Planeta GJ 3090 b orbita estrela ao contrário, pesa 4,5 Terras e pode ter nascido de um disco raro

Planeta GJ 3090 b orbita estrela ao contrário, pesa 4,5 Terras e pode ter nascido de um disco raro
Foto: Robert Lea (created with Canva))

Observações no infravermelho revelaram uma órbita retrógrada que não é explicada pela presença de outro corpo gigante.

Imagine encontrar um planeta que não apenas percorre um caminho inclinado ao redor de sua estrela, mas também se move no sentido oposto ao da rotação estelar. É esse o comportamento do GJ 3090 b, um exoplaneta localizado a cerca de 73 anos-luz da Terra e observado com o instrumento NIRPS, no Observatório de La Silla, no Chile. O estudo foi divulgado em 21 de setembro de 2026 pela equipe da Universidade de Genebra, na revista Astronomy & Astrophysics.

O objeto havia sido descoberto em 2022, mas sua geometria orbital só agora foi medida com precisão suficiente. O resultado coloca o GJ 3090 b entre os casos mais incomuns conhecidos: sua órbita apresenta um ângulo de 136 graus em relação ao plano equatorial da estrela. Quando esse valor ultrapassa 90 graus, o planeta passa a orbitar de forma retrógrada, como se estivesse viajando contra o movimento de rotação de sua estrela.

Uma exceção ao padrão de formação planetária

Planetas nascem a partir de discos de gás e poeira que rodeiam estrelas jovens. Esse material costuma girar na mesma direção da estrela e tende a formar corpos que permanecem aproximadamente alinhados com o plano de rotação estelar. Por isso, a expectativa mais comum é que os planetas de um mesmo sistema compartilhem uma orientação parecida.

A diferença entre essas duas orientações é chamada pelos astrônomos de Psi. No Sistema Solar, a Terra tem um Psi de aproximadamente 7 graus, valor que indica uma pequena diferença entre seu plano orbital e o equador do Sol. O caso do GJ 3090 b, com 136 graus, está muito distante desse padrão.

Segundo a Universidade de Genebra, o exoplaneta GJ 3090 b apresentou uma inclinação orbital de 136 graus em relação à rotação de sua estrela durante as observações realizadas com o NIRPS em La Silla, no Chile.

Como os pesquisadores mediram a inclinação

O NIRPS é um instrumento que trabalha no infravermelho e foi decisivo para obter a precisão necessária. Em linguagem simples, os pesquisadores analisaram sinais produzidos pelo movimento do planeta e características da luz da estrela para comparar o plano da órbita com o eixo de rotação estelar.

Essa tarefa é especialmente difícil quando o planeta é pequeno e está muito distante. O GJ 3090 b tem raio equivalente a 2,2 vezes o da Terra e massa 4,5 vezes maior que a do nosso planeta. Ele é classificado como um sub-Netuno, categoria que reúne mundos maiores que a Terra e menores que Netuno, um dos tipos mais comuns de planetas identificados na Via Láctea.

A combinação entre tamanho relativamente modesto e a grande distância exigiu medições muito precisas. Léna Parc, da Universidade de Genebra, afirmou que o desempenho do NIRPS no infravermelho tornou possível medir o ângulo entre a órbita do planeta e o equador de sua estrela.

Planeta GJ 3090 b orbita estrela ao contrário, pesa 4,5 Terras e pode ter nascido de um disco raro
Foto: Robert Lea (created with Canva))

O companheiro gigante que não apareceu

Uma explicação conhecida para órbitas tão inclinadas envolve a ação gravitacional de um corpo muito massivo. Uma estrela companheira, uma anã marrom ou um planeta gigante poderia perturbar a trajetória de outro planeta ao longo do tempo, empurrando sua órbita para uma configuração extrema.

Esse não parece ser o caso do GJ 3090 b. As observações não apontaram a presença de um companheiro massivo capaz de explicar sozinho a inclinação. O sistema, até onde os dados analisados indicam, parece ser formado por uma única estrela com o sub-Netuno identificado ao seu redor.

O sistema GJ 3090 está entre apenas cinco já observados com Psi superior a 70 graus. Nos demais casos conhecidos, há um objeto de grande massa que oferece uma explicação plausível para a desorganização orbital. A ausência desse elemento torna o novo resultado mais difícil de interpretar, mas não significa que as leis da formação planetária tenham sido abandonadas.

Uma hipótese sobre o nascimento do planeta

Vincent Bourrier, também da Universidade de Genebra, levantou uma possibilidade para explicar o movimento retrógrado. A estrela pode ter incorporado um segundo disco de material, desalinhado e com rotação invertida. Os planetas teriam se formado nesse disco secundário, herdando sua orientação diferente.

Essa proposta ainda é uma hipótese, não uma conclusão comprovada. Ela precisa ser confrontada com novas observações e com modelos capazes de explicar como um disco desse tipo surgiria, sobreviveria e daria origem a um planeta. Também será necessário investigar se há outros corpos menores no sistema que ainda não foram detectados.

O caso mostra por que a medição de Psi é importante. Conhecer apenas a massa, o tamanho e a distância de um exoplaneta não basta para reconstruir sua história. A orientação orbital funciona como uma espécie de registro das perturbações ocorridas durante a formação do sistema e pode indicar se o nascimento foi relativamente tranquilo ou marcado por interações complexas.

O que a descoberta representa para a Amazônia

Não há efeito direto do GJ 3090 b sobre a Terra, o clima ou o céu da Amazônia. O planeta está tão distante que sua descoberta pertence ao campo da astronomia observacional e não altera as condições de observação em Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins ou Maranhão.

A conexão regional está no tipo de conhecimento produzido. Medições desse gênero ajudam a explicar como sistemas planetários se organizam em diferentes ambientes da galáxia, ampliando o repertório usado por pesquisadores e estudantes que acompanham astronomia no Brasil. Para quem observa o céu amazônico, a principal contribuição é científica e educacional: compreender que sistemas planetários podem seguir arquiteturas muito diferentes da nossa.

Os autores agora devem explorar hipóteses alternativas e procurar sinais de outros corpos no sistema GJ 3090. Novas medições serão necessárias para decidir se o disco retrógrado é uma explicação consistente ou apenas uma entre várias possibilidades.

Com informações de Universidade de Genebra.

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