
Amostras da Reserva Extrativista de Corumbau e da Reserva Extrativista de Cassurubá serão filtradas, sequenciadas e comparadas a bancos de referência.
Uma amostra de água do mar pode carregar rastros de peixes, crustáceos, moluscos e outros animais que passaram por determinado trecho. É a partir desses vestígios que um projeto-piloto pretende mapear a fauna marinha em duas reservas extrativistas do sul da Bahia, sem a necessidade de capturar os organismos.
A iniciativa utiliza o DNA Ambiental metabarcoding, técnica capaz de identificar várias espécies simultaneamente a partir do material genético encontrado em amostras ambientais. No trabalho coordenado pelo Grupo de Biologia e Biotecnologia, o GBB, em parceria com o ICMBio, foram coletadas amostras de água em 20 pontos da Reserva Extrativista de Corumbau e em dez pontos da Reserva Extrativista de Cassurubá.
Água do mar reúne rastros deixados por muitos animais
O princípio do método é observar o material genético que os animais deixam no ambiente. Fragmentos de pelo, escama, fezes ou urina podem conter DNA. Quando vários animais passam pelo mesmo local, esses rastros se misturam na água, no solo ou no ar. A coleta reúne esse material para que ele seja processado em laboratório e comparado com bancos de dados de referência.
Segundo Amely Branquinho Martins, coordenadora do GBB pelo ICMBio, o sequenciamento permite identificar as espécies presentes na amostra a partir das moléculas de DNA encontradas. Na prática, o metabarcoding amplia a leitura de uma única amostra ambiental, porque procura diferentes assinaturas genéticas ao mesmo tempo, em vez de depender exclusivamente da observação direta ou da captura de cada animal.
Trinta pontos foram escolhidos em duas reservas do sul da Bahia
As equipes coletaram água do mar em 20 pontos da Reserva Extrativista de Corumbau e em dez pontos das porções estuarina e marinha da Reserva Extrativista de Cassurubá. A definição dos locais considerou as espécies de interesse, as áreas usadas pelos beneficiários das reservas para pesca e extrativismo e os ambientes relevantes para a conservação de espécies ameaçadas.
Também entrou no planejamento a possibilidade de ocorrência de espécies exóticas invasoras. A seleção dos pontos, portanto, relaciona a investigação genética ao uso cotidiano das reservas e às áreas consideradas prioritárias para a biodiversidade. As amostras foram coletadas em março, passaram por filtragem e conservação e seguiram para o laboratório do Instituto Tecnológico Vale, o ITV, em Belém, no Pará.
Laboratório vai extrair e comparar o material genético
No laboratório, o DNA será extraído, analisado e sequenciado. As sequências obtidas serão comparadas com bancos de referência para indicar quais espécies deixaram material genético nas amostras. O procedimento permite procurar múltiplos animais de interesse social, econômico e ecológico em uma mesma análise, sem que cada organismo precise ser retirado da água.
Entre os grupos que devem ser mapeados estão peixes recifais, camarões, moluscos e o caranguejo-uçá, apontado entre os principais alvos das pescarias locais. O levantamento também dá atenção aos budiões, peixes ameaçados de extinção, e a animais que têm importância para as populações beneficiárias das reservas extrativistas.
Projeto testa o alcance do DNA ambiental no monitoramento
Além de registrar a fauna marinha presente nas áreas protegidas, o projeto busca contribuir para a detecção de espécies ameaçadas, exóticas e invasoras. Entre as espécies invasoras mencionadas para o monitoramento estão o peixe-leão e o coral-sol. A identificação genética pode ajudar a reconhecer a presença desses organismos em locais onde a observação direta ou a captura não registraria todos os sinais existentes.
O trabalho também tem uma etapa de comparação. De acordo com o ICMBio, a equipe pretende avaliar a eficácia do DNA ambiental em relação aos métodos tradicionais usados no monitoramento da biodiversidade em unidades de conservação federais. O projeto não substitui automaticamente as técnicas convencionais. Seu resultado dependerá da análise das sequências, da comparação com os bancos de referência e da capacidade de relacionar o material genético aos animais presentes nos ambientes pesquisados.
Pesca e conservação aparecem na mesma amostra
A escolha das reservas aproxima a ferramenta científica das atividades que sustentam as comunidades locais. Os pontos foram definidos levando em conta os lugares de pesca e extrativismo dos beneficiários, além das áreas importantes para espécies ameaçadas. Com isso, o levantamento poderá reunir informações sobre animais consumidos ou comercializados pelas populações e sobre organismos que exigem atenção específica para sua conservação.
Essa combinação é relevante porque a água não registra apenas uma espécie isolada. Uma mesma amostra pode reunir sinais genéticos de peixes, invertebrados e outros animais que compartilham o ambiente. O projeto procura transformar essa mistura de rastros em uma lista organizada da fauna encontrada nas duas reservas, incluindo espécies de interesse econômico, animais ameaçados e possíveis invasores.
Resultado deve ampliar a leitura da biodiversidade marinha
A principal consequência esperada é testar se o DNA ambiental pode funcionar como uma ferramenta complementar para acompanhar a biodiversidade nas unidades de conservação federais. A técnica permite identificar múltiplas espécies simultaneamente e dispensa a captura dos organismos, característica que pode ser útil em ambientes com muitos grupos animais ou em áreas onde a coleta direta é limitada.
Ao mesmo tempo, o método precisa ser interpretado dentro de seus limites. A presença de DNA em uma amostra indica que o material genético de uma espécie foi encontrado naquele ambiente, mas o projeto ainda precisa analisar e sequenciar as amostras para transformar os rastros em identificações. A comparação com métodos tradicionais é justamente a etapa que permitirá avaliar o alcance da ferramenta para o monitoramento da fauna marinha.
Da coleta em março à divulgação em maio
A cronologia começou com a definição dos pontos nas duas reservas e a coleta das amostras de água do mar em março. Depois, o material foi filtrado e conservado antes do transporte ao laboratório do ITV, em Belém. A sequência de procedimentos protege o DNA presente nas amostras até a etapa em que o material será extraído, analisado e sequenciado.
A existência do projeto foi divulgada em 16 de maio de 2026. O trabalho transforma uma porção aparentemente comum de água em um registro de passagem de animais, conectando a rotina da pesca e do extrativismo a uma técnica molecular de monitoramento. Quando os rastros forem comparados aos bancos de referência, a fauna das reservas poderá ser lida não apenas pelo que os olhos encontram, mas também pelo DNA que o próprio ambiente conserva.
Com informações da Agência Brasil.
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