Crianças sobem a montanha com mudas na mochila e já devolveram 32 mil árvores ao bosque queimado na Patagônia argentina

Alunos sobem a trilha com mudas na mochila para plantar nativas em área de bosque atingida por incêndios no Parque Nacional Los Alerces.

Quando o verão seca a cordilheira e a fumaça sobe pelos vales glaciais de Chubut, o recreio da Escuela N° 25 deixa de ser só corrida no pátio: parte das crianças encosta no paredão de pedra e acompanha o vaivém de brigadistas e guardaparques na estrada de terra, porque o bosque que cerca a escola é, ao mesmo tempo, quintal, sala de aula e casa.

Em Villa Futalaufquen, povoado pequeno encravado no interior do Parque Nacional Los Alerces, na Patagônia argentina, trinta e oito estudantes — dos três anos do nível inicial ao último ano do secundário — mantêm há cerca de vinte anos um viveiro de espécies nativas chamado Vivero Niños del Lago, e o gesto que resume o projeto é quase literário de tão simples: encher a mochila com mudas e subir a montanha a pé até a clareira ainda marcada pelo fogo. A pergunta que deu origem a tudo surgiu depois do susto.

Em março de 2005, um incêndio consumiu cerca de quarenta hectares nos arredores da escola; famílias, docentes e alunos ajudaram na emergência, mas logo as próprias crianças quiseram saber o que a escola poderia fazer para o bosque voltar.

A resposta prática começou em 2006, com a meta modesta de produzir algumas centenas de mudas nativas, ganhou corpo em 2009 na primeira plantação em campo e, desde então, deixou de ser atividade paralela para entrar na rotina da jornada completa, das 8h30 às 15h30, com pelo menos dois blocos semanais de quarenta minutos dedicados a semear, transplantar, regar e, no fim do ciclo, carregar as árvores até a trilha.

Do incêndio de 2005 ao viveiro que atravessa gerações de alunos

Quem visita o pátio encontra mais de quinze espécies típicas do bosque andino-patagônico em estágios diferentes: radal, maqui, notro, ñire, chacay, michay, calafate, alerce, maitén, araucaria e ciprés de la cordillera, entre outras. O processo é longo de propósito.

As sementes vão primeiro para a sementeira, cobertas com um colchão de pinocha e folhas que imita o chão da floresta; ficam ali cerca de um ano, depois passam a saquinhos ou vasos por mais dois anos e só saem para o plantio quando completam em torno de quatro anos de vida.

Quem coloca a semente na terra quase nunca é a mesma turma que a leva para a clareira: uma geração deixa o trabalho pela metade e a seguinte assume o cuidado, o que ensina, na prática, a esperar e a confiar em quem virá depois.

Quando as mudas estão prontas, alunos e professores enchem as mochilas com uma, três ou sete plantas — o que cada um conseguir carregar — e saem a pé por trilhas de montanha até as áreas autorizadas de restauração. Não há caminhão de plantio nem cerimônia de fita: o gesto é o de subir o bosque com a árvore nas costas e abrir a cova no solo ainda marcado pelo fogo.

Parte dos exemplares fica no próprio Parque Nacional Los Alerces; outros foram doados a escolas vizinhas, usados em praças de Esquel e Trevelin ou levados a trechos atingidos em Cholila, Epuyén e Lago Puelo. O acumulado histórico atribuído ao projeto já passa de trinta e duas mil árvores plantadas, marca rara para uma escola de poucas dezenas de estudantes.

Como o viveiro vira biologia, matemática, trilha e economia na mesma manhã

O viveiro não compete com o currículo: ele o organiza. Observar floração, identificar espécies e classificar sementes vira conteúdo de biologia; calcular taxa de germinação puxa porcentagem e estatística simples; filmar o trabalho e montar material de divulgação ocupa tecnologia; as caminhadas longas com mochila pesada entram em educação física; custos e vendas eventuais de mudas — que ajudam a sustentar o próprio viveiro — aparecem em economia; o vocabulário técnico das espécies e do manejo aparece até nas aulas de inglês.

