
Estudo da Universidade de Bonn publicado na PNAS estima, pela primeira vez, a rentabilidade de robôs, drones e IA no campo em escala global.
Drones que identificam pragas e repassam os dados ao maquinário, robôs que arrancam o mato antes de ele virar problema e sistemas de irrigação que molham apenas a raiz. Essa lavoura de alta tecnologia já compensa financeiramente em 42% das terras cultivadas do planeta, segundo um estudo liderado pela Universidade de Bonn, na Alemanha, e publicado na revista científica PNAS.
Os autores afirmam que é a primeira estimativa mundial da rentabilidade da chamada agricultura inteligente. O trabalho teve a participação da ETH Zurique e da Universidade da Califórnia em Berkeley.
Como os pesquisadores montaram o mapa
Não existe banco de dados sistemático sobre onde essas tecnologias são usadas. Por isso, a equipe escreveu a mais de 8 mil especialistas em todo o mundo, perguntando se conheciam locais em suas regiões onde elas já funcionavam de forma lucrativa.
Os pesquisadores também vasculharam a literatura científica atrás de propriedades que já aplicavam agricultura de precisão. O resultado foi uma lista com mais de 4 mil locais com irrigação inteligente, robôs de capina ou análises feitas por drones.
Com algoritmos de aprendizado de máquina, a equipe investigou quais condições favorecem a adoção. Depois, projetou o cenário futuro de cada região, incluindo previsões de desenvolvimento econômico.

Cinco tecnologias analisadas
O estudo separou os resultados por categoria:
- sistemas autônomos de irrigação;
- robôs de capina;
- drones e outras abordagens que mapeiam a lavoura e indicam onde agir;
- máquinas que decidem sozinhas a dose de adubo ou defensivo;
- direção por GPS, que mantém as máquinas em trilhas precisas e evita sobreposições.
Onde compensa e onde ainda não
O benefício econômico é maior onde renda e escolaridade são altas, as áreas são grandes e as regras ambientais são rígidas, como Europa Ocidental, Canadá, Estados Unidos e Austrália. Nessas regiões, aplica-se muito fertilizante e pesticida, então há economia em usar o insumo só onde é preciso, explica Shahrear Roman, doutorando do grupo de pesquisa.
A mão de obra mais cara também pesa a favor das máquinas e dos robôs.
Já na África Subsaariana o potencial é hoje limitado. “This is partly because the available technologies are poorly suited to small-scale agriculture”, afirma o professor David Wuepper, da Universidade de Bonn. Segundo ele, os equipamentos são desenvolvidos com foco em grandes operações intensivas em capital da América do Norte e da Europa.
O papel da regulação ambiental
O fator mais importante nos modelos foi a governança ambiental. “We found that smart farming already pays off where environmental governance is strongest. It is by far the most important predictor in our models”, diz Roman.

Nas projeções, a fatia de terras em que a tecnologia compensa pode subir para 50% em 20 anos. Se todos os países endurecessem suas regras ambientais, chegaria a até 75%. Se todos as afrouxassem, cairia para 31%.
O estudo também cruzou onde a tecnologia é lucrativa com onde os problemas ambientais são mais graves. A irrigação inteligente, por exemplo, costuma ser rentável justamente em regiões que enfrentam escassez crescente de água.
“Ecological and economic benefits often go hand in hand. But they do not arrive on their own: without policy, most of the environmental gain stays on the table”, conclui Wuepper.
O que isso significa para a Amazônia
O estudo não detalha resultados por país ou por estado, então não é possível dizer, a partir dele, quanto da agricultura amazônica já seria lucrativa com essas tecnologias. A lógica apontada pelos autores, porém, interessa à região: os ganhos tendem a aparecer onde há áreas grandes, insumos caros e regras ambientais firmes, enquanto a pequena produção fica para trás se os equipamentos não forem adaptados a ela.
Isso toca de perto a realidade de agricultores familiares, ribeirinhos e produtores de pequena escala que predominam em boa parte dos estados amazônicos. Para os pesquisadores, a pesquisa e o desenvolvimento agrícolas precisam intensificar a busca por soluções viáveis para propriedades pequenas.
Os próximos passos
O trabalho, intitulado “Modelling the Global Potential of Smart Farming Innovations”, foi financiado pela Fundação Alemã de Pesquisa (DFG), no âmbito do Cluster de Excelência PhenoRob, e pelo Conselho Europeu de Pesquisa. As projeções dependem de hipóteses sobre regulação e crescimento econômico, e o artigo completo está disponível na página da PNAS, com DOI 10.1073/pnas.2530081123, para quem quiser acompanhar o método em detalhe.
Com informações de Universidade de Bonn.
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