
Acordo temporário entre Norsk Hydro e Celba testa na prática as novas regras da ANP para terminais privados.
Uma interrupção no fornecimento de gás natural reduziu em 50% a produção da refinaria de alumina Alunorte, em Barcarena, no Pará, mas um acordo temporário entre a Norsk Hydro e a Celba permitiu o acesso da companhia ao terminal de regaseificação de GNL e abriu caminho para a retomada da produção em capacidade total. O episódio, tornado público em agosto de 2026, é o primeiro caso conhecido após a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP, regulamentar o acesso negociado e não discriminatório de terceiros a terminais privados.
O corte de gás transformou uma disputa regulatória em problema industrial
A crise começou quando a Norsk Hydro deixou de receber o volume de gás natural necessário para operar a Alunorte. A unidade, uma das principais refinarias de alumina do mundo, precisou reduzir sua produção pela metade. O corte não ficou restrito a uma negociação comercial entre empresas: atingiu diretamente uma cadeia industrial estratégica para o Pará, com reflexos sobre a produção de alumina, a logística e o consumo de energia no complexo de Barcarena.
🌿 Receba nossas notícias no Google
⭐ Adicionar Revista AmazôniaLeia também
Petrobras encontra hidrocarbonetos em águas do Amapá
Candiota busca R$ 20 milhões para Polo Carboquímico
Modernização da UHE Tucuruí recebe R$ 1,5 bilhão em investimentosPara contornar a interrupção, a empresa buscou uma solução provisória com a Celba, companhia controlada pela New Fortress Energy. O acordo garantiu acesso ao terminal de regaseificação de Barcarena, permitindo que a Norsk Hydro procurasse contratos próprios de GNL no mercado internacional. Com a alternativa de suprimento, a Alunorte iniciou a retomada da produção até voltar à capacidade total.
Segundo a ANP, a resolução publicada em julho de 2026 regulamenta o acesso não discriminatório e negociado a terminais de GNL, unidades de processamento e gasodutos de escoamento no Brasil.
O que muda para o mercado de gás
O ponto central da mudança é que o proprietário de uma infraestrutura privada considerada essencial não pode tratar o acesso de terceiros como uma possibilidade exclusivamente discricionária. A negociação continua existindo, mas passa a ocorrer dentro de regras que procuram impedir a recusa injustificada e ampliar a concorrência entre supridores.
A Lei do Gás já previa que terminais de regaseificação, unidades de processamento e gasodutos de escoamento estão sujeitos ao acesso negociado. A controvérsia estava na forma de implementação dessa obrigação e no grau de intervenção que caberia à agência reguladora sobre ativos construídos e operados por empresas privadas.
Na prática, o caso de Barcarena mostra como a regra pode alterar a relação de forças quando uma indústria depende de uma única fonte de suprimento. A Norsk Hydro conseguiu uma rota alternativa para importar GNL e reduziu a vulnerabilidade provocada pelo corte. Para outros consumidores, o precedente pode representar a possibilidade de contestar preços, buscar fornecedores diferentes e negociar diretamente o uso de uma infraestrutura já instalada.
Entenda o caso
A Alunorte teve a produção reduzida em 50% após uma interrupção no fornecimento de gás natural pela Celba. A Norsk Hydro firmou um acordo temporário para utilizar o terminal de GNL de Barcarena, no Pará, e passou a buscar contratos internacionais de gás.
A operação não significa, por enquanto, que o mercado tenha uma solução permanente para o suprimento da refinaria. O acordo é temporário e a empresa ainda procura uma alternativa de longo prazo. Também não está claro, no material divulgado, qual será o volume contratado, o preço do GNL ou a duração exata da autorização de acesso.
Operadores contestam segurança jurídica
A revisão das regras foi recomendada pelo Tribunal de Contas da União, que identificou lacunas na implementação do programa Gás para Empregar. A medida, porém, foi recebida com cautela por operadores de terminais, que temem interferência regulatória sobre investimentos privados já estruturados.
