
Cientistas temem que o aquecimento recorrente empurre partes do maior recife do mundo para um ponto de difícil recuperação.
O próximo verão australiano pode colocar a Grande Barreira de Corais diante de uma mudança que vai além da perda temporária de cor: partes do maior sistema de recifes do mundo correm o risco de deixar de ser dominadas por corais e passar a ser ocupadas principalmente por algas. O alerta está associado ao El Niño que atingiu o Pacífico em 2026, considerado pelos pesquisadores um dos mais fortes já registrados, com pico esperado para novembro.
A preocupação não nasce de um episódio isolado. O recife já atravessou seis eventos de branqueamento na última década, período em que o oceano também acumulou temperaturas excepcionalmente altas. A sucessão reduz o intervalo de recuperação dos corais e amplia a possibilidade de que áreas atingidas não retornem ao estado anterior mesmo quando a água voltar a esfriar.
O risco está na repetição, não apenas no calor
O branqueamento ocorre quando o estresse térmico faz os corais expulsarem as algas microscópicas que vivem em seus tecidos. Essas algas fornecem grande parte da energia usada pelos animais para crescer e formar as estruturas do recife. Sem elas, as colônias ficam brancas, debilitadas e podem morrer se o calor persistir.
O El Niño agrava esse mecanismo porque desloca águas quentes para o Pacífico central e oriental e altera os sistemas de monção que normalmente levam nuvens, chuva e condições mais amenas à região da Grande Barreira. O problema é que o aquecimento de longo prazo já tornou possíveis episódios de branqueamento durante períodos neutros e até sob La Niña, normalmente associada a temperaturas mais baixas.
David Schoeman, da University of the Sunshine Coast, avalia que o recife está se aproximando de um ponto de inflexão ecológico. Nesse cenário, a passagem de um ambiente dominado por corais para outro ocupado por algas pode ocorrer com relativa facilidade, mas a reversão seria muito mais difícil. A recuperação deixaria de depender apenas da queda da temperatura e passaria a exigir a reconstrução de condições ecológicas que as algas podem impedir.
Os números mostram como a área de risco cresceu
A diferença entre os eventos anteriores ajuda a dimensionar a mudança. Em 1998, aproximadamente 8% dos recifes da Grande Barreira sofreram branqueamento até o ponto de mortalidade. Em 2016, essa proporção chegou a cerca de 35%, embora as mortes tenham ficado concentradas principalmente no extremo norte.
Em 2024, o padrão se espalhou por todo o sistema. O branqueamento atingiu 60% dos corais em uma área que poderia representar 40% do recife. Em determinados locais, entre 70% e 90% dos corais morreram. Até regiões consideradas protegidas pela distância da costa e pela presença de águas profundas, como Swains Reefs, a cerca de 150 quilômetros do litoral, foram severamente afetadas.
Segundo o Australian Institute of Marine Science, em 2024 a Grande Barreira registrou branqueamento severo e mortalidade em toda a extensão do sistema, inclusive em áreas que antes pareciam funcionar como refúgios térmicos.

Neal Cantin, pesquisador do instituto, relaciona o avanço da área atingida à combinação entre recordes globais de temperatura oceânica e a força do El Niño. A dificuldade, neste momento, é prever como as condições vão evoluir no auge do verão australiano e se uma monção intensa conseguirá amenizar parte do estresse sobre os recifes.
Uma intervenção tecnológica ainda não chega a tempo
Organizações australianas estão preparando levantamentos para medir a extensão do branqueamento. A coleta será importante não apenas para contabilizar perdas, mas também para descobrir quais colônias resistiram e onde ainda existem condições para recuperação natural.
Uma das alternativas estudadas é o clareamento artificial de nuvens marinhas, conhecido como marine cloud brightening. A técnica utiliza canhões para lançar água do mar na atmosfera. As partículas favorecem a formação de nuvens mais brilhantes, capazes de refletir parte da luz solar e reduzir a radiação recebida pelo oceano.
Daniel Harrison, da Southern Cross University, coordena pesquisas e consultas com comunidades da região. Experimentos anteriores aumentaram em várias centenas por cento o número de gotículas nas nuvens, mas os testes diretamente relacionados à Grande Barreira não devem ocorrer antes de 2028. Portanto, a ferramenta não estará disponível para conter o impacto do El Niño de 2026.
Há ainda um efeito contraditório associado à transição energética. A redução de emissões de dióxido de enxofre por navios diminui a poluição atmosférica, mas também pode retirar partículas que ajudam a refletir a luz solar. Modelagens citadas pelos pesquisadores indicam que uma redução de 80% dos aerossóis de sulfato emitidos por embarcações na região poderia acrescentar 0,15°C ao aquecimento da superfície do mar.
A conexão com a Amazônia passa pelo clima extremo
Para quem vive no Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, o caso australiano funciona como um sinal sobre a forma como o aquecimento global amplifica fenômenos climáticos naturais. O El Niño também altera a distribuição de chuvas e aumenta o risco de secas em áreas da Amazônia, embora os efeitos variem conforme a localização e a interação com outros sistemas atmosféricos.
A comparação não significa que a floresta amazônica e a Grande Barreira respondam da mesma maneira. Corais dependem de uma faixa térmica estreita e podem morrer após ondas de calor marinhas; a floresta enfrenta secas, incêndios, perda de umidade e mudanças no regime dos rios. O ponto comum é a redução da capacidade de recuperação quando eventos extremos se tornam frequentes demais.
O que ainda pode evitar a virada
O clareamento de nuvens é apresentado pelos pesquisadores como uma forma de ganhar tempo, não como substituto para a redução das emissões. As projeções também combinam a técnica com o cultivo e a introdução de corais mais tolerantes ao calor e com o controle da estrela-do-mar coroa-de-espinhos, predadora de corais duros.
Mesmo que essas medidas funcionem, elas não eliminam o risco de novos episódios de calor. O desafio central é impedir que a frequência do branqueamento ultrapasse a capacidade de crescimento e reprodução das colônias. Os próximos levantamentos australianos devem indicar se o El Niño de 2026 ampliará a mortalidade registrada em 2024 e quais regiões ainda conservarão capacidade de recuperação.
Com informações de New Scientist.
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