Cientistas identificam 3 espécies de bandicoot onde só se conhecia uma no sul da Austrália; uma delas foi extinta antes de ganhar nome científico

A conclusão chega em um momento em que o bandicoot-marrom-do-sul já figura como espécie em perigo, o que abre caminho para uma reavaliação formal de status de conservação de subespécies recém-reconhecidas. Ilustração criada com Inteligência Artificial

Uma pesquisa realizada na Austrália revelou que a diversidade de bandicoots, pequenos marsupiais de focinho alongado, era muito maior do que os cientistas imaginavam. No estado da Austrália do Sul, onde se acreditava existir apenas uma espécie do grupo estudado, os pesquisadores descobriram evidências de três espécies diferentes.

A novidade foi divulgada pela emissora australiana ABC em 5 de novembro de 2026 e faz parte de uma investigação científica que durou aproximadamente dez anos. O trabalho combinou análises de DNA e exames de exemplares preservados em museus.

O detalhe mais surpreendente é que uma das espécies identificadas já estava extinta havia aproximadamente um século. Isso significa que desapareceu antes mesmo de a ciência reconhecer sua identidade.

Pesquisa de dez anos revelou espécies desconhecidas

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Western Australian Museum e de outras instituições australianas. A equipe analisou exemplares históricos e modernos de bandicoots para compreender melhor as diferenças entre as populações.

O projeto começou em 2016, quando o pesquisador Kenny Travouillon examinou coleções de museus na Europa e nos Estados Unidos.

Durante a investigação, foram identificadas características que não correspondiam completamente às classificações utilizadas anteriormente.

Os pesquisadores ampliaram a análise para coleções australianas e utilizaram dados genéticos, medidas corporais e características dos crânios e dentes.

Três espécies viviam onde se reconhecia apenas uma

Durante décadas, acreditava-se que os bandicoots do gênero Isoodon encontrados na Austrália do Sul pertenciam ao bandicoot-marrom-do-sul, conhecido cientificamente como Isoodon obesulus.

Entretanto, a revisão revelou que a região também abrigava a quenda, espécie identificada como Isoodon fusciventer, e o pequeno bandicoot-marrom, chamado Isoodon microtis.

A descoberta modificou o entendimento sobre a distribuição histórica desses animais.

Além disso, demonstrou que populações antes consideradas integrantes da mesma espécie pertenciam a grupos evolutivos diferentes.

Uma das espécies desapareceu há cerca de 100 anos

O pequeno bandicoot-marrom, Isoodon microtis, representa uma das descobertas mais marcantes da pesquisa.

Os cientistas encontraram evidências de que esse animal habitava a península de Eyre, na Austrália do Sul, mas provavelmente desapareceu há aproximadamente um século.

Sua existência foi reconhecida a partir de exemplares preservados em coleções científicas, examinados com técnicas modernas.

O caso mostra como uma espécie pode desaparecer sem que sua identidade tenha sido plenamente compreendida durante o período em que ainda existia na natureza.

Outra espécie vivia muito além da região conhecida

A investigação também ampliou o conhecimento sobre a distribuição da quenda, um bandicoot anteriormente associado principalmente à Austrália Ocidental.

Os pesquisadores descobriram evidências de que a espécie também habitava áreas próximas de Adelaide, Kangaroo Island e do arquipélago de Nuyts.

Essa distribuição histórica é muito maior do que se acreditava.

No entanto, identificar uma presença antiga não significa que todas essas populações continuem existindo atualmente.

O estudo também reconheceu quatro novas subespécies de quenda, mostrando que diferentes populações apresentam características próprias.

Novas descobertas podem mudar planos de conservação

A revisão científica tem consequências importantes porque o bandicoot-marrom-do-sul já enfrenta ameaças à sua sobrevivência.

Com a nova classificação, sua distribuição conhecida ficou mais restrita do que se imaginava anteriormente.

Isso significa que a situação da espécie pode ser mais preocupante, especialmente quando determinadas populações estão isoladas em pequenos fragmentos de vegetação.

