenvolvimento deverá cobrir a jornada do produto desde a lavra até as etapas de transporte e entrega aos portos de destino. Entre os dados previstos estão a origem dos insumos, o consumo de energia, a pegada de carbono, o cadastro de fornecedores e o cumprimento de condicionantes socioambientais.

Esse controle deverá passar por auditorias independentes e periódicas. A empresa informou ter firmado parceria com o Bureau Veritas para elaborar um plano de verificação antes do início da produção, prevista para até 2031. O aço de menor intensidade de carbono produzido no projeto deverá ser direcionado a mercados da Ásia, com foco no Japão, da Europa e dos Estados Unidos.

Rastreabilidade mineral ganha força no Brasil, revela origem, emissões e práticas por trás do minério
Foto: valor.globo.com

Tecnologia acompanha lotes e parâmetros de qualidade

Nas grandes mineradoras, sistemas digitais já são empregados para controlar qualidade, logística e composição dos produtos. Empresas de tecnologia fornecem soluções que conectam informações da mina às plantas de processamento e relacionam cada lote a parâmetros específicos.

Uma das ferramentas utilizadas nesse processo emprega etiquetas inseridas no fluxo do minério para acompanhar lotes ao longo das operações de mineração e beneficiamento. A tecnologia cria uma base de dados que pode ser usada em relatórios de cadeia de valor e em futuras exigências de passaportes digitais de produtos.

“À medida que a União Europeia introduz os Passaportes Digitais de Produto, as mineradoras precisarão de informações mais confiáveis sobre a origem dos materiais”, afirma Laender Azevedo, gerente de soluções de automação da Metso.

A rastreabilidade também é considerada especialmente importante para pequenas e médias empresas, que nem sempre possuem operações verticalizadas e sistemas integrados de controle. Para Pablo Cesário, diretor-presidente interino do Instituto Brasileiro de Mineração, essas companhias podem depender mais de soluções capazes de organizar informações de diferentes etapas e fornecedores.

Regulação ainda é fragmentada

Segundo a Agência Nacional de Mineração, parte das empresas e cooperativas de reciclagem já utiliza mecanismos de rastreabilidade no país. As experiências, porém, são fragmentadas e seguem metodologias diferentes. Algumas acompanham a origem física do material, enquanto outras priorizam atributos ambientais ou controles internos da cadeia de fornecimento.

O Projeto de Lei 2.780/2024, aprovado pela Câmara dos Deputados e em análise no Senado Federal, prevê a criação de um sistema de rastreabilidade para minerais críticos e estratégicos. Conforme a ANM, a proposta pode contribuir para comprovar uma produção com menor emissão, ampliar a visibilidade da matriz energética brasileira e aumentar a transparência perante compradores.

A discussão tem impacto direto sobre a Amazônia Legal, onde a mineração de ouro e outros minerais convive com desafios relacionados à legalidade da origem, ao transporte, à fiscalização e aos impactos sobre territórios e comunidades. Um padrão nacional de informações pode ser relevante para operações no Pará, Amapá, Amazonas, Rondônia, Roraima, Acre, Tocantins e Mato Grosso, desde que considere as particularidades ambientais e sociais de cada área.

Além da regulamentação, representantes do setor defendem energia limpa a preços competitivos, segurança jurídica, regras claras e incentivos fiscais para a adoção de tecnologias de baixo carbono. A implementação dos sistemas exigirá investimentos, integração entre empresas e órgãos públicos, além de critérios comuns para auditoria.

O avanço da rastreabilidade deverá continuar associado à regulamentação brasileira, à implantação de sistemas digitais e à preparação das empresas para as exigências comerciais que serão ampliadas nos próximos anos.

Perguntas frequentes

O que é rastreabilidade mineral?

É o processo de acompanhar o mineral desde a extração até o beneficiamento, transporte e entrega ao consumidor ou comprador final, reunindo informações sobre origem, qualidade, energia, emissões e impactos socioambientais.

Por que a rastreabilidade é importante para o Brasil?

Ela pode comprovar a origem legal e as condições de produção dos minerais, permitindo que vantagens como minério de alta pureza e matriz energética renovável sejam reconhecidas nos mercados globais.

O Brasil já tem um sistema nacional integrado?

As iniciativas existentes ainda são fragmentadas e utilizam metodologias distintas. O Projeto de Lei 2.780/2024 prevê um sistema voltado a minerais críticos e estratégicos e está em análise no Senado Federal.

Com informações do Instituto Escolhas e da Agência Nacional de Mineração.

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