
O primeiro sinal estava num pequeno lago permanente dentro do campus da Universidade Federal do Pará, em Belém. Entre a água de chuva e a influência das marés do rio Guamá, pesquisadores encontraram uma planta flutuante minúscula, formada por estruturas verdes que mal chegam a um centímetro. Ela parecia apenas mais uma lentilha-d’água. A identificação revelou algo maior: era Landoltia punctata, espécie originária da Índia e jamais registrada dentro do bioma Amazônia.
Na primeira vistoria, a planta apareceu somente naquele lago. Seis meses mais tarde, já ocupava ao menos cinco outras lagoas e um bueiro próximo. A expansão tinha uma possível transportadora circulando à vista de todos. Capivaras do campus foram observadas com dezenas de unidades da planta aderidas ao pelo, carregando pequenos fragmentos vivos ao sair da água.
Uma planta de poucos milímetros encontrou transporte num mamífero de dezenas de quilos
Landoltia punctata vive solta sobre a superfície. Suas frondes medem aproximadamente de 0,2 a 0,9 centímetro e podem permanecer unidas em pequenos grupos. Por não depender do solo, basta um fragmento chegar vivo a outro corpo d’água para iniciar uma nova população se houver luz, temperatura e nutrientes adequados.
Leia também
Lobos quase desapareceram de ilha e alces avançaram sobre a floresta; reintrodução do predador mudou o cenário em apenas 5 anos
19 corujas foram levadas para uma usina solar no deserto; meses depois, 36 filhotes nasceram em tocas abertas entre milhares de painéis
Única orca em cativeiro na América do Sul vive há 33 anos em piscinas de concreto, a poucos passos do oceano que nunca voltou a cruzarO pelo molhado da capivara funciona como veículo involuntário. Quando o animal atravessa uma lagoa coberta pela planta, unidades ficam presas entre os fios. A caminhada até outra poça pode durar apenas alguns minutos, tempo suficiente para evitar a desidratação. Ao entrar novamente na água, a passageira se desprende.
Os pesquisadores trataram essa explicação como possibilidade, não como prova experimental de cada deslocamento. A observação, porém, coincide com a velocidade da expansão no campus. A planta saiu de um único ponto conhecido para seis pequenos ambientes, incluindo um bueiro de 1,5 metro de largura que seca periodicamente e lagoas de até 35 metros, com profundidade superior a dois metros.
A invasora de Belém consegue resistir até a gelo, herbicida e passagem pelo corpo de aves
O tamanho delicado engana. Estudos citados pelos autores mostram que a espécie pode sobreviver entre camadas de gelo, resistir ao herbicida Diquat usado no controle de plantas aquáticas e até suportar a ingestão por patos. A combinação ajuda a explicar por que já foi registrada em todos os continentes, com exceção da Antártida.
Ela também está entre as angiospermas de crescimento mais rápido. Quando se multiplica, forma tapetes que sombreiam a água e reduzem a luz disponível para plantas submersas. Isso pode modificar temperatura, oxigenação e abrigo para pequenos animais. Na Amazônia, as consequências da competição com macrófitas nativas ainda são desconhecidas.
Curiosamente, a mesma capacidade de crescer e absorver substâncias desperta interesse em fitorremediação, processo que usa plantas para retirar nutrientes ou contaminantes da água. Uma espécie pode ser útil dentro de sistema controlado e problemática quando escapa. O risco não está em uma natureza “má”, mas na chegada a um ambiente onde suas vantagens não encontram os controles habituais.
O campus de Belém pode ter virado uma porta para o rio e para a rede de drenagem
A UFPA fica em área urbanizada às margens do Guamá e preserva fragmentos de várzea conectados, em escala de paisagem, a ambientes maiores. Encontrar a planta num bueiro levantou a possibilidade de entrada no sistema de drenagem. A partir daí, chuvas, marés, aves e mamíferos podem ampliar as rotas.
Os autores consideraram pouco provável que a espécie tivesse chegado inicialmente pelo próprio rio ou pelo comércio de aquários. A introdução parece ter sido acidental. Aves aquáticas são uma hipótese para o primeiro transporte, enquanto as capivaras ajudam a explicar o espalhamento local observado depois.
Belém ganhou um alerta que cabe na ponta do dedo
O registro não prova que a planta dominará rios amazônicos. Ele marca o momento em que ainda é possível acompanhar uma invasão no começo. Mapear novas lagoas, remover focos de maneira segura e testar a competição com espécies nativas pode ser mais eficiente do que reagir quando um tapete contínuo já estiver formado.
A cena que resume a história é quase cômica: capivaras atravessam tranquilamente o campus levando pequenos pontos verdes no corpo. Mas cada ponto pode se multiplicar. Uma planta estrangeira encontrou em Belém água quente, ambientes urbanos conectados e um transporte peludo que nunca soube que estava trabalhando para ela.
Belém oferece uma combinação particular para acompanhar o fenômeno. A cidade recebe chuvas abundantes, convive com marés fluviais e possui canais que conectam áreas aparentemente isoladas. Uma planta retirada de uma lagoa pode reaparecer depois de uma chuva forte em outro trecho, mesmo sem ajuda animal. Por isso, separar as rotas exige observações repetidas e, idealmente, experimentos que acompanhem fragmentos marcados.
O monitoramento também precisa distinguir a invasora das lentilhas-d’água nativas. A identificação depende de detalhes como número de raízes, nervuras, formato das frondes e estruturas internas. Uma remoção indiscriminada poderia atingir espécies locais e causar outro desequilíbrio. O alerta científico é justamente mais sofisticado do que simplesmente “limpar o lago”.
Há uma ironia adicional: a capivara é nativa e a planta é estrangeira, mas a parceria não foi escolhida por nenhuma das duas. Invasões biológicas frequentemente aproveitam comportamentos normais da fauna local. O animal continua tomando banho, atravessando gramados e buscando alimento; a novidade é que agora existe uma passageira capaz de transformar cada deslocamento numa oportunidade de colonização.
Ariranha sincroniza caça coletiva com vocalização subaquática e cerca cardumes em rios rasos da Amazônia
Jacaré-anão escolhe 1 ambiente incomum entre jacarés, os igarapés rasos e rápidos, vive sozinho à noite e tem placas ósseas nas 2 pálpebras
Uma lontra acostumada a capturar peixes enfrentou um jacaré de pele rígida e produziu o primeiro registro documentado desse ataque na AmazôniaGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














