
Há quase 40 anos, paleontólogos conhecem um grupo misterioso de mamíferos que viveu na época dos dinossauros, os zhelestídeos. O problema é que, na maioria das vezes, só havia dentes. Com base neles, muitos pesquisadores concluíram que esses animais eram parentes próximos dos mamíferos placentários, o grupo que hoje inclui os humanos e a maioria dos mamíferos vivos. Um esqueleto quase completo encontrado no deserto de Gobi, na Mongólia, mostrou que não.
A nova espécie, Tamirkhan balcarceli, foi descrita na revista científica Nature por pesquisadores do Museu Americano de História Natural, da Universidade Stony Brook, da Universidade do Arizona e da Universidade Arcadia.
Os dentes apontavam para o caminho errado
Os dentes dos zhelestídeos eram baixos e arredondados, especializados para comer plantas, bem diferentes dos dentes afiados de comedores de insetos comuns entre os mamíferos do Cretáceo. Isso levou alguns paleontólogos a propor que eles seriam um grupo desconhecido de ungulados, os mamíferos com cascos. Outros debatiam se seriam placentários primitivos ou uma linhagem à parte que desenvolveu traços parecidos.
Estudos de relógio molecular, que estimam a idade dos grupos a partir do DNA de animais vivos, já sugeriam que os placentários surgiram bem antes do fim do Cretáceo. O fóssil novo trouxe evidência física apontando em outra direção.
O que o esqueleto revelou
O Tamirkhan é o zhelestídeo mais completo já encontrado. Tem os dentes arredondados típicos do grupo, mas também incisivos longos que cresciam continuamente e várias características do crânio vistas nos zalambdalestóides, um grupo de pequenos mamíferos parecidos com musaranhos que comiam insetos.
As patas traseiras são longas e finas, com tornozelos característicos, traços inconfundíveis de zalambdalestóide, segundo o paleontólogo Shawn Zack, da Universidade do Arizona. Com 15 a 18 centímetros da cabeça à cauda e pernas traseiras alongadas, o animal lembrava um coelho. Por isso, zhelestídeos às vezes são chamados, informalmente, de coelhos do Cretáceo, embora sejam só parentes distantes dos coelhos atuais.
A conclusão é que os zhelestídeos não eram placentários nem especialmente próximos deles. Os dentes parecidos com os de herbívoros foram, provavelmente, um caso de evolução convergente, quando grupos sem parentesco desenvolvem traços semelhantes por terem modos de vida parecidos.
O limite de um dente
Há mais de 200 anos, o naturalista francês Georges Cuvier defendeu que um único dente permitiria prever a anatomia de um animal inteiro. A paleontóloga Maureen O’Leary, da Stony Brook, coautora do estudo, lembra que dentes seguem entre os fósseis mais informativos, mas o novo trabalho mostra que nem sempre contam como era o animal completo.
Achado em 2004
O fóssil foi encontrado em 2004 por Andres Giallombardo, então aluno de pós-graduação, em uma expedição do museu ao leste do Gobi. Para ele, a descoberta mostra por que o trabalho de campo continua indispensável. O Gobi, junto com sítios do Cazaquistão, do Quirguistão e do Uzbequistão, está entre os poucos lugares onde zhelestídeos se preservaram.
O museu realiza expedições anuais ao deserto desde 1990, em parceria com a Academia de Ciências da Mongólia. Segundo o curador Michael Novacek, o Gobi é um dos únicos lugares onde se encontram rotineiramente mamíferos do Cretáceo tão completos.
Perguntas frequentes
O que eram os zhelestídeos?
Pequenos mamíferos do Cretáceo, conhecidos sobretudo por dentes. O novo fóssil mostra que pertenciam aos zalambdalestóides, e não ao grupo dos placentários.
Qual o tamanho do Tamirkhan?
Entre 15 e 18 centímetros da cabeça à cauda, com patas traseiras longas como as de um coelho.
Com informações do Museu Americano de História Natural e do estudo publicado na Nature.
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