
Análise do IIAP examinou 728 peixes em períodos de seca e cheia e relacionou a presença de resíduos à circulação das águas.
Plástico aparece no estômago de peixes amazônicos
O conteúdo estomacal de peixes do rio Ucayali, no Peru, revelou uma presença que acompanha o deslocamento da água pelos ambientes amazônicos. Em um estudo divulgado em 22 de setembro de 2026, pesquisadores encontraram plástico em 39,11% dos peixes onívoros analisados no rio. O material também apareceu em exemplares da lagoa Yarinacocha, outro ambiente aquático investigado pela equipe do Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana, o IIAP.
A ocorrência não ficou restrita a um grupo alimentar. O estudo detectou resíduos em peixes carnívoros e onívoros, com diferenças entre os dois locais. Entre os onívoros, 39,11% dos exemplares do Ucayali apresentaram plástico, contra 19,11% dos peixes analisados em Yarinacocha. Entre os carnívoros, o resultado se inverteu: 33,56% dos peixes da lagoa tinham vestígios, enquanto 19,09% dos exemplares do Ucayali apresentaram o mesmo tipo de registro.
Pesquisadores analisaram 728 peixes em duas estações
A equipe do IIAP examinou o conteúdo estomacal de 728 peixes capturados no rio Ucayali e na lagoa Yarinacocha. A coleta ocorreu em duas campanhas de amostragem, uma durante a época de seca e outra no período de cheia. A comparação entre as estações permitiu observar os peixes em condições distintas de nível e circulação da água, mantendo o foco na presença de resíduos no aparelho digestivo.
Entre as espécies avaliadas estavam peixes carnívoros como a corvina, o machete e a chambira, além de sardinhas classificadas como onívoras. A bióloga Antonia Vela Díaz, chefe de projetos de aquicultura e pesca do IIAP Ucayali, explicou que a equipe também comparou exemplares coletados perto de núcleos populacionais com peixes de áreas mais distantes. Essa divisão ajudou a examinar a relação entre os locais de ocorrência dos animais e a distribuição do plástico nos ambientes estudados.
Correntes podem levar resíduos para longe das cidades
A presença de plástico em áreas afastadas dos núcleos habitados pode estar ligada ao movimento da água. Segundo Vela Díaz, resíduos descartados perto de áreas povoadas podem ser carregados pela correnteza e se acumular em outros trechos dos rios e lagos. Nesses pontos, os peixes entram em contato com os materiais e podem ingeri-los, mesmo quando o local de coleta está distante da área onde o descarte ocorreu.
Os resultados, portanto, não indicam apenas uma concentração junto às margens ocupadas. Eles mostram que o plástico pode circular entre diferentes partes do sistema aquático e alcançar ambientes usados pelos peixes para alimentação. A diferença entre carnívoros e onívoros também revela que a ocorrência dos resíduos variou conforme o grupo e o ambiente. O estudo registra essa distribuição, mas não transforma os percentuais em uma única explicação para todos os peixes analisados.
Fragmentos podem bloquear o estômago e afetar o desenvolvimento
O problema observado pelos pesquisadores não se limita ao registro de plástico no estômago. Em uma investigação anterior, a equipe encontrou um peixe com a estrutura corporal subdesenvolvida e o estômago quase completamente obstruído por um fragmento de bolsa. De acordo com Vela Díaz, detritos desse tipo podem comprometer o crescimento e a reprodução dos peixes, além de ocupar espaço no sistema digestivo.
Como resposta, a pesquisadora defendeu o aprimoramento da gestão de resíduos sólidos para impedir que o plástico chegue aos cursos d’água. Ela recomendou que as famílias separem o lixo em casa e que os governos locais assegurem sistemas adequados de coleta e descarte. Vela também pediu o reforço dessas práticas nas comunidades e entre a população em geral. No Ucayali e em Yarinacocha, a trajetória de um resíduo pode começar em uma área povoada e terminar no estômago de um peixe, ligando a rotina do descarte ao funcionamento dos rios amazônicos.
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