A Eneva está entre as empresas que manifestaram preocupação com a segurança jurídica, especialmente em terminais integrados a usinas termelétricas. A crítica é que uma obrigação de compartilhamento mal calibrada poderia comprometer o suprimento necessário para a geração de eletricidade em momentos de maior demanda.
Existe, portanto, uma contradição no centro do debate. De um lado, os terminais são ativos privados e dependem de contratos de longo prazo para justificar os investimentos. De outro, a infraestrutura pode ser decisiva para a sobrevivência de consumidores industriais e para a segurança energética do país. O episódio da Alunorte dá dimensão concreta a essa tensão, mas ainda não resolve como os custos, os riscos operacionais e a prioridade de atendimento serão distribuídos.
A diretora da ANP, Symone Araújo, afirmou que a agência não pretende rever a resolução. Em entrevista ao estúdio eixos, ao final de julho, ela declarou que a norma deverá ser complementada por um código de conduta a ser discutido posteriormente. “A poeira vai baixar”, disse a diretora, ao comentar a reação do mercado.
Sete terminais e uma infraestrutura concentrada
O Brasil tem atualmente sete terminais de GNL em operação, com capacidade de movimentação de 126 milhões de metros cúbicos por dia. O número parece expressivo, mas a capacidade não está distribuída de maneira uniforme pelo território nem necessariamente disponível para qualquer consumidor.
A concentração é particularmente relevante na indústria pesada, em refinarias, fábricas de fertilizantes e usinas termelétricas. Na Amazônia, onde grandes projetos industriais enfrentam limitações logísticas e menor diversidade de fornecedores, o acesso a terminais e gasodutos pode definir a continuidade da produção. O caso de Barcarena interessa, assim, não apenas ao Pará, mas também a empreendimentos dos demais estados da região que dependem de energia competitiva para agregar valor localmente.
O acesso de terceiros pode estimular novos contratos internacionais e aumentar a concorrência, mas não garante automaticamente gás mais barato. O resultado dependerá da disponibilidade global de GNL, do custo de transporte, da capacidade de regaseificação, das tarifas e da possibilidade de contratação firme. Sem transparência sobre esses elementos, a abertura corre o risco de existir formalmente sem produzir uma mudança ampla no mercado.
Próximos passos regulatórios
A ANP ainda deverá detalhar o código de conduta e acompanhar como os primeiros acordos serão negociados. A forma como a agência tratar pedidos futuros será decisiva para saber se o caso da Norsk Hydro se tornará precedente de abertura ou uma exceção associada a uma emergência industrial.
Também será necessário observar se os operadores vão recorrer administrativa ou judicialmente, quais critérios serão usados para definir a capacidade disponível e como será preservado o suprimento de termelétricas. Esses pontos devem orientar a aplicação prática da resolução nos próximos meses.
Perguntas frequentes
O que aconteceu com a Alunorte?
A refinaria de alumina da Norsk Hydro, em Barcarena, teve a produção reduzida em 50% após uma interrupção no fornecimento de gás natural. A empresa iniciou a retomada depois de conseguir acesso temporário ao terminal de GNL local.
O acesso ao terminal é definitivo?
Não. O acordo entre a Norsk Hydro e a Celba é temporário, enquanto a companhia busca uma solução de longo prazo para o suprimento de GNL.
As novas regras podem reduzir o preço do gás?
Elas podem ampliar a concorrência e permitir a entrada de novos supridores, mas não garantem redução de preços. O efeito dependerá dos contratos, das tarifas e das condições do mercado internacional de GNL.
Os próximos pedidos de acesso e a regulamentação do código de conduta da ANP deverão mostrar se a mudança produzirá uma abertura efetiva do mercado de gás natural no Brasil.
Com informações de eixos.
Nunca perca uma notícia da AmazôniaControle o que você vê no Google
O Google lançou as Fontes Preferenciais: escolha os veículos que aparecem com prioridade. Adicione a Revista Amazônia e garanta cobertura exclusiva sempre em destaque.
Adicionar Revista Amazônia como Fonte Preferencial1. Pesquise qualquer assunto no Google
2. Toque no ⭐ ao lado de "Principais Notícias"
3. Busque Revista Amazônia e marque a caixa — pronto!














