Biólogo que plantou mais de 1 milhão de árvores em 35 anos senta com 40 especialistas para discutir como a IA pode vigiar a restauração em Mato Grosso

Biólogo que plantou mais de 1 milhão de árvores em 35 anos senta com 40 especialistas para discutir como a IA pode vigiar a restauração em Mato Grosso
Foto: Divulgação

Oficina técnica em Mato Grosso mapeou o que satélites e inteligência artificial já fazem e o que ainda depende de campo para acompanhar áreas em recuperação.

“Eu faço o que a IA não faz, que é colher as sementes, plantar e acompanhar os resultados.” A frase é do biólogo José Aparecido Macedo, que em 35 anos de atuação em Mato Grosso já plantou mais de 1 milhão de árvores e contribuiu para a recuperação de 120 nascentes. Ele foi um dos participantes da Oficina Técnica Geotecnologias e Inteligência Artificial aplicadas ao Monitoramento da Restauração no PRA de Mato Grosso, realizada nos dias 14 e 15 de outubro para discutir como a tecnologia pode apoiar o acompanhamento de áreas degradadas em recomposição no estado.

O encontro foi promovido pela Superintendência de Regularização e Monitoramento Ambiental da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA-MT), em parceria com o Programa REM MT, o Instituto Centro de Vida (ICV) e o WRI Brasil. Reuniu mais de 40 participantes.

Quem esteve na mesa

Participaram representantes de MapBiomas, Observatório da Restauração, SCCON, Bioflore, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), Instituto Socioambiental (ISA), The Nature Conservancy (TNC), Embrapa, Netflora, Restauragro, RestauraBio, SEMIL/SP e Tecnomapas.

Para Vinícius Silgueiro, coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do ICV, a mistura de setores é o ponto forte da iniciativa:

“Essa oficina técnica reúne atores de diferentes áreas de atuação do estado de Mato Grosso, da iniciativa privada, do serviço público, organizações da sociedade civil e academia, que têm experiências no uso de geotecnologias, inteligência artificial para monitoramento das áreas de recuperação ambiental no estado, especialmente aquelas áreas de rios e nascentes, que cada vez mais têm uma importância para que sejam recuperadas”

O que a tecnologia já faz e o que ainda não alcança

O objetivo foi avaliar como sensoriamento remoto, geotecnologias, inteligência artificial e dados de campo podem contribuir para o monitoramento da restauração vinculada ao Programa de Regularização Ambiental (PRA). Também se buscou identificar possibilidades, limitações, necessidades de validação e caminhos para incorporar as ferramentas ao ambiente tecnológico que a SEMA-MT já utiliza.

Um dos principais produtos foi a Matriz de Potencial Tecnológico, que organiza as possibilidades de aplicação de cada tecnologia. Ela revelou níveis diferentes de maturidade entre as ferramentas.

Segundo a SEMA-MT, cobertura vegetal, solo exposto, ocorrência de fogo e certas mudanças no uso da terra já podem ser acompanhados com maior grau de automação, conforme as discussões da oficina em outubro, em Mato Grosso.

Biólogo que plantou mais de 1 milhão de árvores em 35 anos senta com 40 especialistas para discutir como a IA pode vigiar a restauração em Mato Grosso
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Já atributos como estrutura, diversidade e regeneração da vegetação exigem maior integração com dados de campo e validação para as condições do estado. Os participantes reforçaram ainda a importância das séries temporais, da sazonalidade e das diferenças entre formações florestais, savânicas e campestres na interpretação dos resultados. Em Mato Grosso, que reúne Amazônia, Cerrado e Pantanal, isso pesa: uma mesma imagem de satélite pode significar coisas distintas em cada bioma.

Da gestão ao chão

A secretária adjunta de Gestão Ambiental da SEMA-MT, Luciane Bertinatto, apontou o gargalo que motivou a discussão:

“Um dos maiores desafios da SEMA é solucionar o Cadastro Ambiental Rural (CAR) com os projetos de recuperação de áreas degradadas, seja de APP ou de reserva legal. Então, esse momento é muito importante para que a gente de fato possa entender o que é restaurar, como fazer isso e como trabalhar isso para que de fato isso vá para o chão. Que nós possamos usar aquilo que temos hoje à disposição, que é a tecnologia. Esperamos alinhar a recuperação de uma área, a viabilidade econômica dessa propriedade e a nossa missão de fazer cumprir o Código Florestal Brasileiro”

A integração de fontes de informação foi um dos pontos centrais. Dados tecnológicos e de campo podem ampliar a capacidade de acompanhar mudanças na vegetação ao longo do tempo, desde que se considerem as limitações e as características de cada área.

Eileen Acosta, coordenadora de Dados e Monitoramento do WRI Brasil, destacou a troca entre instituições: “Todos esses pensadores estão analisando quais são as melhores ferramentas que podemos incorporar e melhorar as plataformas nas secretarias e como integrar as plataformas. A gente acredita que teremos resultados maravilhosos dessa oficina”.

Macedo, por sua vez, defendeu a união entre os saberes: “Se a gente unir a prática com a teoria e a ciência, vamos ter bons resultados”.

O que o programa REM MT representa

O Programa REM MT é uma premiação dos governos da Alemanha e do Reino Unido, por meio do Banco Alemão de Desenvolvimento (KfW), ao estado pelos resultados na redução do desmatamento. Na fase I, entre 2022 e 2025, apoiou 155 projetos, beneficiando 131 organizações sociais, 104 delas associações ou cooperativas, nos três biomas mato-grossenses.

Entre os resultados estão mais de 500 aldeias atendidas, onde vivem 43 povos indígenas, 108 municípios beneficiados, mais de 44 mil pessoas atendidas e 160 mil hectares de desmatamento evitados em 2021 e 2022. A fase II está em execução, com editais publicados para Agricultura Familiar e Povos e Comunidades Tradicionais e para Territórios Indígenas. O programa é coordenado pela SEMA-MT e tem a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) como gestora financeira.

Próximos passos

A oficina teve caráter técnico e colaborativo e não definiu indicadores oficiais, parâmetros de cumprimento ou periodicidade regulatória. A Matriz de Potencial Tecnológico servirá de base para discussões posteriores sobre indicadores, protocolos, periodicidade e operacionalização do monitoramento, com continuidade da avaliação das soluções identificadas.

Com informações de Programa REM MT e SEMA-MT.

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