Os pesquisadores afirmam que as descobertas poderão motivar novas avaliações de conservação.

Entretanto, essas mudanças ainda dependem de análises e decisões dos órgãos responsáveis.

O que são os bandicoots?

Os bandicoots são pequenos mamíferos marsupiais encontrados principalmente na Austrália e na Nova Guiné.

Possuem corpo compacto, focinho alongado, patas adaptadas à escavação e cauda relativamente curta.

Assim como outros marsupiais, as fêmeas possuem uma bolsa na qual os filhotes completam parte de seu desenvolvimento.

Apesar da aparência que pode lembrar a de um roedor, os bandicoots pertencem a um grupo evolutivo diferente.

Sua alimentação inclui insetos, larvas, fungos, raízes e outros pequenos organismos encontrados no solo.

Pequenos animais ajudam a manter o solo saudável

Uma característica importante dos bandicoots é o hábito de cavar enquanto procuram alimento.

Essas pequenas escavações movimentam a terra e a matéria orgânica, contribuindo para processos naturais de renovação do solo.

Segundo especialistas ouvidos pela ABC, esse comportamento torna os animais importantes para o funcionamento dos ecossistemas.

Ao revolver o terreno, eles podem favorecer a infiltração de água e criar condições para a germinação de determinadas plantas.

Por isso, os pesquisadores os descrevem como verdadeiros engenheiros do ecossistema.

Raposas e gatos ameaçam a sobrevivência desses marsupiais

Entre os principais problemas enfrentados pelos bandicoots estão a perda de habitat, a fragmentação da vegetação e a presença de predadores introduzidos.

Raposas e gatos que vivem ou caçam em ambientes naturais representam ameaças importantes para diferentes populações australianas.

Os bandicoots dependem de vegetação relativamente densa para encontrar abrigo e reduzir sua exposição aos predadores.

Quando áreas naturais são desmatadas ou fragmentadas, os animais podem perder locais adequados para alimentação e reprodução.

Essas pressões ajudam a explicar o desaparecimento de populações em diversas regiões.

Como o DNA ajudou a identificar diferenças?

Os cientistas compararam características físicas de centenas de exemplares com informações genéticas obtidas de diferentes populações.

As análises incluíram milhares de regiões do DNA, permitindo investigar relações evolutivas que nem sempre são evidentes pela aparência.

Medidas dos crânios, dentes e outras estruturas também ajudaram a distinguir os grupos.

Ao reunir essas informações, os pesquisadores conseguiram revisar a classificação dos bandicoots do gênero Isoodon.

O estudo passou a reconhecer sete espécies nesse gênero, em vez das cinco consideradas anteriormente.

Museus guardavam respostas que ninguém conhecia

Uma das curiosidades mais importantes é que parte das descobertas surgiu de animais preservados havia décadas em museus.

Esses exemplares foram coletados antes do desenvolvimento das técnicas genéticas atualmente utilizadas pelos pesquisadores.

Com novas ferramentas, tornou-se possível reexaminar os materiais e identificar diferenças que haviam passado despercebidas.

Isso mostra por que coleções científicas são importantes mesmo quando os animais representados já não existem na natureza.

Em alguns casos, elas preservam os únicos registros disponíveis de espécies extintas.

O que acontece depois da descoberta?

Os pesquisadores pretendem continuar investigando outros grupos de bandicoots, especialmente os de focinho longo, pertencentes ao gênero Perameles.

O objetivo é compreender melhor sua diversidade e identificar populações que possam precisar de medidas específicas de proteção.

O conhecimento também poderá ajudar na elaboração de programas de recuperação e na definição de áreas prioritárias de conservação.

Essas decisões exigem informações sobre a distribuição atual, o tamanho das populações e as ameaças existentes.

A descoberta mais impressionante é que uma espécie inteira desapareceu sem que sua identidade tivesse sido reconhecida. Agora, os cientistas esperam que a nova classificação ajude a proteger os bandicoots que ainda sobrevivem, antes que outras linhagens tenham o mesmo destino.

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