
No Brasil a transição energética, tema central da COP30, deixou claro que substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis é um desafio que vai muito além de metas climáticas. Em um mundo onde ainda prevalece a dependência econômica do petróleo, a mudança exige acordos multilaterais robustos, capacidade de financiamento, estabilidade técnica e coragem política para enfrentar seus custos sociais e econômicos. Foi esse o tom da conferência promovida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que reuniu especialistas para traçar caminhos possíveis para o Brasil após o encontro global do clima.
Thelma Krug, presidente do Conselho Científico da COP30, lembrou que muitos países petroleiros reivindicaram sua inclusão no mecanismo internacional de perdas e danos, temendo rupturas econômicas profundas se forem obrigados a acelerar a descarbonização sem apoio financeiro. Seu argumento ecoa uma tensão histórica: quem paga a conta da transição? Segundo ela, o mérito do encontro realizado no Pará foi reafirmar a importância do multilateralismo em um cenário internacional fragmentado. Para Krug, a retomada da confiança no sistema da ONU sinaliza que ainda existe disposição coletiva para enfrentar a crise climática.
Outros especialistas reforçaram o ponto. Luiz Aragão, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), destacou que, apesar da ausência de consenso para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, a COP30 trouxe avanços relevantes, como o lançamento do Balanço Global de Carbono 2025. O documento mostra que as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis seguem em trajetória ascendente, mesmo após décadas de alertas científicos. Há, segundo o balanço, um limite de apenas 170 bilhões de toneladas de CO₂ para evitar que o aquecimento global ultrapasse 1,5 °C — um patamar que o planeta pode alcançar em apenas quatro anos, caso as emissões permaneçam no ritmo atual.
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ANP Integra Pacto Nacional para Harmonizar Mercado de Gás no BrasilMarcio Astrini, diretor do Observatório do Clima, sintetizou o sentimento de frustração que marcou o lado científico da COP30. Para ele, nunca houve tanto esforço coordenado entre pesquisadores para oferecer diagnósticos claros aos governos. Relatórios, dados e análises foram colocados sobre a mesa durante semanas. Ainda assim, o ritmo de ação política segue muito atrás da velocidade que a crise climática exige.

SAIBA MAIS: Brasil à beira de se tornar potência em energia limpa
A assessora técnica do Instituto de Pesquisas Ambientais, ligado à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo (Semil), reforçou que as negociações internacionais sequer existiriam sem a base científica acumulada. A Convenção do Clima, lembrou ela, nasce justamente de décadas de pesquisa que demonstraram o aquecimento global e suas causas.
Mas se o debate global avança lentamente, algumas soluções precisam começar em casa. E, na avaliação do professor Gilberto Jannuzzi, da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp, o Estado de São Paulo deve liderar a transição energética brasileira. Mesmo abrigando a matriz energética mais limpa do país, com 60% de fontes renováveis, São Paulo também concentra as maiores emissões nacionais nos setores de energia, transporte e resíduos.
Para Jannuzzi, o Plano de Ação Climática do Estado, o PAC 2050, oferece uma base sólida ao estabelecer a meta de neutralidade climática até 2050, além de diretrizes para adaptação e resiliência. Mas o pesquisador aponta que esses diferentes planos ainda funcionam de forma isolada. A integração entre logística, transporte, energia e uso do solo é essencial para criar coerência entre metas, prazos e investimentos.
Segundo o PAC 2050, o setor de transportes é hoje o principal emissor paulista, responsável por quase um terço do total. Já as atividades rurais, que representam a maior parcela das emissões no Brasil, têm participação significativamente menor em São Paulo. Isso, para Jannuzzi, abre uma possibilidade estratégica: com fontes de emissão mais concentradas, é possível desenhar ações homogêneas e de impacto rápido, tanto na eletricidade quanto na adoção de combustíveis avançados e hidrogênio verde.
O grande obstáculo, porém, é o financiamento. As estimativas do PAC indicam que o Estado consegue cobrir menos de 30% dos recursos necessários para atingir a neutralidade. O restante dependerá de mecanismos privados e de articulações internacionais. Entre as alternativas mencionadas estão o uso de royalties do petróleo e gás e dos recursos da cláusula de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), que obriga petrolíferas a reinvestirem parte de sua receita em tecnologias estratégicas. Para Jannuzzi, o ecossistema de inovação paulista, apoiado pela FAPESP, já oferece terreno fértil para transformar pesquisas em soluções práticas — desde que haja estímulos econômicos e regulatórios.
A transição energética é complexa, multidimensional e politicamente sensível. Mas, como concluíram os participantes, ela não é opcional. É a única alternativa para evitar que a janela de oportunidade climática se feche definitivamente.
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