Plantas freiam o avanço das terras secas num planeta com mais CO2

Vegetação de caatinga no interior do Ceará, com um galho em primeiro plano e o semiárido ao fundo

Estudo com 19 modelos climáticos mostra que, quando se considera a forma como as plantas economizam água em uma atmosfera rica em gás carbônico, a expansão das regiões áridas até 2100 fica bem menor do que se previa. O leste do Brasil continua entre os focos persistentes de ressecamento.

As terras secas ocupam hoje 38,58% da superfície continental do planeta e continuarão a crescer neste século, mas em ritmo mais lento do que apontavam as projeções anteriores. A conclusão é de um estudo publicado em 1º de setembro no periódico científico Environmental Research Letters por pesquisadores da Academia Chinesa de Florestas e do Serviço Florestal dos Estados Unidos. O motivo da revisão está nas folhas: com mais dióxido de carbono (CO2) no ar, as plantas perdem menos água, e isso muda o cálculo de quanto o planeta vai secar.

Terras secas são regiões onde a chuva é pequena em relação à capacidade da atmosfera de retirar água do solo e da vegetação. Para delimitá-las, cientistas usam o índice de aridez, a razão entre a precipitação e a evapotranspiração potencial, ou seja, a quantidade máxima de água que evaporaria do solo e transpiraria das plantas se houvesse oferta ilimitada. Pelo critério do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), é terra seca toda área com índice abaixo de 0,65, faixa que vai do subúmido seco ao hiperárido.

Distribuição atual das terras secas no mundo, no período de referência 1994 a 2023. Os tons mais escuros indicam as zonas hiperáridas, concentradas no norte da África e na Península Arábica; o gráfico ao lado mostra a fatia de cada tipo de clima seco na área continental do planeta.
Distribuição atual das terras secas no mundo, no período de referência 1994 a 2023. Os tons mais escuros indicam as zonas hiperáridas, concentradas no norte da África e na Península Arábica; o gráfico ao lado mostra a fatia de cada tipo de clima seco na área continental do planeta. Imagem: Cai et al. (2026), Environmental Research Letters

As estimativas sobre o tamanho dessas áreas nunca foram consensuais. As duas primeiras edições do Atlas Mundial da Desertificação chegaram a 47,2% das terras emersas; a terceira, a 37,2%. Outro levantamento calculou 45,4% para a segunda metade do século 20. Segundo os autores do novo trabalho, boa parte dessas avaliações se baseou em dados climáticos anteriores a 2010, e o clima global mudou de forma considerável na última década.

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A equipe liderada por Yifei Cai e pelo pesquisador Feng Wang, do Instituto de Conservação e Restauração Ecológica e do Instituto de Estudos da Desertificação da Academia Chinesa de Florestas, refez o mapa com dados de chuva e de clima até 2023. Entre 1960 e 2023, as terras secas avançaram, com oscilações de um ano para outro, à média de 39.100 quilômetros quadrados por ano, pouco menos que a área do estado do Rio de Janeiro. O ritmo, porém, diminuiu nas últimas décadas.

Para olhar o futuro, os pesquisadores combinaram as projeções de 19 modelos climáticos globais em três cenários de emissões de gases de efeito estufa, baixo, intermediário e alto. A novidade foi calcular a evapotranspiração de duas maneiras. Uma segue a fórmula convencional. A outra inclui um ajuste para o efeito do CO2 sobre a vegetação: quando a concentração do gás aumenta, os estômatos, pequenos poros das folhas por onde a planta troca gases com o ar, se fecham parcialmente, e a transpiração cai. Esse efeito compensa em parte o aumento da demanda de água da atmosfera provocado pelo aquecimento.

