
Artigo da USP discute consumo, sustentabilidade e a permanência dos livros diante das novas tecnologias de leitura.
Um pedido para que leitores não comprassem mais um livro best-seller abriu uma discussão sobre consumo, sustentabilidade e o futuro da leitura. A escritora Tamara Klink publicou nas redes sociais um apelo relacionado ao livro Bom Dia Inverno, que permanecia entre os mais vendidos do Brasil havia três meses. Em artigo publicado pelo Jornal da USP em 19 de agosto de 2026, a professora Marisa Midori Deaecto, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, analisou a repercussão do caso e defendeu que os livros devem ser compreendidos como objetos de longa duração, capazes de circular entre leitores, bibliotecas, famílias e sebos.
O apelo que provocou o debate
Na mensagem, Tamara Klink afirmou que já havia muitos exemplares de Bom Dia Inverno circulando pelo país. Por isso, sugeriu que os interessados recorressem a bibliotecas ou compartilhassem exemplares com familiares, colegas e outras pessoas. A ideia apresentada pela autora era ampliar o tempo de uso de cada livro e evitar que novas cópias fossem produzidas sem necessidade.
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Mais de 2.000 novas espécies de plantas, insetos, peixes e anfíbios são descobertas na Amazônia entre 2015 e 2025 por 300 cientistas de 15 países“Não comprem mais esse livro”, escreveu Klink. Segundo o relato reproduzido no artigo, a escritora também afirmou que um livro deveria circular pelo máximo de tempo possível para compensar os recursos e a energia utilizados em sua produção.
A declaração chamou atenção porque autores e editoras normalmente comemoram o bom desempenho comercial de uma obra. O caso também colocou em evidência uma tensão presente no mercado editorial: a necessidade de vender novos títulos e, ao mesmo tempo, reduzir desperdícios, emissões e impactos associados à fabricação e à distribuição.
Livros, bibliotecas e memória
Para Marisa Midori Deaecto, a reflexão não pode considerar o livro apenas como um produto destinado a uma única leitura. A professora lembra que bibliotecas têm uma função cumulativa e preservam obras mesmo quando elas não são consultadas imediatamente.
O argumento se aproxima da noção de “memória vegetal”, associada pelo artigo ao semioticista italiano Umberto Eco. Nessa perspectiva, os livros mantidos em estantes também fazem parte da memória cultural e histórica de uma sociedade. Eles podem voltar a ser lidos no futuro, servir a pesquisas, ser herdados ou encontrar novos leitores em diferentes contextos.
Segundo a Universidade de São Paulo, o debate sobre os livros sustentáveis envolve não apenas a matéria-prima, mas também a circulação, a reutilização e a permanência das obras em bibliotecas e acervos, em 19 de agosto de 2026.
Entenda o caso
O debate começou após Tamara Klink recomendar que o público não comprasse novas cópias de Bom Dia Inverno e preferisse compartilhar exemplares já disponíveis. Depois da repercussão negativa, a escritora reconheceu que não havia considerado todos os pontos de vista da cadeia editorial.
“Errei em não ver outros pontos de vista. Precisamos da leitura. Precisamos de editores. Pequenos, grandes e independentes”, afirmou Klink, conforme o artigo. A autora também disse ser leitora antes de ser escritora e agradeceu aos profissionais que fazem a leitura chegar mais longe do que as prateleiras.
Uma tecnologia com milhares de anos
O artigo da USP destaca que os suportes de escrita acompanham a humanidade há mais de cinco mil anos. As tabuletas de argila foram associadas às cidades construídas nas margens dos rios Tigre e Eufrates. No Egito, o papiro, planta abundante no delta do Nilo, contribuiu para o desenvolvimento da escrita.
Mais tarde, o pergaminho acompanhou a expansão dos centros de cópia e das universidades medievais. Na Europa Moderna, o papel produzido a partir de trapos tornou-se uma das bases do sistema editorial que se consolidou após a invenção dos tipos móveis por Johannes Gutenberg. A celulose passou a ocupar papel central na indústria a partir de meados do século 19.
