Cientistas cruzam fiordes da Groenlândia para medir degelo que pode influenciar o nível do mar e cidades costeiras no mundo

Detalhe em plano fechado das mãos enluvadas de um cientista com frasco de amostragem de água no convés, com gelo de fiorde desfocado ao fundo, mostrando o trabalho de campo que a foto isolada não nomeia como campanha de agosto na costa oeste da Groenlândia.

Um grupo de cerca de 30 cientistas embarcou no quebra-gelo Amundsen para percorrer a costa oeste da Groenlândia e observar de perto como o aquecimento está alterando fiordes, geleiras e ecossistemas que dependem diretamente da presença do gelo.

A campanha realizada em agosto transformou o navio em um laboratório flutuante. Sensores, redes e amostras de água foram usados para medir temperatura, salinidade, turbidez, nutrientes e organismos encontrados em diferentes pontos da costa.

O interesse vai além da Groenlândia. Parte da água proveniente do derretimento das geleiras chega ao oceano e participa do processo de elevação do nível médio global do mar, com consequências potenciais para regiões costeiras em diferentes continentes.

Os cientistas querem entender o que acontece quando o gelo recua

Os fiordes groenlandeses são grandes braços de mar cercados por paredões rochosos e geleiras que chegam do interior da ilha.

Quando uma geleira perde massa e sua frente recua, grandes volumes de água doce podem chegar ao fiorde. Essa entrada modifica a relação entre água doce e salgada e interfere na circulação local.

Também entram no sistema sedimentos arrastados pelo gelo e pelas margens, alterando a transparência da água e a quantidade de luz disponível para organismos microscópicos.

Essas mudanças podem afetar desde o fitoplâncton até peixes, aves e mamíferos marinhos que dependem das cadeias alimentares formadas nesses ambientes.

O navio funciona como laboratório em movimento

Durante a expedição, os pesquisadores realizam paradas em diferentes pontos para construir perfis da coluna d’água.

Instrumentos descem a diferentes profundidades e registram características como temperatura e salinidade, enquanto amostras permitem analisar nutrientes e organismos presentes.

A estratégia ajuda a comparar locais submetidos a condições diferentes. Alguns fiordes permanecem fortemente influenciados pelo gelo, enquanto outros recebem mais água de origem oceânica.

Essas diferenças são importantes porque a Groenlândia não responde ao aquecimento de maneira uniforme. Cada região possui profundidade, relevo submarino e circulação próprios.

Água doce pode reorganizar todo o ambiente

A água resultante do derretimento possui densidade diferente daquela do oceano e pode permanecer concentrada nas camadas superiores.

Essa mudança altera a chamada estratificação, ou seja, a distribuição das diferentes massas de água conforme profundidade, temperatura e salinidade.

Quando a mistura entre as camadas muda, nutrientes disponíveis em regiões profundas podem ter mais ou menos dificuldade para chegar à superfície.

Como o fitoplâncton depende simultaneamente de luz e nutrientes, alterações nessa circulação podem modificar a produtividade de todo o ecossistema.

Nem todo efeito do degelo acontece da mesma forma

Um dos motivos para os pesquisadores coletarem tantos tipos de dados é justamente evitar conclusões simplificadas.

Em determinados pontos, a turbulência provocada pela água de degelo pode transportar nutrientes e favorecer temporariamente a produção biológica.

Em outros, o excesso de sedimentos pode reduzir a passagem de luz e prejudicar organismos que dependem da fotossíntese.

O mesmo processo pode, portanto, provocar consequências diferentes conforme profundidade, temperatura, circulação e distância da frente da geleira.

A costa oeste recebe influência de águas atlânticas

Na região oeste da Groenlândia, correntes de origem atlântica podem levar águas relativamente mais quentes para áreas próximas às geleiras.

Quando essa água entra em contato com partes submersas do gelo, pode contribuir para acelerar o derretimento por baixo.

Por isso, os pesquisadores tentam medir simultaneamente o estado do oceano e a posição das frentes glaciais.

Entender quanto calor chega a essas áreas ajuda a explicar por que algumas geleiras recuam mais rapidamente do que outras.

O degelo também interessa a quem vive muito longe do Ártico

A manta de gelo da Groenlândia armazena uma quantidade enorme de água congelada.

Sua perda completa levaria séculos em qualquer cenário considerado e não é apresentada como previsão para as próximas décadas. Ainda assim, a perda parcial já contribui para a elevação do nível médio dos oceanos.

Essa contribuição ocorre juntamente com outros processos, como o derretimento de geleiras de montanha e a expansão térmica da água quando os oceanos aquecem.

É essa soma que interessa às cidades costeiras, porque mesmo mudanças graduais no nível médio podem alterar o alcance de marés e tempestades.

O nível do mar não sobe exatamente igual em todos os lugares

Falar em elevação global não significa que todas as costas registrarão o mesmo número.

Correntes oceânicas, ventos, movimentos da crosta terrestre e alterações na distribuição de massa do planeta influenciam a resposta regional.

