Biodiversidade perde espaço na economia, e OCDE aponta bilhões em subsídios que ainda financiam danos

Biodiversidade perde espaço na economia, e OCDE aponta bilhões em subsídios que ainda financiam danos
Foto: Copyright 2026

Relatório alerta que títulos verdes e mercados de créditos não bastam sem regras públicas, fiscalização e projetos capazes de atrair investimento.

O problema não está apenas em encontrar dinheiro novo para proteger florestas, rios e oceanos. Enquanto governos anunciam títulos verdes, créditos de biodiversidade e fundos de conservação, uma parcela muito maior dos recursos públicos e privados continua estimulando atividades que degradam a natureza. É essa contradição que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE, coloca no centro de uma análise divulgada em 30 de agosto de 2026.

A conclusão interessa diretamente à Amazônia porque agricultura, pesca, mineração, energia, infraestrutura, turismo e manejo florestal dependem de serviços ambientais que raramente aparecem integralmente nos balanços das empresas ou nos orçamentos públicos. Quando a floresta perde capacidade de regular água, armazenar carbono e proteger o solo, o custo reaparece em outra ponta, como queda de produtividade, interrupção de cadeias de abastecimento, enchentes, seguros mais caros e pressão sobre governos.

A conta ambiental já chegou à economia

A OCDE reúne indicadores que ajudam a dimensionar a deterioração. Entre 1970 e 2020, as populações médias de vertebrados monitorados diminuíram 73%. As taxas de extinção são estimadas em 35 vezes acima do ritmo natural de desaparecimento de espécies. Cerca de 75% das terras do planeta foram significativamente alteradas, enquanto 66% das áreas oceânicas enfrentam pressões crescentes.

O desaparecimento de mais de 85% das áreas úmidas desde 1700 também tem uma consequência prática: menos capacidade de filtrar água, controlar cheias e armazenar carbono. A natureza funciona como uma infraestrutura dispersa, mas essencial. Quando essa infraestrutura se rompe, aumentam os gastos com restauração, resposta a desastres e proteção social.

Segundo a OCDE, a perda de biodiversidade ameaça agricultura, abastecimento de água, infraestrutura, empresas e orçamentos públicos em escala global em 2026. O risco não é distribuído de maneira uniforme. Agricultores familiares, comunidades rurais, povos tradicionais e trabalhadores que dependem diretamente de rios, florestas e áreas costeiras tendem a sentir primeiro os efeitos de uma economia que transfere o custo ambiental para a sociedade.

O dinheiro prometido ainda não acompanha o tamanho do desafio

O Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal estabeleceu a meta de mobilizar pelo menos US$ 200 bilhões por ano até 2030. O acordo também prevê elevar para US$ 30 bilhões anuais o financiamento internacional destinado a países em desenvolvimento e reduzir em pelo menos US$ 500 bilhões por ano os incentivos que prejudicam a biodiversidade.

O avanço, porém, permanece irregular. Até maio de 2026, 101 partes da Convenção sobre Diversidade Biológica, aproximadamente 51% do total, haviam apresentado estratégias nacionais atualizadas. Muitas dessas estratégias definem objetivos amplos, mas não esclarecem de onde virão os recursos, quais instituições administrarão os programas ou como os resultados serão medidos.

O investimento privado voltado simultaneamente a retorno financeiro e benefícios para a biodiversidade ultrapassou US$ 14 bilhões em 2025. O valor representa uma expansão desse mercado, mas continua distante da escala necessária. A dificuldade não é somente captar recursos. Falta transformar iniciativas locais, muitas vezes pequenas e dispersas, em projetos com governança, indicadores, contratos e receitas previsíveis.

Títulos verdes não garantem proteção da natureza

O mercado financeiro oferece instrumentos com potencial, mas também cria espaço para propaganda ambiental sem comprovação. Títulos que incluem biodiversidade entre os usos permitidos movimentaram aproximadamente US$ 317 bilhões em 2024. Quando são descontados os papéis que financiam várias categorias ambientais ao mesmo tempo, a parcela relacionada à biodiversidade cai para cerca de US$ 36 bilhões.

Outro levantamento citado pela OCDE identificou que somente 3,7% dos recursos de títulos considerados relevantes, emitidos em 2021 e 2022, foram efetivamente destinados a projetos de biodiversidade. O dado mostra por que nomes verdes não bastam. Taxonomias claras, auditoria independente e divulgação pública precisam revelar o que foi financiado e qual mudança ambiental ocorreu.

Os créditos voluntários de biodiversidade ainda estão em fase inicial. As vendas registradas somavam apenas cerca de US$ 6 milhões até abril de 2026. Sem padrões comuns e verificação robusta, surgem riscos de dupla contagem, promessas infladas e greenwashing. A mesma cautela vale para compensações: antes de comprar créditos, empreendedores devem evitar e reduzir o dano, usando a compensação apenas para impactos inevitáveis.

Por que a reforma dos subsídios é o ponto decisivo

A OCDE defende que governos parem de tratar o financiamento ambiental como uma camada adicional sobre políticas econômicas que continuam premiando a degradação. Subsídios ligados à agricultura, pesca, silvicultura, energia e atividades extrativas ainda superam os investimentos voltados à recuperação da natureza.

A mudança exigirá revisão de incentivos, regras ambientais, compras públicas, licenciamento de infraestrutura, orçamento nacional e regulação financeira. Também exigirá cuidado social. Cortes bruscos em subsídios podem elevar preços ou reduzir a renda de pequenos produtores e famílias vulneráveis. Por isso, a transição precisa combinar proteção de renda, assistência técnica e alternativas produtivas.

Na Amazônia, essa discussão alcança os nove estados da região, ainda que os efeitos e as prioridades variem entre áreas urbanas, rios, territórios indígenas, zonas de fronteira agrícola e regiões costeiras. Projetos de restauração, manejo sustentável, turismo de natureza, monitoramento ambiental, proteção de bacias e agricultura de menor impacto podem receber capital, mas somente se houver segurança fundiária, participação comunitária e comprovação de resultados.

O que pode tornar um projeto financiável

Instituições de desenvolvimento podem reduzir o risco inicial com doações, garantias, seguros, empréstimos concessionais e capital de primeira perda. Esses instrumentos ajudam a pagar estudos de viabilidade, organizar vários projetos pequenos, padronizar contratos e testar modelos que ainda não atraem bancos comerciais.

Depois dessa etapa, investidores privados podem entrar em áreas como restauração ecológica, gestão da água, agricultura sustentável, turismo baseado na natureza, seguros e monitoramento ambiental. Satélites, drones, DNA ambiental e inteligência artificial melhoram a fiscalização, mas não substituem critérios científicos, transparência e verificação independente.

O próximo passo, segundo a OCDE, é transformar metas ambientais em decisões econômicas verificáveis. Sem essa mudança, o mundo poderá aumentar o volume de produtos financeiros com rótulo verde e, ao mesmo tempo, continuar financiando a deterioração que esses produtos deveriam combater.

Com informações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE.

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