
Pesquisadoras alertam que a perda de floresta já altera chuvas e temperaturas em áreas da Amazônia e pode comprometer o abastecimento sul-americano.
Quando uma árvore amazônica libera água para o ar, o efeito não termina sob sua copa. Parte dessa umidade segue pelos ventos e ajuda a formar chuvas em outras áreas da América do Sul. É esse mecanismo que pesquisadoras reunidas na última edição do TEDxAmazonia, no Equador, descrevem como a “máquina de chuva” da Amazônia, agora pressionada por desmatamento, queimadas e secas mais intensas.
O alerta foi apresentado em 12 de setembro de 2026 e não significa que o sistema tenha entrado em colapso. A preocupação das cientistas é que a perda contínua de floresta reduza sua capacidade de reciclar água, eleve as temperaturas e torne as estações secas mais longas em áreas já modificadas. O resultado pode alcançar atividades que dependem da regularidade das chuvas, como agricultura, pecuária, indústria, geração de energia e abastecimento urbano.
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A dinâmica começa longe da mata. A umidade vinda do oceano produz chuva sobre a floresta. As árvores absorvem parte dessa água pelas raízes e, por meio da transpiração, devolvem vapor à atmosfera. Os ventos transportam essa umidade para outras partes do continente, onde ela pode participar da formação de novas chuvas.
Julia Valentim Tavares explicou que uma árvore adulta da Amazônia pode liberar entre 200 e 300 litros de água por dia para a atmosfera. Em escala continental, esse processo envolve cerca de 400 bilhões de árvores. A combinação entre a vegetação, o solo, a circulação dos ventos e os cursos d’água forma os chamados “rios voadores”.
Segundo Julia, a importância do sistema está justamente na repetição do processo. A floresta não apenas recebe chuva, mas também ajuda a redistribuir a água. Quando a cobertura vegetal é retirada, diminui o número de árvores capazes de realizar essa transferência de umidade e aumenta a exposição do solo ao calor.
O sinal aparece no arco do desmatamento
É na borda sul da Amazônia, conhecida como arco do desmatamento, que Julia acompanha parte dos efeitos. De acordo com a pesquisadora, o volume de chuvas diminuiu e a temperatura aumentou nessa área ao longo da última década. O estudo também tenta identificar por quanto tempo as árvores conseguem suportar a falta de água antes de sofrer danos internos no sistema que transporta água pelo tronco.
Essa questão ajuda a explicar por que a floresta pode não responder de forma imediata a cada período seco. Uma árvore ainda pode permanecer em pé mesmo depois de sofrer estresse hídrico. O problema é que a repetição de secas, calor e fogo pode comprometer seus tecidos, reduzir o crescimento e elevar a mortalidade. A floresta perde capacidade de recuperação justamente quando a demanda por água aumenta.
O que os dados mostram sobre a seca recente
Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, relacionou a degradação da floresta a alterações no ciclo da água, dos nutrientes e do carbono. Para ela, mineração, narcotráfico, desmatamento e queimadas afetam a conectividade amazônica, isto é, a continuidade necessária para que os diferentes ambientes do bioma funcionem em conjunto.
Segundo Marielos Peñaclaros, 88% da bacia amazônica sentiram os efeitos da seca de 2024, associada ao El Niño. O evento alterou a dinâmica das chuvas e teve reflexos no abastecimento de água e energia em cidades como Bogotá e Quito. A dimensão do impacto mostra que a floresta não é apenas um patrimônio natural localizado no Brasil: ela participa de uma rede hídrica que atravessa fronteiras.
As pesquisadoras também afirmaram haver evidências de redução das chuvas em regiões do Brasil e da Bolívia associada ao desmatamento na Amazônia brasileira. Nas áreas desmatadas, foram observados aumento de temperatura e períodos secos mais intensos e prolongados.
Por que o problema chega à vida urbana
A redução da chuva não afeta somente comunidades próximas às áreas de derrubada. Menos água disponível pode diminuir a vazão de rios, pressionar reservatórios e dificultar o planejamento de safras. Em sistemas elétricos que dependem de hidrelétricas, períodos secos mais longos também podem reduzir a geração e aumentar a necessidade de fontes alternativas.
Na Amazônia brasileira, esse risco interessa diretamente aos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A intensidade do impacto não é igual em todos eles, porque depende do grau de desmatamento, do regime local de chuvas e da infraestrutura de abastecimento. Ainda assim, a conexão entre floresta e circulação de umidade torna o tema regional, e não restrito a uma única área de fronteira agrícola.
Para quem vive em cidades amazônicas, a discussão aparece em problemas concretos: rios mais baixos, dificuldade de navegação, interrupções no fornecimento de água e maior pressão sobre a energia durante estiagens. Para produtores rurais, a irregularidade das chuvas altera o calendário de plantio e aumenta a exposição a perdas. O funcionamento dos “rios voadores” não garante chuva em um ponto específico, mas sua degradação reduz uma das bases que sustentam o regime hídrico regional.
Restaurar a floresta não resolve tudo de imediato
Na avaliação das cientistas, duas frentes são centrais: reduzir as emissões de gases de efeito estufa e restaurar áreas degradadas. A primeira busca limitar o aquecimento que intensifica secas e ondas de calor. A segunda tenta recuperar a cobertura vegetal e a conectividade necessária para que a água volte a circular entre solo, árvores e atmosfera.
Há, porém, limites importantes. Uma área restaurada não reproduz instantaneamente a estrutura de uma floresta madura, e o retorno da vegetação não elimina de imediato os efeitos acumulados de incêndios, compactação do solo e fragmentação. O monitoramento conduzido no arco do desmatamento procura justamente entender os pontos de resistência e os sinais de dano que antecedem perdas mais graves.
O próximo passo indicado pelas pesquisadoras é ampliar o acompanhamento das árvores, das chuvas e das temperaturas para identificar onde a floresta ainda consegue se recuperar e onde a degradação já alterou o funcionamento do sistema hídrico.
Com informações do Painel Científico pela Amazônia.
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