Isso significa que projeções globais precisam ser convertidas em cenários específicos para cada litoral.

Para uma cidade costeira, portanto, não basta saber quanto o nível médio mundial pode subir. É necessário entender como aquela costa responderá.

O Brasil também precisa acompanhar essas projeções

O litoral brasileiro reúne grandes cidades, portos, rodovias, aeroportos, manguezais e bairros construídos muito próximos do nível atual do mar.

Na Baixada Santista, por exemplo, Santos, São Vicente, Guarujá e outros municípios possuem áreas baixas, canais e infraestrutura diretamente exposta a marés e ressacas.

Uma elevação gradual do nível médio pode aumentar a altura de base sobre a qual tempestades e marés extremas atuam.

Isso não significa que o degelo da Groenlândia seja responsável isoladamente por cada alagamento ou ressaca registrado no litoral paulista.

Mar mais alto pode dificultar o escoamento urbano

Em cidades costeiras, o nível do oceano interfere inclusive na capacidade de drenagem.

Quando a maré está elevada, canais e galerias pluviais podem encontrar maior dificuldade para despejar água no mar.

Se uma chuva intensa ocorre ao mesmo tempo, o escoamento pode ficar mais lento e ampliar o tempo de permanência da água nas ruas.

Com o nível médio gradualmente mais alto, essa condição de partida também pode mudar ao longo das décadas.

Manguezais e restingas ajudam a amortecer impactos

Ecossistemas costeiros funcionam como parte da proteção natural contra ondas, erosão e avanço da água.

Manguezais dissipam energia e ocupam regiões de transição entre terra e mar, enquanto restingas e dunas ajudam a estabilizar sedimentos.

O problema aparece quando estradas, prédios e aterros impedem esses ambientes de migrar à medida que a linha d’água avança.

Assim, preservar espaço para esses ecossistemas pode ser parte da adaptação de cidades brasileiras a cenários de elevação do nível do mar.

Portos também precisam planejar décadas à frente

A Baixada Santista abriga uma das estruturas portuárias mais importantes do país.

Cais, terminais, canais e acessos terrestres foram construídos considerando determinadas condições de maré e de nível do oceano.

Obras portuárias têm vida útil longa, o que obriga engenheiros e gestores a considerar projeções de décadas quando planejam ampliações ou novas estruturas.

É nesse tipo de decisão que dados coletados muito longe do Brasil começam a ganhar utilidade prática.

A Groenlândia ajuda a reduzir incertezas dos modelos

Uma das funções de expedições como a realizada pelo Amundsen é fornecer dados reais para melhorar modelos utilizados na projeção do comportamento das geleiras.

Satélites oferecem uma visão ampla, mas medições feitas diretamente nos fiordes ajudam a entender processos que acontecem debaixo d’água.

Temperatura, salinidade, profundidade e circulação determinam quanto calor consegue chegar à frente da geleira.

Quanto melhor esses processos forem representados, menor tende a ser a incerteza sobre a contribuição futura da Groenlândia para o oceano.

Os ecossistemas locais também estão no centro da pesquisa

A expedição não existe apenas para calcular centímetros futuros de elevação do mar.

Comunidades na Groenlândia dependem diretamente da pesca e de ecossistemas que podem mudar à medida que temperatura, gelo e produtividade marinha se reorganizam.

Alterações no fitoplâncton repercutem no zooplâncton, que serve de alimento para peixes e outros animais.

Essa cadeia mostra como uma mudança física na água pode chegar rapidamente à economia e ao cotidiano de quem vive na região.

Uma campanha de verão não responde tudo

Os pesquisadores precisam repetir medições durante anos para separar uma temporada incomum de uma tendência persistente.

Satélites, estações de campo e novos cruzeiros ajudam a construir séries temporais capazes de mostrar quais mudanças estão se consolidando.

Essa cautela é importante porque o Ártico apresenta grande variabilidade natural de um ano para outro.

Uma única expedição produz peças importantes do quebra-cabeça, mas não encerra a discussão sobre o futuro da manta de gelo.

A distância entre Groenlândia e Brasil é grande, mas o oceano conecta os dois

Os sensores usados no quebra-gelo medem mudanças que acontecem a milhares de quilômetros do litoral brasileiro.

Ainda assim, a água adicionada ao oceano integra um sistema global, e projeções construídas a partir desses dados ajudam cidades costeiras a calcular riscos futuros.

Para Santos ou qualquer outro município brasileiro, isso não significa atribuir cada ressaca ao que acontece na Groenlândia.

Significa reconhecer que decisões tomadas hoje sobre drenagem, ocupação costeira, portos e proteção de ecossistemas precisam considerar um oceano cujo nível médio tende a mudar.

É por isso que dezenas de pesquisadores atravessam fiordes gelados a bordo do Amundsen: entender o que acontece na borda do gelo ajuda a calcular quanto tempo diferentes regiões costeiras terão para se adaptar.

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