El Niño recorde ameaça transformar Grande Barreira de Corais em área dominada por algas após novo branqueamento

El Niño recorde ameaça transformar Grande Barreira de Corais em área dominada por algas após novo branqueamento
Foto: James Woodford

Cientistas temem que o aquecimento recorrente empurre partes do maior recife do mundo para um ponto de difícil recuperação.

O próximo verão australiano pode colocar a Grande Barreira de Corais diante de uma mudança que vai além da perda temporária de cor: partes do maior sistema de recifes do mundo correm o risco de deixar de ser dominadas por corais e passar a ser ocupadas principalmente por algas. O alerta está associado ao El Niño que atingiu o Pacífico em 2026, considerado pelos pesquisadores um dos mais fortes já registrados, com pico esperado para novembro.

A preocupação não nasce de um episódio isolado. O recife já atravessou seis eventos de branqueamento na última década, período em que o oceano também acumulou temperaturas excepcionalmente altas. A sucessão reduz o intervalo de recuperação dos corais e amplia a possibilidade de que áreas atingidas não retornem ao estado anterior mesmo quando a água voltar a esfriar.

O risco está na repetição, não apenas no calor

O branqueamento ocorre quando o estresse térmico faz os corais expulsarem as algas microscópicas que vivem em seus tecidos. Essas algas fornecem grande parte da energia usada pelos animais para crescer e formar as estruturas do recife. Sem elas, as colônias ficam brancas, debilitadas e podem morrer se o calor persistir.

O El Niño agrava esse mecanismo porque desloca águas quentes para o Pacífico central e oriental e altera os sistemas de monção que normalmente levam nuvens, chuva e condições mais amenas à região da Grande Barreira. O problema é que o aquecimento de longo prazo já tornou possíveis episódios de branqueamento durante períodos neutros e até sob La Niña, normalmente associada a temperaturas mais baixas.

David Schoeman, da University of the Sunshine Coast, avalia que o recife está se aproximando de um ponto de inflexão ecológico. Nesse cenário, a passagem de um ambiente dominado por corais para outro ocupado por algas pode ocorrer com relativa facilidade, mas a reversão seria muito mais difícil. A recuperação deixaria de depender apenas da queda da temperatura e passaria a exigir a reconstrução de condições ecológicas que as algas podem impedir.

Os números mostram como a área de risco cresceu

A diferença entre os eventos anteriores ajuda a dimensionar a mudança. Em 1998, aproximadamente 8% dos recifes da Grande Barreira sofreram branqueamento até o ponto de mortalidade. Em 2016, essa proporção chegou a cerca de 35%, embora as mortes tenham ficado concentradas principalmente no extremo norte.

Em 2024, o padrão se espalhou por todo o sistema. O branqueamento atingiu 60% dos corais em uma área que poderia representar 40% do recife. Em determinados locais, entre 70% e 90% dos corais morreram. Até regiões consideradas protegidas pela distância da costa e pela presença de águas profundas, como Swains Reefs, a cerca de 150 quilômetros do litoral, foram severamente afetadas.

Segundo o Australian Institute of Marine Science, em 2024 a Grande Barreira registrou branqueamento severo e mortalidade em toda a extensão do sistema, inclusive em áreas que antes pareciam funcionar como refúgios térmicos.

El Niño recorde ameaça transformar Grande Barreira de Corais em área dominada por algas após novo branqueamento
Foto: James Woodford

Neal Cantin, pesquisador do instituto, relaciona o avanço da área atingida à combinação entre recordes globais de temperatura oceânica e a força do El Niño. A dificuldade, neste momento, é prever como as condições vão evoluir no auge do verão australiano e se uma monção intensa conseguirá amenizar parte do estresse sobre os recifes.

Uma intervenção tecnológica ainda não chega a tempo

Organizações australianas estão preparando levantamentos para medir a extensão do branqueamento. A coleta será importante não apenas para contabilizar perdas, mas também para descobrir quais colônias resistiram e onde ainda existem condições para recuperação natural.

Uma das alternativas estudadas é o clareamento artificial de nuvens marinhas, conhecido como marine cloud brightening. A técnica utiliza canhões para lançar água do mar na atmosfera. As partículas favorecem a formação de nuvens mais brilhantes, capazes de refletir parte da luz solar e reduzir a radiação recebida pelo oceano.

Daniel Harrison, da Southern Cross University, coordena pesquisas e consultas com comunidades da região. Experimentos anteriores aumentaram em várias centenas por cento o número de gotículas nas nuvens, mas os testes diretamente relacionados à Grande Barreira não devem ocorrer antes de 2028. Portanto, a ferramenta não estará disponível para conter o impacto do El Niño de 2026.

Há ainda um efeito contraditório associado à transição energética. A redução de emissões de dióxido de enxofre por navios diminui a poluição atmosférica, mas também pode retirar partículas que ajudam a refletir a luz solar. Modelagens citadas pelos pesquisadores indicam que uma redução de 80% dos aerossóis de sulfato emitidos por embarcações na região poderia acrescentar 0,15°C ao aquecimento da superfície do mar.

A conexão com a Amazônia passa pelo clima extremo

Para quem vive no Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, o caso australiano funciona como um sinal sobre a forma como o aquecimento global amplifica fenômenos climáticos naturais. O El Niño também altera a distribuição de chuvas e aumenta o risco de secas em áreas da Amazônia, embora os efeitos variem conforme a localização e a interação com outros sistemas atmosféricos.

A comparação não significa que a floresta amazônica e a Grande Barreira respondam da mesma maneira. Corais dependem de uma faixa térmica estreita e podem morrer após ondas de calor marinhas; a floresta enfrenta secas, incêndios, perda de umidade e mudanças no regime dos rios. O ponto comum é a redução da capacidade de recuperação quando eventos extremos se tornam frequentes demais.

O que ainda pode evitar a virada

O clareamento de nuvens é apresentado pelos pesquisadores como uma forma de ganhar tempo, não como substituto para a redução das emissões. As projeções também combinam a técnica com o cultivo e a introdução de corais mais tolerantes ao calor e com o controle da estrela-do-mar coroa-de-espinhos, predadora de corais duros.

Mesmo que essas medidas funcionem, elas não eliminam o risco de novos episódios de calor. O desafio central é impedir que a frequência do branqueamento ultrapasse a capacidade de crescimento e reprodução das colônias. Os próximos levantamentos australianos devem indicar se o El Niño de 2026 ampliará a mortalidade registrada em 2024 e quais regiões ainda conservarão capacidade de recuperação.

Com informações de New Scientist.

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