Deaecto argumenta que o livro impresso apresenta características que o diferenciam de outros suportes. Ele não depende de bateria, conexão ou atualização de software para continuar sendo utilizado. Também pode atravessar gerações, ser emprestado, vendido novamente e permanecer em acervos por longos períodos.
Os limites da sustentabilidade editorial
A professora, porém, não trata a produção de papel como isenta de problemas. O artigo menciona preocupações relacionadas à poluição industrial, ao consumo de recursos e à ocupação de grandes áreas por plantações de eucalipto, que poderiam ter outras finalidades, como a produção de alimentos.
Por isso, a sustentabilidade do setor depende de escolhas em toda a cadeia. Entre elas estão o uso de papéis reciclados ou certificados, a redução de desperdícios, o planejamento das tiragens, a diminuição das emissões no transporte e o incentivo à produção local.
O texto cita o SDG Publishers Compact, pacto lançado pela International Publishers Association em parceria com a Organização das Nações Unidas durante a Feira de Frankfurt, em 2023. A iniciativa propõe que empresas e profissionais do livro alinhem suas operações aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030.
Também é mencionado o movimento francês Éditeurs Écolo-Compatibles, formado por editoras independentes que adotam medidas como eco-design, tintas de origem vegetal, papéis reciclados ou certificados e produção local. O exemplo mostra que a busca por menor impacto ambiental pode incluir decisões editoriais, gráficas e logísticas.
O papel da circulação no Brasil
Ao discutir o caso brasileiro, Deaecto afirma que a compra de um livro pode estimular outros hábitos culturais. Um leitor que entra em uma livraria para adquirir determinado título pode conhecer novas obras, apoiar estabelecimentos independentes e ampliar a demanda por livros em cidades que não têm pontos especializados de venda.
O artigo apresenta uma projeção hipotética: se cada brasileiro entre 15 e 70 anos comprasse um exemplar de Bom Dia Inverno, aproximadamente 145 milhões de cópias seriam distribuídas pelo país. O número é usado como exercício de reflexão sobre a escala do consumo, mas não representa uma previsão de vendas nem um dado oficial sobre o mercado editorial.
Depois da primeira compra, os exemplares poderiam ser emprestados, discutidos em clubes de leitura, repassados entre familiares, incorporados a bibliotecas ou vendidos em sebos. Essa trajetória prolongaria a vida útil dos livros e preservaria seu valor simbólico, mesmo quando o preço de revenda diminuísse.
O debate também se relaciona com a realidade amazônica. Em estados como Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins, bibliotecas públicas, escolares e comunitárias podem ampliar o acesso a obras em municípios onde livrarias são menos numerosas. A circulação de exemplares, as feiras literárias e os sebos ajudam a aproximar leitores e reduzir a concentração da oferta nas capitais.
Para a professora, a discussão não opõe livros impressos e leitores preocupados com o meio ambiente. Ela indica a necessidade de equilibrar acesso à leitura, sustentabilidade e valorização de editoras, gráficas, livrarias, bibliotecas, autores e demais profissionais. O próximo passo é fortalecer práticas de produção e circulação que mantenham os livros em uso por mais tempo, sem ignorar os impactos de sua fabricação.
Perguntas frequentes
Por que Tamara Klink pediu que leitores não comprassem seu livro?
A escritora afirmou que já havia muitos exemplares de Bom Dia Inverno circulando e sugeriu que os leitores utilizassem bibliotecas ou compartilhassem cópias existentes.
Livros impressos são sustentáveis?
O artigo da USP afirma que eles podem ter longa duração e circular entre muitos leitores. Ainda assim, a produção de papel, a impressão e o transporte geram impactos que precisam ser reduzidos.
Como aumentar a vida útil de um livro?
Empréstimos, bibliotecas, clubes de leitura, sebos, doações e trocas são formas de manter os exemplares em circulação por mais tempo.
Com informações de Universidade de São Paulo.
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