
Um pedaço de floresta cercado de pasto não morre de uma vez. Ele perde as árvores mais altas, esquenta, resseca e vai esvaziando de espécies, começando pelas bordas e ao longo de décadas. É o que mostra o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), experimento do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) com a Smithsonian Institution, em andamento desde 1979 ao norte de Manaus.
Segundo estudo publicado em 14 de dezembro de 2023 na revista Nature Communications, quatro décadas depois do isolamento as florestas de borda acumulam perda líquida de biomassa de 24,7 megagramas por hectare, o equivalente a 10% da mata intacta. O trabalho é de Matheus Henrique Nunes e colegas, entre eles William Laurance e Eduardo Eiji Maeda.
Como a Amazônia virou laboratório
O PDBFF nasceu da ideia de Thomas Lovejoy, em parceria com Richard Bierregaard e pesquisadores do Inpa. A estratégia foi deixar de pé reservas de 1, 10 e 100 hectares em fazendas de gado que derrubavam mata ao norte de Manaus.
De acordo com o estudo de 2023, os fragmentos foram isolados entre 1980 e 1983, cercados por pasto. Uma faixa de 100 metros de vegetação em regeneração é cortada com regularidade para manter cada reserva separada da floresta contínua.
O que a borda faz com as árvores
A equipe de Nunes usou escaneamento a laser em 315 árvores de quatro reservas, duas de 1 hectare, uma de 10 e uma de 100. Árvores jovens que colonizam clareiras têm 50% mais volume de madeira que as de interior do mesmo tamanho. As grandes sobreviventes, porém, têm 30% menos volume, porque ficam mais baixas.
O saldo é negativo. Dos 24,7 megagramas por hectare perdidos, 18,7 vêm da estrutura da floresta e 6,0 da mudança na forma das árvores. Os pesquisadores lembram que trabalhos anteriores apontavam até 36% de biomassa perdida nos primeiros 10 a 17 anos após a fragmentação.
Vento, seca e fogo
A revisão de 32 anos de pesquisas, publicada em 2011 na revista Biological Conservation por Laurance, Lovejoy e outros autores, explica o mecanismo. Na borda, o ar seco e o vento entram na mata e a morte de árvores sobe. Segundo os autores, os efeitos penetram de 10 a 300 metros no PDBFF.
Depois da seca forte de 1997, ligada ao El Niño, a mortalidade subiu nos fragmentos. Nas secas, as árvores perdem mais folhas, sobretudo até cerca de 60 metros da borda, o que deixa a mata mais exposta ao fogo.
O fogo foi mantido fora do experimento de propósito. Em áreas da Amazônia onde incêndios de borda são comuns, a mesma revisão registra efeitos que chegam a pelo menos 2 a 3 quilômetros floresta adentro.
Os animais que não atravessam
Revisão de 40 anos de estudos com aves, publicada em agosto de 2020 na revista The Condor por Philip Stouffer, conclui que fragmentos isolados perdem espécies de forma permanente, embora a colonização muitas vezes compensasse as extinções. O obstáculo é o espaço aberto: bordas desmatadas de 50 a 100 metros reduziram em até 95% a atividade de algumas guildas de aves do sub-bosque.
A revisão de 2011 aponta como mais vulneráveis as insetívoras que seguem formigas-de-correição e as que dependem de bandos mistos. Entre os primatas, o macaco-aranha-preto, frugívoro que percorre grandes áreas, aparece como o mais sensível. Clareiras de 100 a 200 metros podem barrar o deslocamento de muitos organismos de floresta, de insetos herbívoros a abelhas e besouros.
Entenda
Efeito de borda é o conjunto de mudanças que atinge a floresta junto à área aberta: mais luz, calor e vento, menos umidade e mais morte de árvores grandes. No PDBFF, fragmentos de 1, 10 e 100 hectares foram acompanhados por décadas para medir isso.
O que isso diz sobre estradas e fazendas
O PDBFF isolou mata com pasto, não com rodovias, mas a lição vale para qualquer corte na floresta. A revisão de 2011 lembra que pecuária e agricultura de pequena escala geram fragmentos de menos de 400 hectares, muito vulneráveis a borda e a incêndios. O estudo de 2023 cita a estimativa de que as bordas de fragmentos cubram 176.555 quilômetros quadrados de floresta amazônica.
É nesse contexto que entra a BR-319, de 885 quilômetros entre Manaus e Porto Velho, segundo a Mongabay Brasil, em reportagem de 18 de julho de 2025.
Em artigo de 9 de abril de 2026, o pesquisador do Inpa Philip Fearnside afirma que a licitação do trecho do meio, entre os quilômetros 250 e 655,7, foi aberta em 31 de março de 2026 sem licença do Ibama, com base na Lei 15.190/2025. Para ele, a obra permitirá que o desmate migre do Arco do Desmatamento, no sul da Amazônia Legal, para áreas que a dificuldade de acesso ainda protege. É uma avaliação do pesquisador, não um dado medido.
O que funciona para reduzir o dano
As melhores notícias vêm do entorno. Segundo a revisão de 2011, fazendas abandonadas do PDBFF se regeneraram. Onde não houve queima, a embaúba (Cecropia) formou capoeiras com mais de 20 metros de altura e muitas espécies. Onde houve, a vegetação dominada por Vismia é pobre e muda devagar. Parte dos efeitos de borda diminuiu com a recuperação parcial da floresta ao redor.
Segundo Stouffer, as aves recolonizam capoeiras de embaúba com mais de 5 anos e evitam o mato queimado de Vismia, diferença que se apaga quando a regeneração passa de 25 anos. A revisão de 2011 recomenda reconectar fragmentos com restauração florestal e proteger os remanescentes.
Estudo de 23 de janeiro de 2026 na revista Biotropica, de Ricardo Ruaro, Lucas Colares, Heraldo Vasconcelos e Fabricio Baccaro, com dados históricos de formigas em nove fragmentos do PDBFF, mostra que a quantidade de floresta na paisagem influencia a diversidade, sobretudo das espécies especialistas de mata.
O que vem a seguir
Em 23 de setembro de 2026, em Nova York, o cientista climático Carlos Nobre recebeu o Prêmio Thomas E. Lovejoy de Liderança em Ciência e Conservação da Amazônia, segundo comunicado da Wildlife Conservation Society de 24 de setembro. Nobre afirma que a Amazônia está perto de um limite que pode degradar mais de 70% da floresta em 30 a 50 anos.
O ponto a acompanhar é o licenciamento ambiental da BR-319, porque é na forma como estradas e fazendas recortam a mata que a lição de 47 anos de experimento se confirma ou se evita.
Com informações de Nature Communications, Biological Conservation, The Condor, Biotropica, Wildlife Conservation Society, Mongabay Brasil e Philip Fearnside.
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