Lua perdeu cerca de 45 metros de raio em até 800 milhões de anos, e mais de 10 mil falhas jovens revelam o ritmo do encolhimento

Lua perdeu cerca de 45 metros de raio em até 800 milhões de anos, e mais de 10 mil falhas jovens revelam o ritmo do encolhimento
Foto: LiorVisuals/Shutterstock)

Estudo na The Planetary Science Journal mapeou falhas na superfície lunar e estimou que o satélite encolhe menos do que se previa, com efeitos para futuras bases.

Quem olha a Lua numa noite limpa de Manaus, Belém ou Rio Branco não percebe, mas o satélite está ficando menor. Um novo estudo publicado na The Planetary Science Journal estimou que o raio lunar diminuiu cerca de 148 pés, algo próximo de 45 metros, ao longo dos últimos 400 milhões a 800 milhões de anos. A conclusão vem do mapeamento de mais de 10 mil falhas geológicas jovens, feito com imagens da câmera da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter (LROC), da NASA.

Por que a Lua encolhe

A Lua nasceu quente. Segundo a NASA, há cerca de 4,5 bilhões de anos uma Terra ainda jovem colidiu com outro protoplaneta, chamado Theia. A colisão lançou ao espaço detritos fundidos e vaporizados da Terra, que se juntaram e formaram a Lua.

Nos primeiros tempos, uma camada de magma cobria a superfície. Segundo o Lunar and Planetary Institute, metais pesados como o ferro afundaram e formaram o núcleo, enquanto minerais mais leves subiram para compor o manto e a crosta.

Bilhões de anos depois, o interior continua a esfriar. Esse resfriamento faz o corpo inteiro se contrair, rompe trechos da crosta e provoca abalos sísmicos conhecidos como terremotos lunares.

As cicatrizes que servem de pista

A contração empurra material da crosta para cima ao longo de falhas de empurrão, formando pequenos degraus parecidos com penhascos, as escarpas lobadas. Segundo a NASA, esses relevos são marca típica do encolhimento.

A câmera da LRO observa a Lua há 17 anos e mostra milhares dessas escarpas. A equipe mapeou essas estruturas e também as cristas de mare, feições tectônicas que se formaram sobretudo nas planícies escuras de basalto chamadas mares lunares.

Somando as deformações observadas nas áreas com escarpas e cristas, os pesquisadores concluíram que a Lua se contraiu pouco ao longo da história.

Lua perdeu cerca de 45 metros de raio em até 800 milhões de anos, e mais de 10 mil falhas jovens revelam o ritmo do encolhimento
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O ritmo do encolhimento

Se a taxa de redução do raio se manteve constante nesse intervalo, o estudo indica que a Lua encolhe entre 2,3 e 4,3 polegadas por milhão de anos, algo como 6 a 11 centímetros. Isso equivale a cerca de 39 milionésimos de polegada por ano.

Segundo o estudo publicado na The Planetary Science Journal, as evidências de deformação só passam a aparecer de forma clara entre 300 milhões e 400 milhões de anos atrás. Se o fenômeno ocorresse havia bilhões de anos, seriam esperadas escarpas bem maiores, talvez comparáveis às de Mercúrio e Marte. Como elas não existem, a Lua pode ter encolhido menos do que modelos anteriores previam.

Um casaco que atrasou o frio

Para explicar o início tardio, os autores levantam a hipótese de que uma crosta espessa, porosa e muito fraturada isolou o interior lunar no começo de sua história. Segundo a Universidade de Chicago, o magma que se solidificou em crosta retardou o resfriamento interno, como um casaco que reduz a perda de calor do corpo. Assim, o encolhimento relevante pode ter começado relativamente tarde.

Thomas Watters, cientista emérito do Centro de Estudos da Terra e Planetários do National Air and Space Museum, do Smithsonian, comentou o número de falhas encontradas, em comunicado da instituição:

“The number of these young faults revealed in LROC images is much greater than I ever imagined.”

Ele acrescentou: “As the interior of the moon continues to cool and contract, it is expected that the growth of existing faults and formation of new faults continues today.”

O que isso muda para as missões

Como o resfriamento continua, a expectativa é de mais falhas e mais terremotos lunares. Isso pode influenciar o modo como a NASA e outras agências planejam a construção de bases na Lua. O estudo completo, “Thrust Faulting and the Late-stage Contraction of the Moon”, está disponível online.

Para o leitor da Amazônia, o resultado não altera a aparência da Lua nem suas marés, que seguem inalteradas em escala humana. A mudança é de dezenas de metros em centenas de milhões de anos. O interesse prático está nas futuras missões, que precisarão considerar a atividade sísmica de um satélite que ainda está se contraindo, e em novos mapeamentos que podem refinar essa estimativa.

Com informações de Smithsonian National Air and Space Museum, NASA, Lunar and Planetary Institute e Universidade de Chicago.

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