Corrida por terras raras leva 18 estrangeiras ao Brasil, movimenta R$ 17,5 bi e testa a indústria nacional

Corrida por terras raras leva 18 estrangeiras ao Brasil, movimenta R$ 17,5 bi e testa a indústria nacional
Foto: acervo

Projetos avançam em seis estados, mas a maior parte do investimento ainda depende de licenças, tecnologia e viabilidade econômica.

O Brasil entrou no radar global das terras raras sem ter resolvido ainda a questão central dessa corrida: como fazer o minério gerar indústria, tecnologia e empregos no país, em vez de sair apenas como matéria-prima. Ao menos 18 empresas estrangeiras mantêm processos para pesquisar ou explorar esses elementos em diferentes regiões, com investimentos já realizados ou estimados acima de R$ 17,5 bilhões.

Segundo a Folha de S.Paulo, ao menos 18 empresas estrangeiras mantinham processos de pesquisa ou exploração de terras raras no Brasil em outubro de 2026. Os grupos estão distribuídos por Minas Gerais, Goiás, Bahia, Amazonas, Tocantins e Piauí, em estágios que vão de sondagens iniciais até produção comercial.

O dinheiro chegou antes da certeza sobre as minas

A concentração estrangeira ajuda a explicar a velocidade dessa disputa. Pelo menos 11 dos grupos identificados são australianos. Canadá e Estados Unidos aparecem com três empresas cada, além de uma companhia constituída nas Ilhas Marshall. A presença externa não significa, porém, que todos os projetos estejam prontos para operar.

Parte das empresas ainda coleta amostras, mapeia áreas e perfura o solo para verificar se as reservas justificam uma mina. Outras testam formas de processamento. O valor de R$ 17,5 bilhões, portanto, reúne desembolsos já feitos e projeções preliminares, não um pacote integralmente contratado ou garantido.

Essa diferença é decisiva. Licenciamento ambiental, financiamento, escala de produção e comprovação técnica ainda podem alterar o tamanho, o prazo e até a continuidade dos empreendimentos. A cifra tende a crescer se os depósitos forem confirmados, mas também está exposta ao risco típico de uma atividade que exige anos entre a descoberta e a operação.

Minas e Goiás concentram as primeiras provas

A transação mais recente ocorreu no sul de Minas Gerais. A australiana Lynas anunciou a compra da Meteoric Resources por R$ 3,5 bilhões, envolvendo o chamado Projeto Caldeira, em áreas próximas de Andradas, Caldas e Poços de Caldas. O negócio ampliou a presença australiana e colocou à prova a promessa de que novos investimentos terão de avançar além da mineração.

Menos de um mês antes, a americana USA Rare Earth havia concluído a aquisição da mina Serra Verde, em Minaçu, Goiás. O empreendimento é apontado como o projeto mais avançado do país: recebeu licença ambiental de operação em 2023 e começou a produzir comercialmente em 2024.

A Serra Verde produz Carbonato Misto de Terras Raras, usado como insumo para a indústria de ímãs. A empresa afirma que já realiza mineração e processamento integrado em território brasileiro, mas admite que etapas posteriores dependerão de tecnologia, capital, escala, regras favoráveis e condições econômicas competitivas. Saiba mais sobre a aquisição da Serra Verde.

O valor está depois da extração

As terras raras são usadas em ímãs de alto desempenho para motores de carros elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa. O ponto menos visível dessa cadeia é que retirar o minério do solo representa apenas o começo. Depois da produção do concentrado, é preciso separar os elementos, transformá-los em metais e ligas e incorporá-los a produtos industriais.

Essas fases concentram tecnologia e valor econômico. É justamente nesse intervalo que a política brasileira pretende atuar, evitando que o país repita o modelo de exportação de commodities observado em outras cadeias minerais. A meta oficial é estimular beneficiamento, processamento, separação, refino e transformação dentro do Brasil.

O governo federal anunciou o Projeto Caldeira como a possibilidade de instalação da primeira grande planta industrial brasileira de separação e processamento de minerais críticos e estratégicos. Mas a operação entre Lynas e Meteoric ainda não formaliza essa indústria. Até agora, a companhia australiana declarou apenas que pretende avaliar o potencial de desenvolver atividades de separação no país, usando tecnologia aplicada pela Lynas na Malásia.

Uma política nova para uma cadeia antiga de dependências

A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos foi sancionada 15 dias antes do anúncio do Ministério de Minas e Energia sobre o projeto mineiro em Minas Gerais. A legislação autoriza um fundo garantidor com participação de até R$ 2 bilhões da União e prevê créditos fiscais de até R$ 1 bilhão por ano, entre 2030 e 2034, para processamento, transformação e recuperação de minerais a partir de resíduos.

O desenho, contudo, ainda depende de regulamentação. Para Alessandra Cardoso, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos, a aplicação da política definirá se os incentivos serão suficientes para induzir a industrialização ou se o país continuará atraindo principalmente operações de extração.

“A nova política de minerais críticos vem com a promessa de que serão acionados novos instrumentos, governança e medidas para que esse minério não seja apenas extraído e exportado, mas realmente sirva para estimular o adensamento da cadeia de valor”, afirmou Alessandra Cardoso.

O Ministério de Minas e Energia sustenta que a estratégia não exige que cada mineradora faça sozinha todas as etapas. A ideia é formar parcerias entre empresas de mineração, grupos industriais e detentores de tecnologia. A lacuna está em saber quais instrumentos terão força suficiente para manter no Brasil as fases mais rentáveis.

Bahia, Goiás e Minas mostram caminhos diferentes

Os projetos em operação ou teste revelam estratégias distintas. A canadense Aclara estima US$ 781 milhões para o empreendimento em Nova Roma, Goiás, mantém uma planta-piloto em Aparecida de Goiânia e possui unidades nos Estados Unidos para separar elementos e fabricar metais e ligas.

Na Bahia, a australiana Brazilian Rare Earths prevê US$ 969 milhões para o projeto integrado Monte Alto e Camaçari até a primeira produção de óxidos. A planta-piloto de Camaçari iniciou a produção de concentrado mineral em setembro, enquanto a fase de tratamento químico e separação está prevista para 2027.

Em Poços de Caldas, a australiana Viridis obteve licença prévia para seu projeto e teve aprovado financiamento de R$ 77,5 milhões do BNDES para um centro de pesquisa e processamento. São sinais de avanço, mas não equivalem ainda a uma cadeia nacional completa.

O que a corrida representa para a Amazônia

O Amazonas está entre os estados incluídos no mapa de pesquisa e exploração, ao lado de Tocantins, Bahia, Goiás, Minas Gerais e Piauí. A presença amazônica amplia a responsabilidade sobre licenciamento, água, áreas de influência e relação com comunidades, mesmo quando o projeto ainda está na etapa de sondagem.

Para a região, o debate não se resume à atração de capital estrangeiro. A questão é se os investimentos poderão produzir conhecimento, fornecedores, empregos qualificados e processamento local, ou se a Amazônia será incorporada apenas como nova fronteira de pesquisa mineral. Como os projetos ainda estão em fases muito diferentes, essa resposta dependerá das licenças, da regulamentação da política nacional e das decisões empresariais dos próximos anos.

O Conselho Nacional dos Minerais Críticos deverá participar da definição dos mecanismos de fomento e regulação, enquanto as empresas avançam na comprovação das reservas e nos estudos de viabilidade. A disputa pelas terras raras brasileiras, portanto, está apenas começando, e o próximo teste será transformar anúncios bilionários em plantas industriais efetivamente instaladas no país.

Com informações de Folha de S.Paulo.

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