
Em maio de 2026, pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp de Araraquara anunciaram a descoberta de uma espécie rara de percevejo predador na floresta do Parque Nacional da Serra do Divisor, no extremo oeste do Acre, na fronteira com o Peru. O inseto foi batizado de Bagriella meneguettii. O gênero Bagriella permanecia sem novos registros científicos há 103 anos.
Até então, o único exemplar conhecido no mundo havia sido coletado em 1923 na América Central e estava depositado no Museu Nacional de História Natural, em Washington, nos Estados Unidos. O achado no Acre representa o primeiro registro do gênero em toda a América do Sul e reforça o quanto a biodiversidade amazônica ainda está subamostrada.
A expedição que buscava outra coisa
A descoberta não foi o objetivo inicial da equipe. Os pesquisadores estavam no Parque Nacional da Serra do Divisor em busca de vetores da doença de Chagas. Montaram armadilhas luminosas para coletar milhares de insetos e, entre o material, surgiu um exemplar que não se encaixava em nenhuma espécie conhecida da região.
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Expedição na Serra do Imeri coleta 12 espécies novas de répteis e anfíbios em 12 dias de campoO biólogo Jader de Oliveira, coautor do estudo, resumiu o sentimento da equipe: “O troféu do taxonomista é quando encontra algo novo. E esse bicho ficou 103 anos esperando por alguém que o reconhecesse.”
O inseto pertence à família Reduviidae, grupo conhecido como percevejos assassinos ou predadores. Caracteriza-se por pernas raptoriais (adaptadas para capturar presas) e asas. Os pesquisadores planejam analisar o DNA do exemplar para entender melhor sua dieta e ainda buscam um macho para completar o estudo de sua biologia.
Por que 103 anos importam
Espécies que ficam mais de um século sem registros novos não são necessariamente extintas. Muitas vezes elas simplesmente vivem em áreas pouco visitadas pela ciência ou têm hábitos que as tornam difíceis de coletar. O reencontro de Bagriella meneguettii na Serra do Divisor mostra que a floresta do extremo oeste do Acre ainda guarda linhagens que a taxonomia clássica havia “esquecido”.
O fato de o único exemplar anterior estar na América Central e o novo ter sido encontrado na Amazônia brasileira também levanta questões biogeográficas interessantes. Como o gênero se distribui? Existem populações intermediárias? O Acre funciona como um corredor ou como um refúgio isolado? Essas perguntas só poderão ser respondidas com mais coletas e análises genéticas.
O contexto da Serra do Divisor
O Parque Nacional da Serra do Divisor é uma das áreas mais remotas e preservadas da Amazônia brasileira. Localizado no extremo oeste do Acre, cobre cerca de 843 mil hectares e faz fronteira com o Peru. A altitude varia de 200 a 650 metros e a vegetação inclui florestas densas e abertas. O isolamento relativo e a baixa densidade de pesquisas científicas fazem da região um alvo prioritário para inventários.
A expedição da Unesp se soma a outras recentes na mesma área, que têm revelado novas espécies de aves, plantas e insetos. A Serra do Divisor tem se consolidado como um dos últimos grandes laboratórios naturais do Brasil.
Números e dados confirmados
- Gênero: Bagriella (família Reduviidae)
- Espécie: Bagriella meneguettii
- Último registro anterior: 1923 (América Central)
- Intervalo: 103 anos
- Local do novo registro: Parque Nacional da Serra do Divisor, Acre
- Tipo de coleta: armadilha luminosa
- Significado: primeiro registro do gênero na América do Sul
- Instituição: Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp (Araraquara)
- Objetivo original da expedição: estudo de vetores da doença de Chagas
Limitações científicas
Até o momento, apenas um exemplar foi coletado. Isso limita as conclusões sobre variação morfológica, distribuição e biologia. Os pesquisadores ainda não encontraram o macho da espécie. Análises de DNA estão em andamento para esclarecer relações filogenéticas e hábitos alimentares. Sem mais indivíduos e sem dados populacionais, qualquer avaliação de status de conservação seria prematura.
O que a descoberta diz sobre a Amazônia
A história do Bagriella meneguettii ilustra de forma concreta um dos maiores desafios da ciência na Amazônia: a taxa de descoberta ainda é alta, mas a capacidade de inventariar o território é limitada. Espécies podem permanecer “esquecidas” por décadas ou séculos simplesmente porque ninguém as coletou no lugar certo, na época certa e com o método certo.
Para o Brasil, o reencontro reforça a importância de manter e ampliar as expedições científicas em áreas de fronteira e de difícil acesso. A Serra do Divisor, o Alto Juruá e outras regiões do oeste acreano continuam entregando novidades. Cada uma delas amplia o mapa do conhecimento e, ao mesmo tempo, aumenta a responsabilidade de proteger os habitats onde essas linhagens ainda sobrevivem.
Conexão com o público brasileiro
O Acre tem se tornado, nos últimos anos, um dos estados com maior densidade de descobertas científicas relevantes na Amazônia. Geoglifos, fósseis de primatas, novas rãs, novas aves e agora um gênero de inseto reencontrado após 103 anos. A sequência não é coincidência: é o resultado de mais pesquisadores no campo, de melhores ferramentas e de parcerias entre universidades paulistas e instituições locais.
A frase de Jader de Oliveira – “esse bicho ficou 103 anos esperando por alguém que o reconhecesse” – resume o espírito da taxonomia contemporânea. A biodiversidade não desaparece só quando a floresta cai. Ela também “desaparece” quando a ciência não olha. O Bagriella meneguettii prova que, quando se olha com atenção, a floresta ainda responde.
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