
Curta-metragem previsto para março de 2026 entrelaça a história de uma gaúcha ligada à liderança da expedição e de uma mulher Kalapalo
Uma história contada a partir das mulheres
Em vez de acompanhar apenas os nomes mais conhecidos da Expedição Roncador-Xingu, um novo documentário volta o olhar para duas mulheres ligadas à transformação do interior de Mato Grosso. O curta-metragem Memórias de Alda recupera a trajetória de Alda Vanique, esposa do coronel Flaviano de Mattos Vanique, e entrelaça sua história à de Diacui, indígena do povo Kalapalo que se casou com o sertanista Ayres Cunha em 1952.
Com previsão de lançamento para março de 2026, a obra é dirigida por Fátima Rodrigues e produzida em Barra do Garças. A divulgação ocorreu em 11 de fevereiro de 2026, em um momento de revisão das narrativas associadas à chamada Marcha para o Oeste. A proposta é mostrar que a presença feminina não esteve fora dos processos de deslocamento, ocupação territorial e formação de comunidades no centro do país, ainda que os registros mais conhecidos tenham se concentrado em homens ligados à expedição e ao indigenismo.
De uma vida no Sul ao interior de Mato Grosso
Alda Vanique era uma jovem mulher da alta sociedade gaúcha, com vida social intensa, quando deixou o Rio Grande do Sul em 1946 para viver no interior de Mato Grosso. Ela se mudou para a região de Nova Xavantina ao lado do marido, o coronel Flaviano de Mattos Vanique, figura central nos anos iniciais da Expedição Roncador-Xingu. A mudança colocou Alda diante de um ambiente cultural e territorial muito diferente daquele em que havia sido criada.
O documentário apresenta os desafios dessa passagem e a memória que Alda deixou entre os moradores. Em Nova Xavantina, ela passou a integrar a narrativa de criação do município e ficou conhecida no imaginário popular como a “primeira-dama” da cidade. A lembrança local, porém, ganha outra dimensão quando é colocada ao lado das versões oficiais da expedição, tradicionalmente organizadas a partir da trajetória do marido e, depois, dos irmãos Villas-Bôas, que assumiram a condução da frente de exploração após a saída de Vanique.
Diacui amplia o sentido da expedição
A segunda trajetória acompanhada pelo curta é a de Diacui, mulher indígena do povo Kalapalo. Seu casamento com Ayres Cunha, em 1952, estabelece uma ligação direta entre a história de uma comunidade indígena e os personagens associados à expansão das frentes sertanistas no centro do Brasil. Ao colocar Alda e Diacui na mesma narrativa, o filme não apresenta experiências idênticas, mas aproxima duas perspectivas femininas formadas em contextos sociais, culturais e territoriais distintos.
As histórias são atravessadas por tragédia pessoal, conquista territorial e mudanças provocadas pela Marcha para o Oeste, política lançada durante o governo de Getúlio Vargas. A Expedição Roncador-Xingu foi organizada entre 1943 e 1961, em um eixo que conectou Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Meses após a morte de Alda, em 1946, o coronel Vanique deixou a liderança da expedição, que passou aos irmãos Villas-Bôas. A sequência de acontecimentos ajuda a deslocar o foco da ação militar e sertanista para as relações humanas que também sustentaram aquela história.
Memória local, pesquisa e produção do filme
Para construir o documentário, a equipe realizou entrevistas com moradores e historiadores de Barra do Garças, Nova Xavantina e Cuiabá, em Mato Grosso, além de Rio de Janeiro e Porto Alegre. Entre os entrevistados está Cláudio de Mello Sander, sobrinho de Alda Vanique, que visitou Nova Xavantina em dezembro de 2025 acompanhado das sobrinhas-netas Isabella Smith Sander e Débora Smith Sander. A presença da família aproxima a pesquisa audiovisual das lembranças preservadas na cidade.
A produção foi aprovada pelo Edital nº 15/2023/SECEL-MT e financiada com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso. O projeto também conta com apoio institucional do Núcleo de Produção Digital da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Araguaia. O contexto histórico se estende até 1961, quando foi instituído o Parque Nacional do Xingu, depois de outras cidades terem sido criadas em pontos de entroncamento usados como bases da expedição.
O que muda quando a história ganha outras vozes
Ao recuperar Alda e Diacui, Memórias de Alda não substitui uma narrativa por outra. A proposta apresentada pela diretora Fátima Rodrigues é resgatar experiências femininas que tiveram pouca visibilidade na história oficial do país. Alda aparece como uma mulher deslocada de seu ambiente de origem e inserida na formação de uma cidade mato-grossense. Diacui surge como uma mulher Kalapalo cuja trajetória se cruza com o avanço das frentes sertanistas e com as relações estabelecidas naquele período.
Essa mudança de perspectiva também altera a leitura sobre a Expedição Roncador-Xingu. O episódio deixa de ser apenas uma sucessão de lideranças, deslocamentos e bases territoriais e passa a incluir as memórias de quem viveu suas consequências no cotidiano. A obra prevista para março de 2026 nasce em Barra do Garças, mas percorre lembranças de diferentes partes do país e devolve ao centro da história personagens que permaneceram nas margens dos relatos mais conhecidos. Quando uma cidade preserva a memória de uma mulher e um filme decide escutá-la, o passado ganha novas perguntas sem precisar abandonar os fatos que o formaram.
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