A lógica é a do aprendizado-serviço: em vez de estudar primeiro e aplicar depois, a turma enfrenta uma necessidade real da comunidade e, no caminho, precisa aprender o que a tarefa exige. Para o professor Luis “Pela” Almendra, responsável atual pela iniciativa, o efeito mais duradouro não é só a cobertura vegetal.

As crianças que passam pelo projeto convivem o ano inteiro com o bosque, reconhecem árvores que elas mesmas plantaram e desenvolvem um sentimento de pertencimento raro em quem cresce vendo o fogo voltar todo verão. “Eles amam o bosque”, resume o docente.

Alunas pequenas traduzem a mesma ideia sem jargão: estão fazendo “arbolitos” porque o fogo queimou quase tudo e, quando plantam, sentem que regeneram o lugar onde vivem. As famílias também entram na roda — colheita de sementes, mutirões e o acompanhamento das saídas de campo — o que transforma o viveiro em hábito de povoado, não só de sala de aula.

Por que plantar nativas importa depois que o fogo passa na cordilheira

O Parque Nacional Los Alerces protege trechos do bosque andino-patagônico, bioma de clima temperado úmido colado à cordilheira, bem diferente da estepe seca que muita gente associa à palavra Patagônia. Ali vivem populações de alerce, a Fitzroya cupressoides, conífera nativa de crescimento lento e vida extremamente longa, símbolo da conservação na região e uma das árvores que o viveiro tenta devolver ao solo.

Depois de um incêndio, a regeneração natural de várias espécies nativas é lenta: o solo perde cobertura, o microclima muda e clareiras abertas podem ser ocupadas por exóticas invasoras se ninguém intervier com mudas locais e manejo adequado.

O plantio dirigido com espécies do próprio bioma ajuda a recompor sombra, reter umidade, estabilizar encostas e devolver habitat a aves e mamíferos que dependem da estrutura florestal. Escolas encravadas em vilas de parque costumam viver esse calendário na pele.

O risco de fogo, a presença de guardaparques, o turismo de trilha e lago e as regras de manejo da unidade de conservação não são notícia distante: são o pano de fundo do recreio e da ida e volta para casa. Por isso um viveiro escolar de nativas funciona ali como laboratório vivo e, ao mesmo tempo, como resposta concreta a uma ameaça recorrente que volta com cada temporada seca.

A continuidade de cerca de duas décadas no mesmo estabelecimento é incomum em projetos escolares de restauração, que muitas vezes dependem de um professor entusiasta e se desfazem quando a equipe muda. Em Futalaufquen, o relevo passou de geração em geração de alunos, o que explica como uma escola pequena chega à marca de mais de trinta e duas mil árvores.

A experiência se alinha à pedagogia do aprendizaje-servicio, difundida na educação latino-americana, em que o conteúdo curricular se combina com uma intervenção solidária diante de uma necessidade real.

O Centro Latinoamericano de Aprendizaje y Servicio Solidario acompanha o trabalho há anos, e a escola integra debates e seminários sobre o tema — sinal de que o viveiro deixou de ser só atividade verde para ser lido como modelo de formação.

Ao longo do percurso, o projeto também recebeu o Prêmio Presidencial Escuelas Solidarias em edições passadas, o que reforça a leitura institucional de que semear, cuidar e plantar pode ser eixo de escola inteira, do inicial ao secundário. Nada disso apaga a escala humana do gesto.

Trinta e duas mil mudas em vinte anos equivalem, em média bruta, a mais de mil árvores por ano letivo, somando turmas que se sucedem e se revezam no mesmo canteiro. Cada saída de plantio continua sendo uma caminhada longa, com mochila nas costas e o silêncio da trilha entre a escola e a clareira.

O quadro, segundo o infobae.com, é o de uma escola pública dentro de um parque de floresta fria de altitude, cercada de lagos e cordilheira, onde o verão traz fumaça e o inverno pede paciência com a muda que ainda não está pronta. Enquanto houver temporada seca e fumaça no horizonte, o paredão do recreio deve continuar atraindo olhares ansiosos.

A diferença, depois de duas décadas, é que as mesmas crianças que vigiam o combate ao fogo sabem o caminho de volta: a sementeira, o vaso, a mochila e o buraco na terra onde o bosque andino-patagônico ainda precisa de ajuda para recomeçar.

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