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Sangue-de-drago amazônico vira remédio nos EUA, mas estudo da Fiocruz alerta para risco em extratos

Sangue-de-drago amazônico vira remédio nos EUA, mas estudo da Fiocruz alerta para risco em extratos
Foto: Agência X

Resina usada tradicionalmente em feridas deu origem a medicamento aprovado, mas produtos comerciais exigem cautela.

Uma seiva vermelha que costuma ser aplicada sobre cortes na floresta amazônica atravessou a fronteira entre o conhecimento tradicional e a indústria farmacêutica. Extraído de árvores do gênero Croton, o sangue-de-drago deu origem ao crofelemer, medicamento aprovado nos Estados Unidos para tratar diarreia crônica em pessoas com HIV/Aids, mas a história tem um alerta importante: um extrato comercial analisado em laboratório pela Fiocruz apresentou efeitos tóxicos nas células.

O contraste ajuda a explicar por que uma planta pode ter potencial medicinal e, ao mesmo tempo, não ser segura para uso livre. A origem vegetal não garante que todos os produtos feitos com a mesma resina tenham composição, concentração ou efeito semelhantes.

Da seiva usada na floresta ao medicamento regulado

Sangue-de-drago é o nome popular dado ao látex avermelhado que escorre do tronco de espécies do gênero Croton. Entre elas está a Croton lechleri, encontrada em áreas da Amazônia. Quando a casca é lesionada, a planta libera uma substância de cor intensa, tradicionalmente empregada por populações indígenas e ribeirinhas.

Na prática, a resina é aplicada diretamente sobre cortes, picadas de inseto e outras feridas na pele. Também é associada a efeitos cicatrizantes e anti-inflamatórios. Esse uso acumulado ao longo de gerações chamou a atenção de pesquisadores interessados em identificar quais componentes poderiam explicar os efeitos observados na medicina tradicional.

O resultado mais conhecido dessa investigação apareceu fora do Brasil. O crofelemer, produzido a partir do látex de Croton lechleri, recebeu aprovação da agência sanitária dos Estados Unidos, a FDA, para o tratamento da diarreia crônica em pacientes com HIV/Aids que fazem terapia antirretroviral.

Segundo a FDA, o crofelemer é um medicamento derivado do látex de Croton lechleri aprovado nos Estados Unidos para tratar diarreia crônica associada ao tratamento de pacientes adultos com HIV/Aids. A aprovação regulatória, porém, vale para esse produto e essa indicação, não para qualquer garrafa ou frasco vendido como sangue-de-drago.

Por que o mesmo nome não significa o mesmo produto

A diferença está no caminho entre a árvore e o medicamento. Um fármaco aprovado passa por etapas de desenvolvimento, definição de dose, controle de qualidade e avaliação de segurança. Já os extratos comerciais podem variar conforme a espécie utilizada, o local de coleta, o modo de processamento e a quantidade de substâncias concentradas.

Foi justamente essa fronteira que um estudo publicado na Revista Fitos, ligada à Fiocruz, colocou em evidência. Os pesquisadores testaram em laboratório um extrato comercial de sangue-de-drago e observaram efeitos citotóxicos e genotóxicos nas células analisadas.

Citotoxicidade indica dano ou interferência na sobrevivência das células. Já a genotoxicidade está relacionada a alterações no material genético. Esses resultados não significam, por si só, que toda utilização tradicional da resina provoque doença ou que o extrato cause o mesmo efeito em seres humanos. Eles indicam, entretanto, que há um sinal de segurança que não deve ser ignorado.

O alerta para quem compra a resina sem orientação

O principal risco está em transformar uma experiência tradicional localizada em uma recomendação geral de automedicação. A resina aplicada por uma comunidade em uma situação específica não é necessariamente equivalente a um produto concentrado, ingerido ou preparado sem controle.

Também não se deve confundir o uso popular em feridas com um tratamento médico comprovado para qualquer tipo de lesão. Feridas profundas, persistentes, infectadas ou associadas a doenças crônicas precisam de avaliação profissional. Aplicar uma substância sem conhecer sua composição pode atrasar o diagnóstico e dificultar o cuidado adequado.

No caso de produtos comerciais, a cautela deve ser ainda maior. O estudo da Fiocruz não avaliou todos os exemplares existentes no mercado, mas mostrou que pelo menos um extrato analisado apresentou efeitos que justificam prudência. A pesquisa também não autoriza concluir que o sangue-de-drago seja inútil, nem que o crofelemer possa ser substituído pela resina vendida de forma informal.

A pesquisa brasileira ainda está em outra etapa

No Brasil, o interesse científico pela planta segue caminhos diferentes. O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia estuda o cultivo de espécies do gênero Croton em diferentes tipos de solo na Amazônia Central. A iniciativa pode ajudar a compreender como as condições de cultivo influenciam o desenvolvimento da planta e a obtenção da matéria-prima.

Outro projeto, apoiado pelo Programa Prioritário de Bioeconomia e desenvolvido em parceria com um instituto federal do Acre, trabalha na criação de um creme dermocosmético à base da seiva. A proposta é auxiliar na cicatrização de feridas e melhorar o aspecto de queloides.

Esse creme, contudo, ainda integra uma frente de pesquisa sem resultados publicados no material disponível. Portanto, não deve ser apresentado como tratamento comprovado nem ser confundido com o medicamento aprovado nos Estados Unidos.

O que isso significa para a Amazônia

A discussão é especialmente próxima de quem vive nos estados amazônicos, onde plantas medicinais fazem parte da rotina de comunidades e mercados locais. Amazonas, Acre, Pará, Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins e Maranhão reúnem diferentes realidades de acesso à saúde e de transmissão de conhecimentos sobre a floresta, mas a tradição não elimina a necessidade de controle sanitário.

O caso também expõe um desafio da bioeconomia amazônica: transformar biodiversidade e conhecimento tradicional em produtos seguros, rastreáveis e economicamente justos, sem reduzir a floresta a uma fonte de matéria-prima. Para isso, são necessários estudos sobre toxicidade, padronização, cultivo, fabricação e uso clínico.

A lição mais direta é simples: o sangue-de-drago tem uma história tradicional relevante e já originou um medicamento regulado, mas essas duas informações não autorizam o uso indiscriminado de qualquer extrato. Até que novas pesquisas esclareçam a segurança e a eficácia de cada preparação, produtos concentrados devem ser usados somente com orientação de um profissional de saúde.

Os próximos passos dependem da publicação dos resultados das pesquisas brasileiras e do avanço dos estudos sobre cultivo e formulações dermocosméticas, que poderão indicar se a seiva terá novas aplicações seguras.

Com informações de Fiocruz.

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