Corte de folha de uma planta suculenta adaptada a ambientes secos, visto ao microscópio com aumento de 400 vezes. No centro, as células-guarda cercam um estômato aberto, o poro por onde a folha troca gases com o ar e perde água.
Corte de folha de uma planta suculenta adaptada a ambientes secos, visto ao microscópio com aumento de 400 vezes. No centro, as células-guarda cercam um estômato aberto, o poro por onde a folha troca gases com o ar e perde água. Foto: Berkshire Community College Bioscience Image Library

Com o ajuste, as terras secas chegam ao período entre 2071 e 2100 ocupando 39,31% dos continentes no cenário de baixas emissões, 39,68% no intermediário e 40,28% no de altas emissões. Isso equivale a um acréscimo de 1,09 milhão a 2,37 milhões de quilômetros quadrados em relação ao período 1994 a 2023. Sem o ajuste, o cenário de altas emissões leva as terras secas a 42,11% dos continentes, uma diferença de 2,44 milhões de quilômetros quadrados, quase a soma das áreas do Amazonas e de Mato Grosso.

A diferença aparece também na velocidade. No cenário de altas emissões, a fórmula convencional projeta expansão de 72.700 quilômetros quadrados por ano, acima do ritmo histórico. Com o efeito do CO2, a taxa cai para 32.200 quilômetros quadrados por ano, abaixo do que se observou desde 1960. Trabalhos anteriores, que não consideravam esse mecanismo, haviam projetado aumentos de 4% a 10% e de 11% a 23% da área seca até o fim do século.

Evolução da fração de terras secas no planeta, de 1960 a 2100. A linha preta mostra o histórico; as linhas coloridas mostram as projeções para três cenários de emissões. No cenário de altas emissões, o cálculo que ignora o efeito do CO2 sobre as plantas (linha marrom mais alta) projeta expansão bem maior do que o cálculo que o inclui.
Evolução da fração de terras secas no planeta, de 1960 a 2100. A linha preta mostra o histórico; as linhas coloridas mostram as projeções para três cenários de emissões. No cenário de altas emissões, o cálculo que ignora o efeito do CO2 sobre as plantas (linha marrom mais alta) projeta expansão bem maior do que o cálculo que o inclui. Imagem: Cai et al. (2026), Environmental Research Letters

Um saldo global modesto não significa pouca mudança. No cenário de altas emissões, a área total de terras secas cresce apenas 1,7 ponto percentual, mas 14,75% da superfície continental muda de categoria climática. As transições para climas mais secos superam as transições para climas mais úmidos em 1,3 a 1,7 vez. A Austrália concentra a maior área em transição em todos os cenários, seguida pelo Brasil, onde a extensão afetada cresce conforme aumentam as emissões.

O estudo também mapeou os pontos onde o índice de aridez muda de forma significativa. Entre 1960 e 2023, o leste do Brasil já aparecia entre os focos de ressecamento, ao lado de Argélia, Líbia, Cazaquistão e da região entre a Mongólia e o nordeste da China. Nas projeções, o leste brasileiro, o norte da África e a Austrália se mantêm como focos persistentes de ressecamento, e o centro australiano pode passar de foco de umidificação a foco de secagem. O noroeste da China tende a seguir ficando mais úmido.

Levar em conta o CO2 altera também o tipo de mudança esperada em cada lugar. Sem o ajuste, os focos de ressecamento cobririam 55,1% das terras secas no cenário de altas emissões; com ele, 42,0%. Em partes da Ásia Central, o sinal chega a se inverter, de ressecamento para umidificação.

Os próprios autores apontam limites. A fórmula ajustada foi desenvolvida para condições sem falta de água, enquanto as terras secas têm vegetação esparsa e perdem muita umidade pela evaporação direta do solo, processo controlado mais pela água disponível do que pelo CO2. Por isso, eles consideram que a extensão futura das terras secas deve ficar entre os resultados das duas fórmulas. O modelo também não inclui mudanças no uso da terra, irrigação ou retirada de água subterrânea, fatores que os pesquisadores recomendam incorporar em avaliações futuras de risco e adaptação.

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