Relatório aponta recuperação de tigres, elefantes e tartarugas após décadas de perdas na biodiversidade

Relatório aponta recuperação de tigres, elefantes e tartarugas após décadas de perdas na biodiversidade
Foto: Aditya Singh/Getty Images

Avaliação do WWF mostra que a natureza ainda pode se recuperar, mas exige ações contínuas e em grande escala.

Durante décadas, a principal notícia sobre a natureza foi o desaparecimento de espécies e a redução de populações animais. O Relatório Planeta Vivo 2026, publicado pelo World Wildlife Fund, acrescenta uma mudança importante a esse quadro: mesmo depois de uma queda global de 73% nas populações de animais silvestres monitoradas entre 1970 e 2022, alguns programas de conservação já conseguiram produzir recuperação mensurável.

O documento cita o crescimento de mais de 70% na população de tigres selvagens nos últimos 15 anos, a estabilidade ou expansão de muitas populações de elefantes africanos e a melhora na situação de tartarugas-verdes, atuns-rabilhos e lontras-marinhas. O resultado não apaga a dimensão da crise, mas indica que a trajetória não é necessariamente irreversível.

Recuperações que levaram décadas para aparecer

Os casos reunidos pelo WWF têm algo em comum: nenhum deles foi resolvido por uma única medida ou por uma resposta imediata. A recuperação dependeu de metas claras, planejamento, financiamento e continuidade, inclusive em períodos de cortes de recursos e de pouco avanço visível.

Esse intervalo entre a decisão e o resultado é central para entender a mensagem do relatório. Uma população pode continuar vulnerável durante anos mesmo depois de uma política de proteção começar. A ausência de uma melhora rápida, portanto, não significa necessariamente que a estratégia fracassou. Em alguns casos, é preciso manter o esforço por décadas para que a tendência se torne evidente.

Segundo o WWF, as populações de animais silvestres monitoradas caíram 73% entre 1970 e 2022. O indicador acompanha mudanças no tamanho de populações de espécies, e não representa diretamente a perda de todas as espécies do planeta ou a quantidade total de animais existentes.

Da ameaça de colapso aos pontos de virada positivos

Edições anteriores do relatório deram destaque aos chamados pontos de não retorno negativos. São limites a partir dos quais um ecossistema pode entrar em uma condição degradada, cuja recuperação se torna muito difícil. A edição de 2026 desloca parte do foco para o movimento contrário: os pontos de virada positivos.

A ideia é que uma mudança inicialmente pequena pode ganhar velocidade quando determinadas condições são alcançadas. Mais proteção pode aumentar a sobrevivência de uma espécie, estimular novos investimentos e fortalecer a confiança em políticas de conservação. O processo deixa de depender apenas de ações isoladas e passa a se reforçar ao longo do tempo.

O relatório relaciona esse conceito à transição energética. O setor de energia é apontado como o maior responsável individual pela mudança ambiental global e responde por cerca de três quartos das emissões mundiais de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, a energia solar deixou de ser uma alternativa de nicho e se tornou a fonte mais barata para novos projetos de geração elétrica na maioria dos países.

A energia já mudou de direção, segundo os autores

Outro dado citado é o desempenho dos veículos elétricos. Em 2024, eles representaram mais de um quarto das vendas de carros novos. O uso de carvão também está em queda em muitas das economias mais ricas do mundo.

Para Mike Barrett, principal assessor científico do WWF e autor principal do relatório, essas mudanças indicam que a transição para fontes renováveis já ultrapassou um ponto de virada positivo. “I would confidently say that we have passed a positive tipping point in the energy system”, afirmou.

O raciocínio não significa que as emissões tenham deixado de ser um problema ou que a transição esteja concluída. A leitura dos autores é que a expansão das renováveis tende a ganhar força e que sua conclusão se tornou inevitável. O desafio passa a ser executar essa transformação na velocidade necessária, evitando que regiões e grupos sociais arquem sozinhos com os custos da mudança.

O que isso representa para a Amazônia

Para os estados da Amazônia, a discussão conecta três frentes que costumam ser tratadas separadamente: proteção da biodiversidade, produção de energia e organização dos sistemas de alimentos e finanças. O relatório afirma que esses últimos dois sistemas também impulsionam a degradação ambiental, embora as mudanças neles ainda estejam em estágio anterior ao observado no setor energético.

Na prática, a mensagem para a região é que conservação não deve ser avaliada apenas pela criação de áreas protegidas ou pela reação a perdas já ocorridas. A experiência descrita pelo WWF reforça a importância de metas de longo prazo, monitoramento e políticas que permaneçam ativas mesmo quando os resultados não aparecem rapidamente.

O documento não transforma os sinais de recuperação em garantia para a fauna amazônica. Também não afirma que a perda global foi interrompida. O que apresenta é uma base para esperança apoiada em evidências: quando proteção, recursos e continuidade se combinam, populações animais podem voltar a crescer.

Esperança baseada em ação, não em expectativa

O WWF usa a palavra esperança em um sentido prático. Para os autores, ela reúne um objetivo definido, um caminho para alcançá-lo, a percepção de que as pessoas podem influenciar o resultado e a capacidade de persistir diante de obstáculos.

“The science is telling us that although humanity has done the most appalling things to this planet for many decades, it’s not too late”, disse Barrett. Na avaliação dele, ainda é possível interromper a perda da natureza e revertê-la.

A recuperação de tigres, elefantes, tartarugas-verdes, atuns-rabilhos e lontras-marinhas mostra o potencial desse caminho, mas também seu custo em tempo e persistência. Os próximos passos dependem de levar soluções já disponíveis para sistemas de alimentação, finanças, energia e conservação em uma escala compatível com o tamanho do problema.

Com informações de World Wildlife Fund.

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