
Mudança oficializa riscos acumulados pela pesca, pela alteração dos rios e pela perda de áreas de várzea na Amazônia.
O tambaqui, um dos peixes mais conhecidos e consumidos da Amazônia, passou a integrar oficialmente a Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçada de Extinção na categoria vulnerável. A classificação foi publicada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima em 27 de abril de 2026, após avaliações coordenadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio. Para pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia, a decisão não representa uma surpresa, mas o reconhecimento formal de um declínio que vinha sendo observado há anos.
A espécie Colossoma macropomum tem distribuição natural em rios das bacias Amazônica e do Orinoco, alcançando países como Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela. No Brasil, ocorre naturalmente no Acre, em Rondônia, no Amazonas e em drenagens do oeste do Pará. Sua sobrevivência está diretamente ligada às florestas de várzea, áreas que funcionam como locais de alimentação, reprodução e abrigo para diferentes fases da vida do peixe.
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Segundo o professor Bruno Prudente, doutor em zoologia e docente da UFRA, a trajetória até a classificação atual foi gradual. Antes de ser considerado vulnerável, o tambaqui havia sido avaliado como quase ameaçado. A mudança de categoria ocorreu à medida que novos estudos reuniram evidências sobre a pressão da pesca, a redução de populações e a alteração dos ambientes aquáticos.
“A comunidade acadêmica está sempre alertando para a necessidade de estudos sobre a biologia básica das espécies, de preservação das áreas de várzea, de manejo e conservação das populações de muitas espécies amazônicas”, afirmou o pesquisador. Ele ressalta que esses peixes são importantes não apenas para o mercado, mas também para a pesca de subsistência e para o funcionamento dos ecossistemas.
Segundo o ICMBio, o tambaqui foi classificado como vulnerável na lista nacional publicada pelo MMA em 27 de abril de 2026, com critérios baseados em parâmetros da União Internacional para a Conservação da Natureza, a IUCN.
Entenda o caso
A categoria vulnerável não significa que o tambaqui desapareceu dos rios, mas indica que a espécie enfrenta risco elevado de entrar em categorias mais graves se as ameaças continuarem. A avaliação considera fatores como redução populacional, perda de habitat e pressão sobre os indivíduos adultos.
O alerta também ajuda a separar duas realidades que costumam ser confundidas. A presença do tambaqui nas feiras e restaurantes não prova que os estoques naturais estejam preservados. Uma parte relevante da oferta vem da piscicultura, atividade que cria peixes em cativeiro.
Várzea, reprodução e alteração dos rios
O tambaqui produz cerca de um milhão de oócitos por fêmea durante a temporada reprodutiva. Esse número, porém, não garante a recuperação das populações. Os ovos precisam ser fecundados e se desenvolver em condições adequadas, processo que depende do pulso natural dos rios e da integridade das áreas alagáveis.
“A várzea é o berçário de muitas espécies de peixes amazônicos, e para o tambaqui ela é extremamente importante, pois é onde a espécie se alimenta, se reproduz e busca refúgio durante o crescimento”, explicou Bruno Prudente.
O desmatamento da vegetação de várzea e as mudanças na vazão dos rios podem interferir na reprodução e na oferta de alimento. Barramentos, obras, assoreamento, ocupação irregular e outras intervenções alteram a conexão entre o rio e os ambientes que ficam alagados em parte do ano. A dimensão exata do impacto varia entre as regiões e ainda exige estudos locais mais detalhados, uma lacuna especialmente relevante em uma bacia tão extensa.
Por que o defeso, sozinho, não resolve
Na avaliação do professor, o manejo não pode se limitar ao período de defeso, geralmente observado entre outubro e março. A proteção precisa considerar o tamanho mínimo de captura, as diferenças entre localidades, a situação das várzeas e o nível de pressão sobre cada população.
“É preciso investir em estudos de história de vida das espécies, dinâmicas populacionais, estudos que muitas vezes são criticados no meio acadêmico por serem ciência básica e de relevância regional”, disse. Para ele, a falta de financiamento contínuo dificulta a produção de dados capazes de orientar políticas públicas específicas para cada trecho de rio.
O problema tem uma dimensão amazônica, mas não é uniforme. Os riscos enfrentados por uma população no Amazonas não necessariamente são iguais aos de grupos encontrados no Acre, em Rondônia ou no Pará. Sem monitoramento regional, regras gerais podem proteger menos do que o necessário em alguns locais e impor restrições inadequadas em outros.
Piscicultura pode reduzir a pressão, mas precisa ser rastreável
No Pará, o tambaqui lidera a produção aquícola. De acordo com o Boletim Agropecuário Paraense 2025, da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas, a espécie respondeu por 59,4% da produção aquícola estadual em 2024, com 9,9 mil toneladas.
Esse volume mostra a força econômica da criação em cativeiro, mas também expõe uma contradição: aumentar a oferta de peixe cultivado pode ajudar a diminuir a pesca extrativista, desde que a produção seja ambientalmente adequada e que o pescado não seja confundido com exemplares retirados ilegalmente dos rios.
“A aquicultura é uma ferramenta muito importante para a conservação. A partir do momento que você estimula a criação em cativeiro de forma sustentável e o consumidor passa a preferir o animal de cativeiro, você diminui a pressão sobre os estoques pesqueiros na natureza”, afirmou o professor Igor Hamoy, doutor em genética e biologia molecular.
No Laboratório de Genética Aplicada da UFRA, pesquisadores analisam populações selvagens e cultivadas. A tecnologia de rastreabilidade genética permite identificar, com precisão, se um exemplar comercializado veio da natureza ou de um sistema de criação. A ferramenta pode ser especialmente útil durante o defeso, quando a venda de peixe nativo deveria estar restrita.
Hamoy também alerta que a baixa variabilidade genética pode indicar declínio populacional. Em cativeiro, a seleção inadequada de reprodutores pode produzir estoques geneticamente frágeis. Por isso, a expansão da piscicultura precisa incluir controle de origem, diversidade genética, manejo sanitário e prevenção da introdução do tambaqui em ambientes onde ele não ocorre naturalmente.
O que pode mudar a partir de agora
A classificação como vulnerável aumenta a pressão para que órgãos ambientais, governos, pesquisadores, pescadores e produtores adotem medidas coordenadas. Entre as prioridades estão o monitoramento dos estoques naturais, a proteção das florestas de várzea, o aperfeiçoamento das regras de captura e o financiamento de pesquisas de longo prazo.
A própria existência de uma produção aquícola expressiva não elimina a necessidade de conservar os rios. O tambaqui exerce funções ecológicas como dispersor de sementes e participa da ciclagem de nutrientes, conectando a dinâmica dos peixes à regeneração das florestas alagáveis.
O próximo passo é transformar a classificação oficial em planos de manejo baseados em dados regionais, com acompanhamento das populações naturais e fiscalização da origem do pescado.
Perguntas frequentes
O tambaqui está extinto?
Não. A categoria vulnerável indica risco elevado de ameaça, mas não significa extinção. A espécie ainda ocorre em rios amazônicos e também é criada em cativeiro.
Por que a presença do tambaqui no mercado não prova que a espécie está segura?
Porque grande parte da oferta pode vir da piscicultura. O pescado cultivado não representa necessariamente a situação dos estoques naturais.
Como a genética ajuda a proteger o tambaqui?
A análise genética permite avaliar a variabilidade das populações e identificar se um peixe comercializado veio da natureza ou de cativeiro, fortalecendo a fiscalização e a rastreabilidade.
Com informações de Universidade Federal Rural da Amazônia.
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